{"id":67960,"date":"2026-05-06T07:30:00","date_gmt":"2026-05-06T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/?p=67960"},"modified":"2026-05-04T17:04:56","modified_gmt":"2026-05-04T20:04:56","slug":"identidade-nao-se-compra-na-esquina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quebrandocontrole.com.br\/site\/identidade-nao-se-compra-na-esquina\/","title":{"rendered":"Identidade N\u00e3o Se Compra Na Esquina"},"content":{"rendered":"\n<p>Semana passada, prestes a embarcar rumo \u00e0 <strong>Gamescom Latam<\/strong>, escrevi nesta mesma coluna: <em>O Brasil produz atualmente uma grande quantidade de jogos digitais in\u00e9ditos, mas ainda n\u00e3o produz um mercado localizado, caracter\u00edstico e, principalmente, com identidade nacional<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o foi entendida. E, para minha surpresa, aceita. Alguns amigos toparam o desafio de &#8220;trocar ideias em campo&#8221;, durante o evento. Era exatamente isso que eu queria: testar a afirma\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os tr\u00eas primeiros dias, credenciado como imprensa, fiz o que qualquer curioso (profissional) faria: cheguei cedo, sa\u00ed tarde e andei at\u00e9 n\u00e3o aguentar mais. Conversei, observei, assisti palestras, muitas palestras. Tantas que acabei barrado em um dos palcos por n\u00e3o ter a credencial &#8220;adequada&#8221;, mesmo com meia d\u00fazia de ouvintes no recinto e cadeiras vazias \u00e0 vontade. A justificativa n\u00e3o veio, mas a sensa\u00e7\u00e3o foi clara: certos assuntos parecem n\u00e3o querer plateia org\u00e2nica fora do <em>business<\/em>. Curioso, para dizer o m\u00ednimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas antes de falar do que vi, vale esclarecer o que <strong>n\u00e3o <\/strong>fui fazer ali. N\u00e3o fui atr\u00e1s de indies espec\u00edficos nem de seus jogos e menos ainda de relatos. Isso j\u00e1 fa\u00e7o (com calma e profundidade) fora do ambiente de feira. Meu objetivo era outro: observar o todo. Entender se existe, de fato, um mercado coeso, com identidade pr\u00f3pria, ou apenas uma soma de esfor\u00e7os individuais, por melhor que sejam. Um evento desse porte deveria ser, na minha opini\u00e3o, um reflexo preciso do mercado dos outros <strong>360 <\/strong>dias do ano.<\/p>\n\n\n\n<p>E a resposta, gostem ou n\u00e3o, concordem ou n\u00e3o, come\u00e7ou a aparecer rapidamente. Sim, <strong>produzimos muitos jogos<\/strong>. Sim, <strong>alguns s\u00e3o bons, muito bons<\/strong>. Sim, <strong>temos iniciativas relevantes<\/strong> em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es, gente competente, apoio pontual. <strong>Mas essas pe\u00e7as n\u00e3o se encaixam num tabuleiro maior<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vi na <strong>Gamescom <\/strong>foi um conjunto de iniciativas que n\u00e3o conversam entre si. Um mosaico fragmentado, onde cada um fala por si, para si, e raramente para o conjunto. Quem quis observar, para al\u00e9m do brilho das luzes e dos discursos ensaiados, isso ficou evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei a comentar com um amigo que, depois de <strong>45 <\/strong>anos nesse mercado, me sentia como um marciano rec\u00e9m-chegado a um planeta onde tudo funciona perfeitamente. Um planeta que definitivamente n\u00e3o \u00e9 o mesmo onde vivi todas essas d\u00e9cadas, fazendo neg\u00f3cios tanto em m\u00eddia f\u00edsica quanto digital e sempre vinculado \u00e0 imprensa. Talvez eu esteja desatualizado. Ou talvez a maquiagem esteja boa demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem tudo foi negativo, longe disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Iniciativas como o <strong>Brazil Games<\/strong>, os espa\u00e7os de <em>playtest <\/em>e o apoio institucional, especialmente da prefeitura de <strong>S\u00e3o Paulo<\/strong>, s\u00e3o sinais importantes. Soube tamb\u00e9m de movimentos semelhantes no <strong>Rio de Janeiro<\/strong>. At\u00e9 minha velha conhecida do tempo da funda\u00e7\u00e3o, a <strong>Abragames<\/strong>, me pareceu mais atuante. \u00d3timo. Necess\u00e1rio. Mas a\u00ed vem a pergunta inc\u00f4moda: por que a gente fica sabendo disso dentro de um evento anual e n\u00e3o no dia a dia?<\/p>\n\n\n\n<p>Divulga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 luxo. \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o, especialmente quando envolve recursos p\u00fablicos. Sem comunica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, n\u00e3o existe alinhamento. E sem alinhamento, n\u00e3o existe mercado estruturado mas apenas isolamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>E cad\u00ea a imprensa que diz cobrir o setor, que n\u00e3o seja apenas para cumprir tabela, ou pelo simples &#8220;apoiamos&#8221; o setor produtor nacional?