{"id":48359,"date":"2024-02-27T10:05:26","date_gmt":"2024-02-27T13:05:26","guid":{"rendered":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/?p=48359"},"modified":"2024-02-27T10:05:31","modified_gmt":"2024-02-27T13:05:31","slug":"o-paradoxo-da-perfeicao-como-buscar-a-realidade-nos-afastou-dela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/o-paradoxo-da-perfeicao-como-buscar-a-realidade-nos-afastou-dela\/","title":{"rendered":"O Paradoxo da Perfei\u00e7\u00e3o: Como Buscar a Realidade nos Afastou Dela"},"content":{"rendered":"\n<p>Imagine entrar em um mundo onde cada detalhe, da textura das \u00e1rvores \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o do vento, \u00e9 t\u00e3o realista que por um momento voc\u00ea esquece de sua pr\u00f3pria realidade. Este \u00e9 o sonho que guiou a evolu\u00e7\u00e3o dos videogames nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o dos gr\u00e1ficos e tecnologias, como os \u00f3culos de Realidade Virtual.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a evolu\u00e7\u00e3o, t\u00edtulos como Far Cry, The Last of Us, Tomb Raider, The Witcher, dentre in\u00fameros outros, n\u00e3o s\u00f3 elevaram a r\u00e9gua da narrativa e gr\u00e1ficos, mas tamb\u00e9m transformaram a jogabilidade. A\u00e7\u00f5es simples, como coletar uma arma ou item de recupera\u00e7\u00e3o de energia do personagem, transformaram-se em uma verdadeira epopeia de ter que catar um peda\u00e7o de barbante, uma corda, um toco de madeira e um peda\u00e7o de metal para fazer um simples arco e flecha para ca\u00e7ar um calango, procurar onde assar o mesmo e depois disso tudo recuperar 2% do life do personagem (eu sei que exagerei, mas voc\u00ea, leitor atento, percebeu aonde quero chegar).<\/p>\n\n\n\n<p>E tudo isso n\u00e3o veio a troco de nada. Muito pelo contr\u00e1rio. Partiu-se para um aumento exponencial de tempo e custos de produ\u00e7\u00e3o, culminando em um ano de 2024 sem jogos exclusivos para o PlayStation 5 e uma crise paralela para o Xbox da Microsoft. Impens\u00e1vel um cen\u00e1rio desses at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Ascens\u00e3o da Complexidade<\/strong><br>No impulso em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 busca pela perfei\u00e7\u00e3o nos jogos, encontramos um paradoxo intrigante: quanto mais as produtoras de aprofundaram na cria\u00e7\u00e3o de mundos realistas (e, por consequ\u00eancia, complexo), mais se distanciaram da simplicidade, que uma vez fez dos jogos uma fonte universal de alegria.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jovens mancebos com menos de 30 anos n\u00e3o v\u00e3o lembrar, mas, nos prim\u00f3rdios, os jogos eram simples. Extremamente simples. O supra sumo da simplicidade nesta primeira fase, a meu ver, era Pong, ainda nos anos 70.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1980 as coisas ficaram ligeiramente mais complexas. Os equipamentos permitiam jogos mais elaborados, mas ainda assim, f\u00e1ceis de aprender e jogar. Tudo bem que o grau de dificuldade de um Battletoads, Mega-man e Ninja Gaiden, dos anos 1980, por exemplo, eram elevados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de puni\u00e7\u00e3o do jogador, mas tinha uma finalidade: para aumentar o fator replay. Mas a jogabilidade em si, era relativamente simples. Na d\u00e9cada de 1990 o sarrafo aumentou e assim por diante (j\u00e1 estou me sentindo velho\u2026).<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a ind\u00fastria come\u00e7ou a buscar uma imers\u00e3o mais profunda, uma realidade mais palp\u00e1vel. Jogos come\u00e7aram a exigir mais dos jogadores: mais tempo, mais habilidade e mais paci\u00eancia. A complexidade tornou-se um sinal de qualidade e inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, aqui reside o nosso primeiro paradoxo: ao criar mundos onde a realidade \u00e9 recriada com uma precis\u00e3o obsessiva, acabamos criando uma barreira. Uma barreira que separa os jogadores casuais daqueles dispostos a mergulhar de cabe\u00e7a nessa nova realidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Custo da Perfei\u00e7\u00e3o<\/strong><br>Desenvolver estes mundos detalhados vem com um pre\u00e7o literal dividido em 2 fatores: tempo e dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O aumento dos custos de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 um reflexo direto da demanda por mais detalhes, mais complexidade e mais conte\u00fado. E aqui n\u00e3o entram s\u00f3 programadores, designers, testadores. S\u00e3o mais roteiristas, atores para capturas de movimentos, dubladores e todos os penduricalhos decorrentes dessa expans\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, este investimento tem levado a ciclos de desenvolvimento mais longos e a uma press\u00e3o crescente sobre as equipes de desenvolvimento.<br>O paradoxo aqui \u00e9 dolorosamente claro: ao tentar criar algo sem limites, encontramos limita\u00e7\u00f5es financeiras e temporais que nunca imaginamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejam o que aconteceu Cyberpunk 2079, que passou quase 1 d\u00e9cada para ser desenvolvido e, quando foi lan\u00e7ado, o produto era, no m\u00ednimo, ruim, e teve de passar por in\u00fameras atualiza\u00e7\u00f5es para se tornar um jogo condizente com sua proposta original. Isso levou a uma nova sobrecarga ao time de programadores que tiveram de trabalhar exaustivamente para corrigir o jogo e o salvar de um fracasso financeiro que se anunciava com as devolu\u00e7\u00f5es dos consumidores. (isso j\u00e1 aconteceu em 1982, com o jogo E.T para Atari, bode expiat\u00f3rio para o primeiro crash da ind\u00fastria dos videogames).