{"id":66577,"date":"2025-12-03T09:05:33","date_gmt":"2025-12-03T12:05:33","guid":{"rendered":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/?p=66577"},"modified":"2025-12-03T09:05:38","modified_gmt":"2025-12-03T12:05:38","slug":"a-politica-nos-games","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/a-politica-nos-games\/","title":{"rendered":"A Pol\u00edtica nos Games"},"content":{"rendered":"\n<p>Desde a aurora da civiliza\u00e7\u00e3o, uma das ferramentas sociais mais marcantes \u00e9 a cr\u00edtica. Ela \u00e9 definida como a atividade de examinar, avaliar minuciosamente algo e transplantar essa vis\u00e3o para uma produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, liter\u00e1ria ou cient\u00edfica, focando principalmente costumes e comportamentos. \u00c9 fato que a cr\u00edtica pode receber uma quantidade expressiva de adjetivos, tais como: cr\u00edtica construtiva, pejorativa, rigorosa, oportunista, infundada e por a\u00ed afora. Mas o adjetivo mais significativo deveria ser cr\u00edtica eficiente, independentemente da dire\u00e7\u00e3o para a qual esteja apontando. Afinal deve sempre haver uma raz\u00e3o para uma cr\u00edtica existir.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o, n\u00e3o estou falando de criticar um determinado game mas da cr\u00edtica embutida na narrativa criada para ele, como pano de fundo de um entretenimento que n\u00e3o deixa de ser pol\u00edtico (no sentido amplo da palavra).<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desenvolvedores (ainda hoje) defendem a ideia de que games n\u00e3o devem ser pol\u00edticos. Essa ideia ressurge toda vez que um jogo menciona desigualdade, ditaduras, colapso ambiental, corpos marginalizados, corrup\u00e7\u00e3o, disputas de poder ou mesmo quando apenas retrata o mundo como ele \u00e9. Mas basta um olhar mais atento para perceber que todo jogo \u00e9 pol\u00edtico, mesmo que seus criadores tentem negar, mesmo que sua narrativa seja aparentemente neutra, tipo anjinhos barrocos coletando moedinhas m\u00e1gicas. Mesmo que o jogador n\u00e3o esteja prestando aten\u00e7\u00e3o ao que acontece ao seu redor, dentro e fora do game.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo dos games digitais, desde a era do bit lascado que os jogos j\u00e1 trazem cr\u00edticas, principalmente aos costumes. Mas n\u00e3o pense que a cr\u00edtica pol\u00edtica, presente em t\u00edtulos modernos, seja inven\u00e7\u00e3o desse nosso tempo, ainda que ela tenha se acentuado por essas bandas, principalmente por conta da polariza\u00e7\u00e3o direita\/esquerda que vem se acirrando. E tudo bem com isso. Faz parte da nossa cultura at\u00e9 mesmo um certo exagero.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 na virada do mil\u00eanio (anos <strong>90\/00<\/strong>) no auge da febre dos <strong>Tamagotchis <\/strong>(bichinhos virtuais que deviam ser tratados como pets de verdade) fiz um alien (o do filme) virtual para computador. Era uma esp\u00e9cie de experimento cient\u00edfico, em laborat\u00f3rio fechado e para a transi\u00e7\u00e3o da fase de caranguejo para fase adulta era preciso &#8220;servir&#8221; um humano. Nada mais oportuno do que dar ao jogador a possibilidade de &#8220;servir&#8221; um pol\u00edtico corrupto famoso (tem aos montes por a\u00ed).<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma \u00e9poca fiz um jogo chamado <strong>Mosc\u00e3o Killer<\/strong>, cuja mec\u00e2nica \u00e9 a mesma do 21 palitos. Apenas troquei os palitos por &#8220;moscas&#8221; e aproveitando que estava na moda o combate \u00e0 dengue, inclu\u00ed a possibilidade de trocar as moscas por mosquitos aedes aegypti e tamb\u00e9m por larvas, terroristas e novamente pol\u00edticos corruptos. Dava gosto &#8220;queimar&#8221; no laser alguns deles, mesmo que alguns ainda permane\u00e7am em atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>E claro, o jogo do <strong>Mensal\u00e3o<\/strong>, onde procurei criar um modelo experimental baseado nas falcatruas dos pol\u00edticos da \u00e9poca, dando ao jogador a possibilidade de &#8220;escolher&#8221; os vil\u00f5es daquele que foi um dos maiores esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e compra de parlamentares que se tem not\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Note que nesses casos a cr\u00edtica pol\u00edtica propriamente dita est\u00e1 presente, mas ela n\u00e3o \u00e9 o foco do jogo. Normalmente ela entra em nosso cotidiano por todas as m\u00eddias informativas ent\u00e3o nada mais justo que os jogos refletirem esse aspecto social tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica embutida, de um modo geral, ocupa um papel essencial na evolu\u00e7\u00e3o da linguagem dos games. Ela nos ajuda a ler o que est\u00e1 nas entrelinhas e aquilo que os pr\u00f3prios designers nem sempre percebem que est\u00e3o dizendo. Ela s\u00f3 falha mesmo quando se torna \u00f3bvia demais ou fica circunscrita em si mesma (a popular lacra\u00e7\u00e3o). At\u00e9 porque a cr\u00edtica (principalmente a pol\u00edtica) de momento tem um espa\u00e7o de vida muito curto. Dura apenas segundos, em tempo de internet ou sociedade da comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como esse mecanismo cr\u00edtico funciona? A pol\u00edtica dos games n\u00e3o est\u00e1 apenas nos discursos partid\u00e1rios expl\u00edcitos, nas bandeiras ou nos slogans. Est\u00e1 nos sistemas. E sistemas sempre defendem uma vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um jogo recompensa o jogador por acumular recursos infinitamente, ele est\u00e1 refor\u00e7ando um ideal econ\u00f4mico.<br>Quando uma narrativa glamuriza invas\u00f5es, coloniza\u00e7\u00e3o ou militarismo sem reflex\u00e3o, h\u00e1 uma ideologia ali, mesmo que involunt\u00e1ria. Quando um RPG flexibiliza ou endurece as formas de ascens\u00e3o social do personagem, o jogo est\u00e1 dizendo algo sobre mobilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, a pol\u00edtica dos games n\u00e3o \u00e9 apenas conte\u00fado: \u00e9 mec\u00e2nica, \u00e9 estrutura, \u00e9 regra de funcionamento. E isso abre espa\u00e7o para a cr\u00edtica, n\u00e3o apenas moral, mas anal\u00edtica tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das fun\u00e7\u00f5es mais interessantes da cr\u00edtica \u00e9 revelar o que est\u00e1 naturalizado. Por exemplo: por que tantos jogos tratam viol\u00eancia como solu\u00e7\u00e3o universal? Por que certas popula\u00e7\u00f5es aparecem sempre como inimigos ou obst\u00e1culos? Por que o progresso \u00e9 quase sempre medido por conquista territorial ou poder destrutivo? A cr\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 ali para censurar. Est\u00e1 ali para iluminar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela nos permite entender que, quando voc\u00ea muda uma mec\u00e2nica, muda tamb\u00e9m o tipo de hist\u00f3ria que o jogo \u00e9 capaz de contar. Por isso, quando games indies experimentam sistemas que estimulam coopera\u00e7\u00e3o, cuidado, vulnerabilidade ou diplomacia, eles n\u00e3o est\u00e3o apenas inovando no design. Est\u00e3o propondo outra leitura de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que a cr\u00edtica nos games n\u00e3o \u00e9 luxo, \u00e9 lente.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogos que se assumem como obras pol\u00edticas mostram que o ato de jogar pode ser um ato de reflex\u00e3o. Eles nos lembram que a escolha entre obedecer e desobedecer, entre lutar e negociar, n\u00e3o \u00e9 apenas mec\u00e2nica, \u00e9 \u00e9tica. E acima de tudo \u00e9 possibilidade de escolhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo em games que n\u00e3o se pretendem pol\u00edticos, o jogador interpreta, projeta, contesta. O sentido final de um jogo nunca est\u00e1 apenas no c\u00f3digo. Est\u00e1 no encontro entre obra e p\u00fablico. \u00c9 a\u00ed que nasce a cr\u00edtica: neste espa\u00e7o onde o jogador l\u00ea o jogo, e o jogo devolve ao jogador um espelho do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, a cr\u00edtica nos games \u00e9 sinal de que chegamos \u00e0 fase adulta da m\u00eddia. Quando discutimos pol\u00edtica, cultura, est\u00e9tica, \u00e9tica