{"id":67445,"date":"2026-04-14T12:00:00","date_gmt":"2026-04-14T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/?p=67445"},"modified":"2026-04-14T16:28:59","modified_gmt":"2026-04-14T19:28:59","slug":"quanto-de-alguem-precisa-desaparecer-para-voce-sentir-que-perdeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/quanto-de-alguem-precisa-desaparecer-para-voce-sentir-que-perdeu\/","title":{"rendered":"Quanto de algu\u00e9m precisa desaparecer para voc\u00ea sentir que perdeu?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Quando a mem\u00f3ria come\u00e7a a desaparecer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse texto, de certa forma, n\u00e3o come\u00e7ou aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele nasceu a partir de uma reflex\u00e3o que escrevi no <a href=\"https:\/\/encontroverso.com.br\/o-amor-que-permanece-o-que-meu-pai-nos-ensina-sobre-o-luto-e-o-renascimento\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/encontroverso.com.br\/o-amor-que-permanece-o-que-meu-pai-nos-ensina-sobre-o-luto-e-o-renascimento\/\">Encontroverso<\/a> e que decidi reler&#8230; quando o fiz, senti que precisava ser ampliada, aprofundada, reorganizada e trazida para esta coluna.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2020, o filme &#8220;Meu Pai&#8221; nos entregou uma das representa\u00e7\u00f5es mais sens\u00edveis da dem\u00eancia no cinema, e a atua\u00e7\u00e3o de Anthony Hopkins n\u00e3o \u00e9 apenas impressionante, ela \u00e9 &#8220;desmoronante&#8221; (permitam-me o neoligismo). H\u00e1 uma cena no filme que dispensa qualquer an\u00e1lise t\u00e9cnica, quando Anthony, personagem que n\u00e3o por coincid\u00eancia tem o mesmo nome do ator, confuso e vulner\u00e1vel, chora e diz sentir como se estivesse perdendo suas folhas, como se algo essencial estivesse sendo levado pelo vento, e a enfermeira, com uma delicadeza quase insuport\u00e1vel, o acolhe e diz que ir\u00e3o dar uma volta, que o dia est\u00e1 bonito, que \u00e9 preciso aproveitar.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele aceita.<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali existe algo que ultrapassa o cinema e encosta em uma verdade dif\u00edcil de encarar&#8230; a dem\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas uma doen\u00e7a da mem\u00f3ria, ela funciona como uma forma silenciosa de luto, uma experi\u00eancia em que algu\u00e9m vai embora sem sair do lugar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O luto que come\u00e7a antes da perda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existe algo profundamente desorganizador na dem\u00eancia, porque ela n\u00e3o afeta apenas quem adoece, ela reorganiza tamb\u00e9m quem est\u00e1 ao redor. A pessoa continua ali, respira, fala, \u00e0s vezes sorri, mas algo vai se afastando pouco a pouco, sem um momento claro de ruptura, sem um antes e depois bem definido, apenas um processo que se desenrola com o tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Filhos passam a ser estranhos, o lar deixa de ser reconhecido, o passado, que antes era ref\u00fagio, transforma-se em um territ\u00f3rio inst\u00e1vel, e quem acompanha isso vive algo dif\u00edcil de nomear, uma esp\u00e9cie de luto sem despedida, um vel\u00f3rio em c\u00e2mera lenta, onde n\u00e3o se perde a pessoa de uma vez, mas em pequenas partes, ao longo dos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>E, ainda assim, o amor existe, o amor persiste, o amor resiste. Amando o que foi, o que resta e at\u00e9 o que j\u00e1 come\u00e7a a se apagar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando a mem\u00f3ria falha, o amor se reorganiza<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que &#8220;Meu Pai&#8221; mostra com uma sensibilidade rara \u00e9 que a perda cognitiva n\u00e3o apaga completamente a pessoa, ela a desorganiza e, de certa forma, a reorganiza em outro arranjo. Aquele pai seguro, estruturado, come\u00e7a a dar lugar a algu\u00e9m fr\u00e1gil, dependente, assustado, e isso n\u00e3o se resume a comportamento, envolve a forma como aquela pessoa passa a existir no mundo e a maneira como passa a ser reconhecida por quem a ama.