{"id":67016,"date":"2026-03-04T06:00:00","date_gmt":"2026-03-04T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/?p=67016"},"modified":"2026-03-03T23:56:55","modified_gmt":"2026-03-04T02:56:55","slug":"as-vezes-nos-esquecemos-de-coisas-regulares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/as-vezes-nos-esquecemos-de-coisas-regulares\/","title":{"rendered":"\u00c0s vezes n\u00f3s esquecemos de coisas regulares"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Sim! Hoje \u00e9 quarta!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ontem foi ter\u00e7a-feira\u2026 o dia que normalmente eu posto meus textos aqui na coluna. Fa\u00e7o isso regularmente! Quer dizer, fazia\u2026 ontem eu esqueci!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes coisas regulares nos passam despercebidas. S\u00f3 me atentei para isso quando j\u00e1 estava prestes a dormir\u2026 e ent\u00e3o percebi que eu n\u00e3o tinha pensado num tema para o texto da semana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes coisas regulares nos passam despercebidas\u2026 pois \u00e9\u2026 eu sei que eu j\u00e1 disse isso, mas isso me fez lembrar de um conto que escrevi h\u00e1 vinte e quatro anos. Lembro de ter sido muito elogiado pelo meu professor de reda\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca. Ele se chamava Vin\u00edcius Chaves. Espero que ele esteja bem e que ele possa ler esse texto um dia. Voc\u00ea o conhece? Mostra pra ele! Sempre gostei da forma como ele me desafiava a escrever, o que fez com que eu despertasse o gosto pela escrita e pela leitura, mas principalmente por aprender a ler o que n\u00e3o estava escrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidi trazer essa semana o meu conto\u2026 ele n\u00e3o tinha t\u00edtulo naquela \u00e9poca\u2026 nem tinha celulares filmando a cena. Essa parte foi adaptada. Acho que fiz um remake do meu conto\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Vou cham\u00e1-lo de:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma segunda-feira qualquer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Era uma segunda-feira, daquelas como s\u00e3o todas as segundas-feiras. Mas naquela rua, a segunda-feira trazia algo diferente. Ao sa\u00edrem de suas casas para come\u00e7ar o dia, como faziam todas as segundas-feiras quaisquer, os moradores se depararam com uma cena peculiar. Estacionados (estacionados?), no meio da rua, havia dois \u00f4nibus, um em cima do outro, o de cima virado com o teto para baixo, como um besouro cascudo que fica com a barriga para cima e n\u00e3o consegue desvirar\u2026 seus tetos estavam perfeitamente alinhados. Aos poucos o burburinho acordou toda a vizinhan\u00e7a que saiu para ver o que estava acontecendo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro vieram os olhares desconfiados por tr\u00e1s das cortinas. Depois, as portas se abriram uma a uma e logo havia gente de chinelo na cal\u00e7ada, gente com escova de dentes na boca, gente ainda segurando a x\u00edcara de caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Como foi que isso aconteceu?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia! \u2013 Respondeu o vizinho, j\u00e1 com o celular levantado, gravando tudo pra postar nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00f4nibus n\u00e3o traziam marcas aparentes de colis\u00e3o. O de baixo estava perfeitamente apoiado sobre as quatro rodas, como se tivesse estacionado ali normalmente. O de cima estava invertido, teto contra teto, como se algu\u00e9m os tivesse colocado um sobre o outro com cuidado cir\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u2026 \u2013 murmurou um rapaz enquanto dava uma volta ao redor da cena.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m disse que tinha ouvido um barulho na madrugada. Outro jurou que n\u00e3o ouvira nada. Um terceiro garantiu que aquilo s\u00f3 podia ser pegadinha da internet.