e ideologia nos jogos, estamos dizendo que isso importa. Jogos n\u00e3o deveriam ser meros produtos descart\u00e1veis. S\u00e3o artefatos culturais complexos, que moldam vis\u00f5es e dialogam com nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica, sendo pol\u00edtica ou n\u00e3o, inserida nos games n\u00e3o t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de estragar nada. Ela t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de abrir portas. De expandir o que entendemos como jogo. De permitir que novas vozes sejam ouvidas, que novas hist\u00f3rias surjam, que novas perspectivas entrem em cena. Ela d\u00e1 ao jogador o sentido de momento, de atualidade, o provoca a pensar sobre o que anda acontecendo ao seu redor.<\/p>\n\n\n\n<p>Games podem ser escapismo (e tudo bem). Mas nunca s\u00e3o neutros. E entender essa n\u00e3o-neutralidade \u00e9 fundamental para que as pessoas se identifiquem cada vez mais com as narrativas, n\u00e3o apenas economicamente, mas culturalmente, artisticamente e socialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Inserir cr\u00edticas nos jogos \u00e9 reconhecer que eles fazem parte do tecido do mundo e que jogar, pensar e debater \u00e9 mais uma forma de participar dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto discute como os games, mesmo quando parecem neutros, carregam cr\u00edticas sociais e pol\u00edticas em suas narrativas e mec\u00e2nicas. Ele mostra exemplos de jogos que satirizam corrup\u00e7\u00e3o e costumes, destacando que sistemas de jogo sempre refletem ideologias. A conclus\u00e3o refor\u00e7a que os games s\u00e3o artefatos culturais complexos, capazes de provocar reflex\u00e3o e ampliar perspectivas.<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":66580,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1582,6],"tags":[869,805,815,818,1393],"class_list":["post-66577","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-renato_degiovani","category-ultimas-noticias","tag-games-brasileiros","tag-indie-br","tag-indie-games","tag-jogos-digitais","tag-renato-degiovani"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas.png","wpmagazine_modules_lite_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas-150x150.png",150,150,true],"cvmm-medium":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas-300x300.png",300,300,true],"cvmm-medium-plus":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas-305x207.png",305,207,true],"cvmm-portrait":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas-400x600.png",400,600,true],"cvmm-medium-square":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas-600x600.png",600,600,true],"cvmm-large":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas-1024x720.png",1024,720,true],"cvmm-small":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas-130x95.png",130,95,true],"full":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Topo-Colunas.png",1280,720,false]},"categories_names":{"1582":{"name":"Renato Degiovani","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/artigos\/renato_degiovani\/"},"6":{"name":"\u00daltimas not\u00edcias","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/noticias\/ultimas-noticias\/"}},"tags_names":{"869":{"name":"Games Brasileiros","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/games-brasileiros\/"},"805":{"name":"Indie BR","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/indie-br\/"},"815":{"name":"Indie Games","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/indie-games\/"},"818":{"name":"Jogos Digitais","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/jogos-digitais\/"},"1393":{"name":"Renato Degiovani","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/renato-degiovani\/"}},"comments_number":"0","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66577"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66577\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66581,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66577\/revisions\/66581"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}