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estava l\u00e1 ostensivamente, de corpo presente como antigamente estava, nas grandes feiras internacionais de inform\u00e1tica. O que domina esse setor hoje \u00e9 (ainda) a pr\u00e1tica do release copy\/paste, agora com cara moderna de v\u00eddeo declara\u00e7\u00f5es. Mudou o formato, a din\u00e2mica, mas n\u00e3o mudou a ess\u00eancia. Ou ser\u00e1 que imprensa n\u00e3o \u00e9 business tamb\u00e9m? Esqueceram dessa parte?<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, nas palestras internacionais, o discurso estava impec\u00e1vel: como crescer, como escalar, como se destacar, como n\u00e3o falir, como conquistar aten\u00e7\u00e3o. Tudo muito bonito. Mas ningu\u00e9m responde a pergunta mais simples e mais importante: &#8220;como transformar meu jogo em produto e ter resultados no mercado local&#8221;. Afinal, n\u00f3s brasileiros somos apenas consumidores de jogos estrangeiros, sem direito a ver nossa pr\u00f3pria cultura digital ganhando espa\u00e7os?<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o vi respostas nem nas palestras de entidades e associa\u00e7\u00f5es estaduais, que deveriam ser a ponta de lan\u00e7a do movimento. Algumas com discursos afinados de como encurtar a dist\u00e2ncia aos cofres p\u00fablicos mas nenhuma demonstrando verdadeiramente ao produtor para o que elas de fato servem.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio de tanta orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, a sensa\u00e7\u00e3o recorrente \u00e9 a de que todos que se apresentaram est\u00e3o mais interessados em vender solu\u00e7\u00f5es do que em resolver problemas. E n\u00e3o,<strong> a Gamescom n\u00e3o \u00e9 um evento para iniciantes. Em nenhum sentido, nem t\u00e9cnico, nem financeiro<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O que nos leva ao <strong>BIG Festival<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Originalmente pensado como espa\u00e7o de entrada, de descoberta, de experimenta\u00e7\u00e3o, ele ainda est\u00e1 l\u00e1, mas cada vez mais dilu\u00eddo, seu DNA sumindo de forma silenciosa. O que encontrei foram \u00e1reas com pouca identidade, mal sinalizadas, com estandes vazios em v\u00e1rios momentos. E n\u00e3o apenas de grupos iniciantes e inexperientes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fui atr\u00e1s de hist\u00f3rias individuais de supera\u00e7\u00e3o. Elas existem e s\u00e3o leg\u00edtimas. Mas n\u00e3o constroem mercado por si s\u00f3. O que procurei foi o resultado agregado. Onde est\u00e3o os efeitos de tantos encontros, tantas rodadas de neg\u00f3cio, tantas promessas?<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, ningu\u00e9m consegue apontar uma produ\u00e7\u00e3o brasileira que tenha rompido essa bolha de forma consistente. Tamb\u00e9m n\u00e3o temos um canal de divulga\u00e7\u00e3o forte, cont\u00ednuo, n\u00e3o tendencioso e confi\u00e1vel sobre a produ\u00e7\u00e3o nacional. E, sejamos justos, os pr\u00f3prios desenvolvedores ajudam muito pouco nisso. Muitos ainda operam sob a ilus\u00e3o de que o mundo vai receb\u00ea-los de bra\u00e7os abertos, bastando para isso aparecer. N\u00e3o basta.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim das contas, sa\u00ed da <strong>Gamescom <\/strong>no terceiro dia com uma sensa\u00e7\u00e3o curiosa: estamos diante de mais um grande evento no calend\u00e1rio, algo pr\u00f3ximo ao que a <strong>BGS <\/strong>j\u00e1 representa. E isso n\u00e3o \u00e9 ruim. Pelo contr\u00e1rio. Eventos assim s\u00e3o necess\u00e1rios. Mas evento n\u00e3o \u00e9 mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprendi, ao longo de d\u00e9cadas de eventos, que muitas das conex\u00f5es feitas nessas feiras n\u00e3o sobrevivem at\u00e9 o ano seguinte. E isso diz muito. Quando n\u00e3o h\u00e1 retorno, existem duas possibilidades: o dinheiro do investimento inicial\/edital acabou ou n\u00e3o valeu a pena investir na presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 <strong>Gamescom<\/strong>, n\u00e3o cabe aqui dizer se est\u00e1 certa ou errada, se foi boa ou ruim. Ela \u00e9 um neg\u00f3cio. E neg\u00f3cios funcionam, ou parecem funcionar, na medida em que s\u00e3o bem vendidos. O problema \u00e9 outro: enquanto continuarmos produzindo jogos sem produzir cultura de desenvolvimento, vamos seguir comemorando vitrines sem perceber que ainda falta construir as lojas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana passada, prestes a embarcar rumo \u00e0 Gamescom Latam, escrevi nesta mesma coluna: O Brasil produz atualmente uma grande quantidade de jogos digitais in\u00e9ditos, mas ainda n\u00e3o produz um mercado localizado, caracter\u00edstico e, principalmente, com identidade nacional. A provoca\u00e7\u00e3o foi entendida. E, para minha surpresa, aceita. 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