<\/p>\n\n\n\n<p>Em menos de meia hora chegaram os primeiros carros de reportagem. Uma rep\u00f3rter de blazer azul apareceu ajeitando o microfone enquanto o cinegrafista ajustava o trip\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Estamos aqui em um bairro residencial onde moradores acordaram com essa cena que voc\u00ea pode ver logo atr\u00e1s de mim \u2014 disse ela, olhando para a c\u00e2mera enquanto atr\u00e1s dela algumas pessoas acenavam discretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo depois chegaram os bombeiros. Caminh\u00f5es vermelhos ocuparam metade da rua. Homens de capacete come\u00e7aram a avaliar a situa\u00e7\u00e3o, andando em volta dos \u00f4nibus, olhando para cima, co\u00e7ando o queixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Estrutura aparentemente est\u00e1vel \u2013 comentou um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aparentemente \u2013 respondeu outro, olhando para o \u00f4nibus invertido como quem encara um quebra-cabe\u00e7a que perdeu algumas pe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosos se multiplicaram. Alguns subiram em muros. Crian\u00e7as sentaram na cal\u00e7ada. Algu\u00e9m trouxe uma cadeira de pl\u00e1stico para observar melhor. Ser\u00e1 que ele deveria trazer a churrasqueira para a cal\u00e7ada? Melhor n\u00e3o! Algu\u00e9m poderia achar absurda a ideia de um churrasco em plena segunda-feira\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta das nove da manh\u00e3 chegou o guindaste.<\/p>\n\n\n\n<p>O ve\u00edculo enorme parou ao lado dos \u00f4nibus e estendeu o bra\u00e7o met\u00e1lico lentamente, como um animal acordando. Os operadores prenderam cabos grossos na carca\u00e7a do \u00f4nibus de cima. O bairro inteiro pareceu prender a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vai levantar \u2013 sussurrou algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>O guindaste come\u00e7ou a puxar. O \u00f4nibus invertido subiu devagar, rangendo. O metal estalava sob tens\u00e3o. Por um instante pareceu que tudo poderia desabar, mas n\u00e3o desabou. Cent\u00edmetro por cent\u00edmetro, o \u00f4nibus foi separado do outro e suspenso no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns moradores aplaudiram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Impressionante \u2013 disse a rep\u00f3rter agora falando para a c\u00e2mera.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus foi colocado sobre um reboque e levado embora. Em seguida outro caminh\u00e3o chegou para rebocar o \u00f4nibus que havia ficado embaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem os dois ve\u00edculos empilhados, a rua voltou a parecer apenas uma rua comum e aos poucos as pessoas come\u00e7aram a se dispersar. A senhora voltou para dentro de casa para terminar o caf\u00e9. O rapaz desligou a grava\u00e7\u00e3o no celular. As crian\u00e7as foram chamadas pelos pais. As equipes de televis\u00e3o desmontaram os equipamentos. O churrasco ficou para o s\u00e1bado\u2026 s\u00e1bado \u00e9 dia de fazer churrasco!<\/p>\n\n\n\n<p>E a rua retomou o ritmo normal de uma segunda-feira.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminh\u00e3o de reboque engatou o \u00f4nibus que estava embaixo e come\u00e7ou a pux\u00e1-lo lentamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o ve\u00edculo finalmente saiu do lugar, revelando o peda\u00e7o de asfalto que estava escondido sob ele, um cachorro que dormia na sombra dos ve\u00edculos alheio a tudo e a todos abriu os olhos, levantou a cabe\u00e7a, piscou duas vezes, como se estivesse tentando entender por que o teto que fazia sombra tinha desaparecido e levantou-se devagar. Co\u00e7ou a orelha com a pata traseira e depois caminhou alguns passos pela rua silenciosa, olhou em volta, escolheu um novo peda\u00e7o de sombra perto de um muro e se deitou novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em poucos minutos, voltou a dormir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Checkpoint final<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por que eu precisaria dar um checkpoint final a este texto dessa semana? Ele nem saiu na ter\u00e7a! Prefiro que voc\u00ea pense no seu checkpoint final para ele. Queria at\u00e9 saber o que voc\u00ea achou do texto, a prop\u00f3sito\u2026 ser\u00e1 que meu eu aos 18 anos imaginaria que vinte e quatro anos depois ainda lembraria dessa hist\u00f3ria para escrev\u00ea-la numa quarta que sucedeu uma ter\u00e7a em que esqueci uma coisa regular?<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea conseguiu ler o que n\u00e3o est\u00e1 escrito?<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim! Hoje \u00e9 quarta! 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