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 partes que permanecem. A voz, o olhar, pequenos gestos, a forma de segurar a m\u00e3o, o jeito de reagir ao toque e, em especial, o sorriso&#8230; este nunca muda&#8230; e \u00e9 nesse espa\u00e7o entre o que foi e o que ainda \u00e9 que um novo tipo de amor come\u00e7a a surgir, n\u00e3o como substitui\u00e7\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o, mas como reconstru\u00e7\u00e3o. Amar, nesse contexto, deixa de estar sustentado apenas na mem\u00f3ria compartilhada e passa a se apoiar no presente, no cuidado, na repeti\u00e7\u00e3o, no reconhecimento que acontece para al\u00e9m das palavras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nem toda perda de mem\u00f3ria \u00e9 igual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se em &#8220;Meu Pai&#8221; vemos uma forma mais avan\u00e7ada e desorganizada da dem\u00eancia, &#8220;Para Sempre Alice&#8221;, outro filme espetacular sobre o tema, apresenta-nos um recorte diferente, talvez ainda mais angustiante em alguns aspectos. A personagem interpretada por Julianne Moore vive uma manifesta\u00e7\u00e3o precoce da Doen\u00e7a de Alzheimer, algo que chama aten\u00e7\u00e3o justamente por n\u00e3o ser o padr\u00e3o mais comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria dos casos, a doen\u00e7a de Alzheimer tem in\u00edcio ap\u00f3s os 65 anos, e quando ela aparece antes disso, falamos em in\u00edcio precoce, uma condi\u00e7\u00e3o menos frequente, mas que costuma ter um impacto ainda mais desorganizador por atingir pessoas em uma fase da vida ainda marcada por m\u00faltiplos pap\u00e9is, responsabilidades e projetos em curso. No filme, o que vemos n\u00e3o se limita \u00e0 perda de mem\u00f3ria, envolve tamb\u00e9m a consci\u00eancia dessa perda, e talvez seja isso que torna a experi\u00eancia ainda mais dolorosa, porque n\u00e3o se trata apenas de esquecer, mas de perceber que se est\u00e1 esquecendo, de assistir a si mesmo se perder. A personagem, uma linguista que percebe ir embora seu campo de trabalho, a fala&#8230; coloque-se no lugar de algu\u00e9m que percebe que seu mundo est\u00e1 mudando numa dire\u00e7\u00e3o que voc\u00ea n\u00e3o consegue frear e tente entender o qu\u00e3o impactante isso \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 em quem est\u00e1 ao redor, mas em si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um olhar mais t\u00e9cnico sobre a Doen\u00e7a de Alzheimer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista cl\u00ednico, a Doen\u00e7a de Alzheimer \u00e9 classificada como um transtorno neurocognitivo maior, caracterizado por um decl\u00ednio progressivo das fun\u00e7\u00f5es cognitivas. De acordo com os crit\u00e9rios do DSM-5-TR, esse decl\u00ednio envolve preju\u00edzos em \u00e1reas como mem\u00f3ria, linguagem, aten\u00e7\u00e3o, fun\u00e7\u00f5es executivas ou habilidades visuoespaciais, e n\u00e3o se restringe a uma percep\u00e7\u00e3o subjetiva, podendo ser observado por terceiros ou identificado em avalia\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e neuropsicol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse comprometimento impacta diretamente a autonomia do indiv\u00edduo, tornando atividades do dia a dia progressivamente mais dif\u00edceis, e apresenta um curso evolutivo, o que significa que tende a se agravar ao longo do tempo. No caso espec\u00edfico do Alzheimer, h\u00e1 um predom\u00ednio inicial do comprometimento da mem\u00f3ria, especialmente na capacidade de formar novas lembran\u00e7as, o que o diferencia de esquecimentos comuns e indica uma altera\u00e7\u00e3o estrutural no funcionamento cerebral, que, com o avan\u00e7o da doen\u00e7a, passa a afetar outras fun\u00e7\u00f5es cognitivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fato curioso, \u00e9 que familiares costumam dizer: &#8220;doutor, o papai lembra de coisas da inf\u00e2ncia dele, mas esquece o que comeu no caf\u00e9-da-manh\u00e3&#8221;. Isso n\u00e3o \u00e9 raro, sendo inclusive a forma mais comum de amn\u00e9sia, tamb\u00e9m conhecida como amn\u00e9sia retr\u00f3grada, que \u00e9 a incapacidade de formar novas mem\u00f3rias, tendo inclusive um ep\u00f4nimo, &#8220;Lei de Ribot&#8221;, pois foi formulada pelo psic\u00f3logo franc\u00eas Th\u00e9odule-Armand Ribot em 1881, e tamb\u00e9m \u00e9 conhecida como lei da regress\u00e3o mn\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando a mem\u00f3ria deixa de sustentar o v\u00ednculo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existe algo profundamente po\u00e9tico, e ao mesmo tempo doloroso, em perceber que o v\u00ednculo pode continuar existindo mesmo quando a mem\u00f3ria falha, talvez porque o