{"id":67245,"date":"2026-03-31T12:00:00","date_gmt":"2026-03-31T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/?p=67245"},"modified":"2026-03-30T11:39:56","modified_gmt":"2026-03-30T14:39:56","slug":"a-caixa-que-a-gente-finge-que-nao-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/a-caixa-que-a-gente-finge-que-nao-existe\/","title":{"rendered":"A caixa que a gente finge que n\u00e3o existe"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O al\u00edvio de n\u00e3o sentir<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Semana passada, em uma das consultas, um paciente me disse algo que, \u00e0 primeira vista, pareceria uma solu\u00e7\u00e3o simples: ele queria colocar todos os problemas dentro de uma caixa, tranc\u00e1-la, fechar, esquecer e seguir a vida como se nada estivesse ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Confesso, sinceramente, que eu o entendo, pois eu j\u00e1 pensei no mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe um tipo de cansa\u00e7o que n\u00e3o pede resolu\u00e7\u00e3o, pede sil\u00eancio. Um sil\u00eancio emocional, um intervalo. Ou um bot\u00e3o de pausa que a vida real n\u00e3o oferece.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia da caixa surge exatamente nesse ponto. N\u00e3o como nega\u00e7\u00e3o da realidade, mas como tentativa de sobreviv\u00eancia. O problema \u00e9 que, na pr\u00e1tica, essa estrat\u00e9gia n\u00e3o resolve, ela apenas adia e o que \u00e9 adiado, n\u00e3o desaparece.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O terror que vem de dentro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro, eu, minha esposa e minha filha assistimos \u00e0 s\u00e9rie &#8220;It: Bem-vindos a Derry&#8221;. Sim, assistimos bem depois do lan\u00e7amento da s\u00e9rie e sim, minha filha gosta de filmes e s\u00e9ries de terror.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o meu paciente falou da caixa, eu lembrei logo de uma cena em que o personagem Dick Hallorann conta que aprendeu com a av\u00f3 a guardar coisas ruins dentro de uma caixa. Uma forma de n\u00e3o ser consumido por aquilo que ele sentia e percebia&#8230; at\u00e9 que ele encontra Pennywise.<\/p>\n\n\n\n<p>Pennywise n\u00e3o cria medo, ele revela o medo&#8230; ele acessa as mem\u00f3rias e abre aquilo que j\u00e1 estava guardado. A caixa das ang\u00fastias de Hallorann \u00e9 aberta e tudo que estava organizado, contido, aparentemente sob controle, retorna de forma desorganizada, intensa e imposs\u00edvel de ignorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o verdadeiro terror dessa cena n\u00e3o seja o palha\u00e7o, mas a constata\u00e7\u00e3o de que aquilo nunca deixou de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma curiosidade que parece pequena, mas n\u00e3o \u00e9: Hallorann n\u00e3o nasceu nessa hist\u00f3ria. Ele vem de &#8220;O Iluminado&#8221;, outra obra de Stephen King. Eu n\u00e3o me lembrava desse detalhe at\u00e9 ir pesquisar sobre o personagem depois de ter visto o epis\u00f3dio em que acontece a cena relatada. Ele tamb\u00e9m aparece em &#8220;Doutor Sono&#8221;, onde ele apresenta a mesma caixa, com o mesmo conceito, ao pequeno Danny Torrance (n\u00e3o \u00e9 um spoiler, t\u00e1 bom?).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A caixa na vida real<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na cl\u00ednica, essa \u201ccaixa\u201d aparece com outros nomes. Evitar pensar, fingir que n\u00e3o aconteceu,distrair-se o tempo todo, trabalhar demais, dormir menos do que deveria, preencher todos os espa\u00e7os poss\u00edveis para n\u00e3o ter que olhar para dentro. S\u00e3o os mecanismos de defesa, muitas vezes inconscientes, que ativamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Funciona? \u00c0s vezes&#8230; por um tempo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o processadas n\u00e3o ficam inativas, elas ficam aguardando e quando retornam, raramente pedem licen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Elas aparecem como ansiedade que n\u00e3o se explica, irrita\u00e7\u00e3o que parece desproporcional, um cansa\u00e7o que n\u00e3o melhora com descanso, uma tristeza que n\u00e3o tem um motivo claro. \u00c0s vezes aparecem como crises outras vezes como um vazio dif\u00edcil de nomear.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 que a caixa se abre de repente. Ela nunca esteve realmente fechada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Abrir n\u00e3o \u00e9 o problema<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o maior equ\u00edvoco n\u00e3o seja tentar criar a caixa. Em alguns momentos, ela at\u00e9 \u00e9 necess\u00e1ria, enquanto nos fortalecemos ou adquirimos mais experi\u00eancia para lidar com ela. \u00c9 o &#8220;metroidvania&#8221; da vida que te faz voltar para \u00e1reas do mapa depois de ter determinadas habilidades (desculpa pra quem n\u00e3o \u00e9 do mundo gamer, mas a refer\u00eancia era inevit\u00e1vel). <\/p>\n\n\n\n<p>Nem tudo pode ser enfrentado de uma vez. O problema \u00e9 acreditar que a caixa pode permanecer fechada para sempre, porque existe uma diferen\u00e7a importante entre guardar e elaborar.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardar \u00e9 colocar algo fora do campo de consci\u00eancia. Elaborar \u00e9 transformar aquilo em algo que pode ser integrado \u00e0 sua hist\u00f3ria sem te paralisar. Isso n\u00e3o acontece de forma abrupta, n\u00e3o precisa ser tudo de uma vez, n\u00e3o precisa ser sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente do que acontece com Hallorann, o processo terap\u00eautico n\u00e3o invade, n\u00e3o quebra o cadeado, n\u00e3o exp\u00f5e de forma ca\u00f3tica. Ele convida, organiza e permite que a caixa seja aberta aos poucos, com previsibilidade, com seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu tempo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Checkpoint final<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas afinal, devemos ou n\u00e3o criar a caixa?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importa, pois a quest\u00e3o principal no processo terap\u00eautico \u00e9 o que fazemos com ela depois. Porque, no fim das contas, a terapia n\u00e3o tenta evitar que ela se abra. Ela te prepara para decidir se voc\u00ea prefere que isso aconte\u00e7a de forma descontrolada\u2026 ou se, em algum momento, voc\u00ea vai escolher estar presente quando isso acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>E a\u00ed fica a pergunta que tenho tentado deixar nos meus textos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se existe uma caixa dentro de voc\u00ea, voc\u00ea sabe o que tem l\u00e1 dentro\u2026 ou s\u00f3 est\u00e1 torcendo para nunca descobrir?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O al\u00edvio de n\u00e3o sentir Semana passada, em uma das consultas, um paciente me disse algo que, \u00e0 primeira vista, pareceria uma solu\u00e7\u00e3o simples: ele queria colocar todos os problemas dentro de uma caixa, tranc\u00e1-la, fechar, esquecer e seguir a vida como se nada estivesse ali. 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