{"id":13142,"date":"2016-06-09T13:00:05","date_gmt":"2016-06-09T16:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/?p=13142"},"modified":"2023-12-30T16:05:45","modified_gmt":"2023-12-30T19:05:45","slug":"ponto-de-fuga-tomb-raider-e-as-percepcoes-inatas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/ponto-de-fuga-tomb-raider-e-as-percepcoes-inatas\/","title":{"rendered":"Ponto de Fuga: Tomb Raider e as &#8220;Percep\u00e7\u00f5es Inatas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-13156\" src=\"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Z-pontos.jpg\" alt=\"Z-pontos\" width=\"1000\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Z-pontos.jpg 1000w, https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Z-pontos-300x120.jpg 300w, https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Z-pontos-500x200.jpg 500w, https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Z-pontos-624x250.jpg 624w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de come\u00e7ar a deliberar sobre o tema dessa semana, gostaria de explanar a minha vontade de voltar futuramente ao tema da coluna do m\u00eas passado, pois creio que \u00e9 um tema instigante e merece uma segunda an\u00e1lise mais cuidadosa. Nesse m\u00eas que ser\u00e1 aberto pelo meu texto, vamos abordar os <strong>discursos <\/strong>presentes nos jogos, ou seja, discutiremos a import\u00e2ncia de compreender onde e como os jogos s\u00e3o produzidos e como isso pode explicar muita coisa sobre a produ\u00e7\u00e3o das tem\u00e1ticas e das artes nos games.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como todos os jogos s\u00e3o produzidos por pessoas e todo tipo de intera\u00e7\u00e3o entre pessoas determina uma atividade cultural, escolherei ent\u00e3o uma s\u00e9rie de jogos em espec\u00edfico para facilitar a an\u00e1lise. <em>Tomb Raider <\/em>\u00e9 uma das s\u00e9ries de <em>videogames <\/em>mais importantes da Hist\u00f3ria, e sua personagem \u2013 que entrou para o <em>Guinness Book <\/em>em 2006 como a hero\u00edna mais importante dos jogos \u2013 \u00e9 um grande s\u00edmbolo da cultura jovem nos \u00faltimos anos, dificilmente n\u00e3o encontramos adolescentes ou at\u00e9 mesmo adultos fantasiados \u2013 fazendo <em>cosplay <\/em>(um hobby que consiste em fantasiar-se de personagens)<em> \u2013<\/em> da Lara Croft nas feiras de jogos, quadrinhos e animes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O alcance da franquia \u2013 jogos, filmes e quadrinhos \u2013 \u00e9 um ponto importante a ser destacado, pois a abrang\u00eancia do jogo est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cultural constru\u00edda pela intera\u00e7\u00e3o jogador-jogo, ou seja, na medida em que o jogo \u00e9 popularizado, reverbera todo um ide\u00e1rio sob quem o joga e esse, por sua vez, cria uma s\u00e9rie de <em>plurissignifica\u00e7\u00f5es<\/em> partindo das experi\u00eancias travadas com o <em>software.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um importante autor contempor\u00e2neo a respeito da tem\u00e1tica do Imperialismo \u00e9 o palestino Edward Said, al\u00e9m de cr\u00edtico liter\u00e1rio e ter produzido duas grandes obras a respeito das pr\u00e1ticas imperiais \u2013 <em>Orientalismo<\/em> e <em>Cultura e Imperialismo<\/em> -, foi um grande ativista da causa palestina. Edward Said, na introdu\u00e7\u00e3o do livro Cultura e Imperialismo, tenta mostrar aos seus leitores suas motiva\u00e7\u00f5es ao construir seus escritos, ao afirmar:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c(&#8230;) a segunda raz\u00e3o \u00e9 que foi nesses tr\u00eas pa\u00edses em cujas \u00f3rbitas nasci, cresci e agora vivo. Embora me sinta em casa neles, continuo, como oriundo do mundo \u00e1rabe e mu\u00e7ulmano, a ser algu\u00e9m que pertence tamb\u00e9m ao outro lado. Isso me possibilitou, em certo sentido, viver nos dois lados e tentar intermedi\u00e1-los.\u201d (SAID, 2011, p. 26)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na passagem acima, Said tece coment\u00e1rios sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com a Inglaterra, a Fran\u00e7a e a mais nova pot\u00eancia mundial, os EUA. O que o torna original \u00e9 que, por ser palestino que viveu grande parte de sua vida no \u201cmundo ocidental\u201d, conseguiu transpor suas experi\u00eancias &#8211; nos dois lados &#8211; em seus livros, algo permitiu a feitura da ideia central de suas obras, que consiste em que o oriente seria uma constru\u00e7\u00e3o do ocidente, ou seja, o que entendemos \u2013 enquanto ocidentais \u2013 a respeito do oriente foi constru\u00eddo hist\u00f3rico-culturalmente por olhos ocidentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/images5.fanpop.com\/image\/photos\/30900000\/Lara-Croft-tomb-raider-30982727-500-313.jpg\" alt=\"\" width=\"653\" height=\"409\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto que marca a singularidade da literatura saidiana \u00e9 a sua capacidade de ressaltar que o dom\u00ednio do ocidente sob o oriente n\u00e3o \u00e9 uma simples quest\u00e3o militar ou econ\u00f4mica, mas se deu atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o cultural, em outras palavras, a autoridade constru\u00edda pelo saber. No primeiro cap\u00edtulo de <em>Orientalismo, <\/em>atrav\u00e9s do di\u00e1logo com Arthur James Balfour, nos elucida como a instrumentaliza\u00e7\u00e3o de estruturas culturais pode representar um importante aspecto no processo de domina\u00e7\u00e3o do <em>outro<\/em>, como podemos observar na passagem abaixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c(&#8230;) quando Balfour justifica a necessidade de ocupa\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica do Egito, e n\u00e3o principalmente com o poder econ\u00f4mico ou militar. Para Balfour, o conhecimento significa examinar uma civiliza\u00e7\u00e3o desde as suas origens ao seu apogeu e ao seu decl\u00ednio. (\u2026) E a autoridade nesse ponto significa que \u201cn\u00f3s\u201d devemos negar autoridade a \u201cele\u201d &#8211; o pa\u00eds oriental \u2013 porque o conhecemos e ele existe, num certo sentido, assim como o conhecemos.\u201d (SAID, 2007, p. 63).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, podemos afirmar que a autoridade cultural do ocidente perante o oriente \u2013 e tudo que \u00e9 diferente \u2013 construiu-se atrav\u00e9s de processos culturais e por esse motivo se naturalizou como superior e mesmo o sujeito mais cr\u00edtico do Imperialismo n\u00e3o conseguiria se desembara\u00e7ar desse processo de cristaliza\u00e7\u00e3o cultural. Balfour n\u00e3o nega a superioridade inglesa sob o Egito, ele apenas as julga naturais (SAID, 2007, p. 63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo citado por Said para explicitar a naturaliza\u00e7\u00e3o da superioridade europeia em detrimento dos \u201c<em>b\u00e1rbaros incivilizados dos tr\u00f3picos\u201d <\/em>\u00e9 a novela <em>Cora\u00e7\u00e3o das Trevas <\/em>do viajante ingl\u00eas Joseph Conrad, onde tece duras cr\u00edticas \u00e0 brutalidade empreendida pelos belgas na \u00c1frica. Mesmo se propondo a criticar o horror das pr\u00e1ticas imperiais, os africanos em sua obra n\u00e3o s\u00e3o observados como sujeitos, at\u00e9 mesmo o meio ambiente \u2013 as vastas florestas \u2013 foram descritas como locais de doen\u00e7as e animais desconhecidos. Em outras palavras, o local onde existia o <em>ex\u00f3tico, o desconhecido<\/em>. <em>\u201c(&#8230;) Essa narrativa, por sua vez, est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 for\u00e7a redentora, bem como \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o e ao horror, da miss\u00e3o europeia no mundo negro (&#8230;)\u201d<\/em> (SAID, 2011, p. 63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como em <em>O cora\u00e7\u00e3o das trevas,<\/em> que tentou duramente criticar a desumanidade do Imperialismo, outras obras s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es culturais da autoridade cultural do mundo ocidental a respeito dos demais. O jogo <em>Tomb<\/em> Raider, ent\u00e3o, pode ser analisado nesse processo. Se observarmos a personagem principal, <em>Lara Croft <\/em>\u00e9 uma antrop\u00f3loga brit\u00e2nica que viaja pelo mundo desbravando hist\u00f3rias e artefatos de civiliza\u00e7\u00f5es antigas, que ficam situados constantemente em localidades que antes foram dom\u00ednios imperiais e tais lugares s\u00e3o quase sempre in\u00f3spitos, como grandes florestas ou terr\u00edveis desertos, que abrigam lendas, animais selvagens e atividades paranormais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/selectgame.gamehall.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Tomb-Raider-Lara-Croft-Wallpaper-Full-HD-1920x1080-Hot-640x360.jpg\" alt=\"\" width=\"716\" height=\"403\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para poder exemplificar melhor os levantamentos alocados no par\u00e1grafo acima, podemos pegar como base a afirmativa do professor Leo Name, que, em seu artigo <em>Geopol\u00edtica da imagem e a geografia de Indiana Jones, <\/em>nos elucida a respeito das grava\u00e7\u00f5es dos filmes da s\u00e9rie <em>Indiana Jones. <\/em>Leo Name demonstra que os locais utilizados, em v\u00e1rios momentos, n\u00e3o correspondem com os locais descritos no filme. Em uma das ocasi\u00f5es, isso ocorreu por conta do enredo de uma das pel\u00edculas ter ido de encontro com pr\u00e1ticas culturais indianas, o que levou os diretores a mudarem os locais onde supostamente seriam desenroladas as cenas, que, no filme, se passaram na \u00cdndia.