amor nunca tenha dependido exclusivamente da lembran\u00e7a. Ele tamb\u00e9m se manifesta na presen\u00e7a, no gesto, na rotina, na repeti\u00e7\u00e3o, na forma como algu\u00e9m segura sua m\u00e3o, no tom de voz, na maneira como o corpo responde ao cuidado, mesmo quando as palavras j\u00e1 n\u00e3o conseguem organizar a experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo ainda comunica&#8230; algo ainda reconhece&#8230; e, muitas vezes, \u00e9 isso que sustenta quem fica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Checkpoint Final<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A dem\u00eancia \u00e9, sem d\u00favida, um tipo de luto, um luto que come\u00e7a cedo demais, que n\u00e3o tem um ponto claro de ruptura e que exige uma adapta\u00e7\u00e3o constante, mas tamb\u00e9m pode revelar algo importante sobre a forma como nos vinculamos uns aos outros, especialmente quando a mem\u00f3ria deixa de ocupar o lugar central nessa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Amar algu\u00e9m que est\u00e1 se apagando \u00e9, de certa forma, continuar acendendo pequenas luzes em um ambiente que escurece aos poucos, n\u00e3o para impedir a noite, mas para tornar poss\u00edvel atravess\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ainda conseguimos manter, mesmo quando quase tudo parece estar desaparecendo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dem\u00eancia n\u00e3o come\u00e7a com a aus\u00eancia, mas com pequenas perdas que acontecem enquanto a pessoa ainda est\u00e1 ali. Neste texto, parto do filme Meu Pai e dialogo com Para Sempre Alice para refletir sobre a experi\u00eancia de ver algu\u00e9m se transformar aos poucos, sobre o luto que come\u00e7a antes da despedida e sobre a necessidade de reconstruir o amor quando a mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o sustenta o v\u00ednculo. Entre a cl\u00ednica e o cinema, uma pergunta permanece: quanto de algu\u00e9m precisa desaparecer para que sintamos que j\u00e1 perdemos?<\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":67542,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[178,3237,8,6],"tags":[3439,3438,3440,3441],"class_list":["post-67445","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-check-mental","category-noticias","category-ultimas-noticias","tag-alzheimer","tag-demencia","tag-meu-pai","tag-para-sempre-alice"],"wpmagazine_modules_lite_featured_media_urls":{"thumbnail":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5-150x150.jpg",150,150,true],"cvmm-medium":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5-300x300.jpg",300,300,true],"cvmm-medium-plus":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5-305x207.jpg",305,207,true],"cvmm-portrait":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5-400x600.jpg",400,600,true],"cvmm-medium-square":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5-600x600.jpg",600,600,true],"cvmm-large":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5-1024x683.jpg",1024,683,true],"cvmm-small":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5-130x95.jpg",130,95,true],"full":["https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Tela5.jpg",1223,683,false]},"categories_names":{"178":{"name":"Artigos","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/artigos\/"},"3237":{"name":"Checkpoint Mental","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/artigos\/check-mental\/"},"8":{"name":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/noticias\/"},"6":{"name":"\u00daltimas not\u00edcias","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/category\/noticias\/ultimas-noticias\/"}},"tags_names":{"3439":{"name":"alzheimer","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/alzheimer\/"},"3438":{"name":"demencia","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/demencia\/"},"3440":{"name":"meu pai","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/meu-pai\/"},"3441":{"name":"para sempre alice","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/tag\/para-sempre-alice\/"}},"comments_number":"2","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67445"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67445\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":67451,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67445\/revisions\/67451"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/67542"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}