Atenção, concentração e o erro que quase todo mundo comete

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Uma confusão comum que muda tudo
Atenção e concentração costumam ser usadas como sinônimos, mas essa troca aparentemente inofensiva gera muita confusão, não só para você quem vem aqui pra ler um pouco de nerdice com saúde mental, mas também para o profissional de saúde mental. E não é só uma questão de linguagem. Entender a diferença muda a forma como interpretamos dificuldades cognitivas, especialmente quando falamos de TDAH (algo que está na moda se autodiagnosticar pelo ChatGPT ou outra IA), desempenho acadêmico, produtividade e autocobrança.

Mas qual a diferença? Vamos lá… A atenção é a capacidade de selecionar estímulos; é o momento em que o cérebro decide para onde olhar, ouvir ou direcionar recursos mentais. Já a concentração é a capacidade de sustentar esse foco ao longo do tempo, apesar das distrações internas e externas. Em termos simples: Atenção escolhe o alvo. Concentração mantém o alvo.

Escolher o foco não é o mesmo que sustentar o foco
Imagine estar em uma sala cheia de gente falando ao mesmo tempo e, ainda assim, perceber alguém chamando seu nome. Isso é atenção. Agora imagine conseguir continuar uma leitura complexa por meia hora enquanto o celular vibra e notificações aparecem. Isso é concentração.

Uma analogia simples pode ajudar. Atenção é apontar uma lanterna. Concentração é manter a lanterna apontada no mesmo lugar, mesmo quando algo tenta puxar sua mão para outro lado.

Quando a cultura pop explica melhor que o manual
Em alguns games isso fica muito claro. Em Guitar Hero, por exemplo, o jogador precisa decidir rapidamente qual nota merece resposta, merece direcionar o movimento. Isso é atenção. Mas para atravessar uma música inteira sem errar, mantendo ritmo e precisão, entra a concentração.

Em jogos como Tetris, o desafio inicial é perceber o padrão que está se formando. Olha a atenção aí! Mas continuar antecipando peças por minutos seguidos, mesmo sob pressão crescente com uma velocidade cada vez maior, exige concentração sustentada.

Quando vamos para a sétima arte, tem uma obra que retrata um pouco do que estou falando: Whiplash. O protagonista, Andrew, não está apenas “prestando atenção” à bateria; ele está em um estado de hiperfoco onde o resto do mundo desaparece (incluindo dor física e relacionamentos). A atenção dele é capturada pelo ritmo do metrônomo ou pela contagem do mestre Fletcher, mas a sua concentração é o esforço exaustivo de manter esse foco absoluto durante horas de ensaio, ignorando o sangue nas mãos.

Sherlock possui uma atenção periférica absurdamente aguçada. Ele nota o detalhe na manga de um paletó ou uma mancha de batom enquanto caminha por uma multidão barulhenta.

O Sherlock Holmes de Guy Ritchie (2009) não é um bom filme do sensacional personagem de Arthur Conan Doyle, mas dá pra ilustrar um pouco o que estou falando. A atenção dele é o “scanner” que capta os dados dispersos no ambiente. Já a concentração entra em cena quando ele para tudo para processar essas pistas e deduzir o crime, fechando-se em seu “palácio mental”.

Outro filme interessante para abordar o assunto, dessa vez um filme bom (ou melhor, sensacional) é “O Jogo da Imitação” (2014). A equipe precisa manter a atenção nos padrões diários das mensagens nazistas, mas a quebra do código exige uma concentração intelectual que dura meses. Quando eles estão no bar e uma conversa casual chama a atenção de Turing para uma palavra repetida nas mensagens, é um estalo de atenção. O trabalho de construir a máquina “Christopher” para testar milhões de combinações é o resultado da concentração ininterrupta da equipe em um único problema complexo.

E no TDAH? Onde está o problema de verdade?
Aqui está o ponto que muda tudo. No TDAH, o prejuízo central não é da concentração, é da atenção. Mais especificamente, da autorregulação da atenção.

O cérebro tem dificuldade em decidir o que merece foco e quando manter ou mudar esse foco. Por isso surgem quadros como dificuldade de iniciar tarefas pouco estimulantes, atenção facilmente capturada por estímulos irrelevantes e dificuldade em sustentar atenção em atividades monótonas.

Mas a capacidade de concentração existe. Prova disso é o hiperfoco. Muitos pacientes conseguem passar horas concentrados em jogos, séries ou temas de grande interesse. Isso mostra que o motor da concentração funciona. O que falha é o controle voluntário da atenção.

Se fosse um transtorno primariamente de concentração, o paciente não conseguiria se concentrar em nada. E isso claramente não acontece.

Por que isso importa na vida real?
Confundir atenção com concentração leva a interpretações injustas. O aluno que não inicia a tarefa vira desinteressado. O adulto que procrastina vira preguiçoso. O profissional que rende mal em tarefas repetitivas vira incompetente.

Na prática, muitos desses indivíduos até conseguem se concentrar profundamente, desde que o estímulo seja suficientemente interessante. O problema é fazer isso quando a tarefa não ativa o sistema de recompensa.

O cérebro por trás disso
Do ponto de vista neurobiológico, o TDAH envolve principalmente circuitos fronto-estriatais, com alteração na modulação dopaminérgica e noradrenérgica. E tome tecnicismo chato, eu sei… mas é só pra você entender que existe uma área do cérebro com papel já reconhecido no transtorno. E essa alteração nessa área afeta atenção sustentada, controle inibitório e priorização de estímulos.

Por isso, os psicoestimulantes não criam concentração nem nos tornam superinteligentes… não chegou ainda de sermos como a Lucy da Scarlett Johansson e virarmos um pendrive! Os remédios organizam a atenção, permitindo que a concentração seja aplicada de forma mais estável e funcional.

Checkpoint final
Atenção não é concentração. Uma escolhe o foco, a outra sustenta o foco. Confundir essas duas coisas gera rótulos errados, frustrações desnecessárias e expectativas irreais.

Entender essa diferença não serve apenas para diagnóstico. Serve para olhar com mais precisão para si mesmo e para os outros. Às vezes o problema não é falta de esforço. É um sistema de atenção que precisa ser melhor regulado para que a concentração possa, finalmente, fazer o seu trabalho.

E se você acha que você pode ter TDAH, é importante entender que a queixa de dificuldade de atenção é comum na prática clínica, mas a evidência científica mostra que, na maioria dos casos, ela não corresponde a um diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, estando frequentemente relacionada a quadros de ansiedade, depressão, alterações do sono ou estresse persistente. Assim, o correto a se fazer não é tomar o que o colega disse que é bom, mas procurar um psiquiatra pra fazer uma avaliação clínica adequada.