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O pre\u00e7o da perfei\u00e7\u00e3o<\/strong><br>Em pleno 2024, esse paradoxo se manifestou de maneira alarmante quando a Microsoft anunciou novos planos, com a pitada de tempero de lan\u00e7ar quebrar a exclusividade de alguns de seus t\u00edtulos para oferece-los em plataformas Sony e Nintendo.<\/p>\n\n\n\n<p>E a situa\u00e7\u00e3o escalou para um n\u00edvel mais preocupante ainda quando a Sony revelou que n\u00e3o teria novos jogos exclusivos para o PlayStation 5 neste ano, um cen\u00e1rio inimagin\u00e1vel que reflete a magnitude desse desafio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2024, portanto, n\u00e3o teremos nenhum God of War, Spider-Man, Horizon, Gran Turismo, Sackboy, Halo, Gears of War e por ai vai\u2026.<br>Isso era impens\u00e1vel at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Rea\u00e7\u00e3o dos Jogadores e da Ind\u00fastria<\/strong><br>A complexidade e o realismo extremo certamente t\u00eam seu p\u00fablico, mas e os jogadores casuais? Aqueles que jogavam para relaxar, para escapar da realidade por alguns momentos?<br>Este \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do paradoxo: na busca por criar algo supremamente real, algo que pudesse rivalizar com a pr\u00f3pria vida, come\u00e7amos a afastar aqueles que buscavam nos jogos um ref\u00fagio da complexidade do mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p>As vendas de consoles sofrem, as produtoras se preocupam, e um ciclo preocupante come\u00e7a a se formar, amea\u00e7ando a estrutura sobre a qual a ind\u00fastria dos jogos foi constru\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em busca do Anakin Skywalker e do equil\u00edbrio para a For\u00e7a<\/strong><br>O paradoxo da complexidade nos videogames nos ensina uma li\u00e7\u00e3o valiosa sobre a natureza do progresso. Em nossa busca por simular a realidade, n\u00e3o devemos esquecer que a ess\u00eancia dos jogos reside na capacidade de trazer divers\u00e3o e, porque n\u00e3o, escapismo do mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio da ind\u00fastria, \u00e0 medida que avan\u00e7a, \u00e9 encontrar o equil\u00edbrio entre a complexidade e a<br>acessibilidade, entre o realismo e a fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Talvez a solu\u00e7\u00e3o esteja em abra\u00e7ar a diversidade<\/strong><br>de experi\u00eancias, oferecendo tanto jogos de alta complexidade para aqueles que procuram uma experi\u00eancia profunda, quanto jogos mais simples e acess\u00edveis para atrair e reter jogadores casuais. No fim, a verdadeira vit\u00f3ria ser\u00e1 criar um ecossistema de jogos onde todos possam encontrar seu pr\u00f3prio espa\u00e7o, sem que ningu\u00e9m seja deixado para tr\u00e1s no avan\u00e7o tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>E o ponto chave de tudo isso: criatividade. Que este seja o pilar do desenvolvimento dos jogos, pois se n\u00e3o for divertido, n\u00e3o interessar\u00e1 aos jogadores, n\u00e3o vender\u00e1 e n\u00e3o ter\u00e1 dinheiro no mundo que torne uma ideia ruim em um jogo excelente.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 tudo, pessoal! Nos vemos na pr\u00f3xima!<\/p>\n\n\n\n<p>Imagem: Tech4Gamers<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a evolu\u00e7\u00e3o, os games transformaram a jogabilidade. <\/p>\n","protected":false},"author":61,"featured_media":48360,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[1581,6],"tags":[1916,1915,1033],"class_list":["post-48359","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-manifestogamer","category-ultimas-noticias","tag-hi-rez","tag-paradoxo","tag-realismo"],"wpmagazine_modules_lite_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez-150x150.webp",150,150,true],"cvmm-medium":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez-300x300.webp",300,300,true],"cvmm-medium-plus":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez-305x207.webp",305,207,true],"cvmm-portrait":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez-400x600.webp",400,600,true],"cvmm-medium-square":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez-600x600.webp",600,600,true],"cvmm-large":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez-1024x1024.webp",1024,1024,true],"cvmm-small":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez-130x95.webp",130,95,true],"full":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Games-Hi-Rez.webp",1920,1080,false]},"categories_names":{"1581":{"name":"Manifesto Gamer","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/artigos\/manifestogamer\/"},"6":{"name":"\u00daltimas not\u00edcias","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/noticias\/ultimas-noticias\/"}},"tags_names":{"1916":{"name":"Hi-Rez","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/hi-rez\/"},"1915":{"name":"Paradoxo","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/paradoxo\/"},"1033":{"name":"Realismo","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/realismo\/"}},"comments_number":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48359","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/61"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48359"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48359\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48360"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}