\u00a0Segundo Leo Name:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cSem alternativas, a produ\u00e7\u00e3o decidiu transferir as filmagens para o Sri Lanka, onde foram escolhidos os arredores da cidade de Kandy para as tomadas da aldeia e das bel\u00edssimas paisagens vislumbradas por Indiana Jones, Willie e Shorty no caminho para o Pal\u00e1cio Pankot, lugar que por sua vez \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios e pinturas de fundo constru\u00eddos em est\u00fadio com imagens de arquivo de um pal\u00e1cio em Jaipur, na \u00cdndia (&#8230;).\u201d<\/em> (NAME, 2008, p. 49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir disso, podemos perceber que o local n\u00e3o \u00e9 o mais importante, o que interessa de fato \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de paisagens que possam lembrar pa\u00edses de terceiro mundo, que alimentem a constru\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica caricaturada, formada pelo ocidente acerca do oriente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como no filme, os lugares explorados tanto por Henry Jones ou por Lara Croft \u2013 ambos ocidentais e arque\u00f3logos &#8211; s\u00e3o sempre caracterizados por uma natureza latente e por serem moradia de seitas religiosas demon\u00edacas e governos corruptos, e que dessa forma precisam da a\u00e7\u00e3o de um estrangeiro para\u00a0 resolver problemas e decifrar enigmas internos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa coluna n\u00e3o tem como inten\u00e7\u00e3o afirmar que os produtores do Tomb Raider &#8211; e tamb\u00e9m outros jogos \u2013 t\u00eam o intuito de criar uma atmosfera de superioridade do mundo europeu, mas, sim, demonstrar que os discursos culturais produzidos por anos de pr\u00e1ticas imperialistas est\u00e3o presentes no jogo. At\u00e9 porque autores consagrados como Eric Hobsbawm \u2013 um dos maiores pensadores do s\u00e9culo XX \u2013 acabam por ser engolidos pelo processo hist\u00f3rico que, como j\u00e1 dito, cristalizou a cultura ocidental como central, segundo Mike Davis:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cMas enquanto o corti\u00e7o dickensiano subsiste no curr\u00edculo da historia mundial, os filhos da fome de 1876 e 1899 desaparecem. Quase sem exce\u00e7\u00e3o, os historiadores modernos que escrevem sobre a hist\u00f3ria mundial do sec. XIX, de um privilegiado ponto de vista metropolitano tem ignorado as mega-secas e fomes de fins da era vitoriana que engoliria o que agora chamamos de \u201cterceiro mundo\u201d. Eric Hobsbawm, por exemplo, n\u00e3o faz nenhuma insinua\u00e7\u00e3o em sua famosa trilogia sobre a Hist\u00f3ria do Sec. XIX as piores fomes em talvez 500 anos na \u00cdndia e da China, embora cite a grande fome na Irlanda, assim como a fome russa de 1891-2 (\u2026)\u201d <\/em>(DAVIS, 2002: 18)<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rent\u00e1vel nesse debate proposto por Davis \u00e9 que podemos compreender a partir dele que os sujeitos que escrevem a hist\u00f3ria tamb\u00e9m fazem parte dela, em outras palavras, n\u00e3o existe homem \u00e0 frente do seu tempo. Assim, as interpreta\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria que levam em considera\u00e7\u00e3o os \u201cb\u00e1rbaros\u201d em primeira pessoa ainda s\u00e3o escassas, e essa \u00e9 uma das quest\u00f5es que permeiam o presente projeto: Por que os jogos ainda hoje s\u00e3o t\u00e3o caricaturais em suas refer\u00eancias a \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica do Sul?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo que foge da perspectiva desse trabalho, contudo que, exemplifica claramente o problema apresentado por Davis, \u00e9 o caso do estudo de Historia da \u00c1frica, que se tornou obrigat\u00f3rio no Brasil em 2006 com a lei 10.639, e, mesmo assim, ainda \u00e9 muito comum nas escolas o estudo a respeito dos negros estar atrelado apenas ao per\u00edodo colonial e ao tr\u00e1fico negreiro, como se os nativos do continente Africano s\u00f3 existissem ap\u00f3s o contato com o Europeu.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/10406431_702036486561645_8899101243727556583_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11811 alignleft\" src=\"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/10406431_702036486561645_8899101243727556583_n.jpg\" alt=\"10406431_702036486561645_8899101243727556583_n\" width=\"75\" height=\"84\" \/><\/a>S\u00e1vyo Enrico<\/strong><br \/>\nProfessor de Hist\u00f3ria<br \/>\n<em>&#8220;Vim pra sabotar teu racioc\u00ednio&#8221;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de come\u00e7ar a deliberar sobre o tema dessa semana, gostaria de explanar a minha vontade de voltar futuramente ao tema da coluna do m\u00eas passado, pois creio que \u00e9 um tema instigante e merece uma segunda an\u00e1lise mais cuidadosa. 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