E se você pudesse voltar ao passado sem mudar o presente?

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Uma viagem que não muda o destino

Acho que quase todo mundo já teve essa ideia em algum momento da vida. Eu já tive. A ideia de voltar no tempo. Não para grandes mudanças históricas, mas para algo simples. Um reencontro, uma conversa que não aconteceu… ou uma que aconteceu e que você quer apenas reviver, um pedido de desculpas que ficou preso, um “eu te amo” que não foi dito.

Agora imagine um café escondido em uma rua discreta de Tóquio… nada chamativo. Uma escada que leva a um porão. Lá dentro, um ambiente que parece suspenso no tempo e uma lenda curiosa. Quem se sentar em uma cadeira específica pode voltar ao passado.

Mas existem algumas regras.

Uma delas é simples e, ao mesmo tempo, brutal. Nada do que você fizer lá pode mudar o presente. Há outras, mas não quero estragar o prazer da leitura do livro que quero indicar, pois elas ajudam a dar robustez à ideia de imutabilidade do passado.

Essa é a premissa de Antes Que o Café Esfrie, de Toshikazu Kawaguchi. Um livro simples, de leitura fluida, mas que carrega uma ideia que permanece muito tempo depois da última página. Eu o li há aproximadamente um ano e, hoje, uma semana antes de você ler este texto, enquanto o escrevo, ainda trago a mensagem do livro à superfície da minha mente.

O curioso é que, apesar de ter como base a ideia de viajar no tempo, ele não fala sobre mudar o passado. Fala sobre a forma como nos relacionamos com ele.

O passado não muda. Nós mudamos

À primeira vista, a regra parece frustrante. Qual o sentido de voltar se nada pode ser alterado? É exatamente aí que a história encontra sua força.

Os personagens não conseguem reescrever suas trajetórias. Eles não evitam perdas, não desfazem erros, não alteram acontecimentos. E ainda assim, algo muda.

Um reencontro acontece, uma despedida finalmente é feita e um sentimento que estava preso encontra forma.

Então percebemos algo importante.

Eles não mudam o que aconteceu. Nós não mudamos o que aconteceu. A mudança que ocorre é em quem eles são a partir daquela experiência… em quem nós somos diante do que aconteceu.

Essa ideia se aproxima muito do que vemos em “A Chegada”, de Denis Villeneuve. Não lembro se já o citei em algum texto anterior. Provavelmente sim, porque ele tem essa capacidade de retornar à superfície da minha mente em momentos aparentemente aleatórios. No filme, o contato com o tempo não altera os fatos, mas transforma completamente a forma como a personagem se relaciona com eles. O conhecimento não muda o destino. Muda o significado da jornada.

A terapia como viagem no tempo

Enquanto lia o livro, era impossível não pensar na minha prática clínica. Se você é leitor contumaz dos meus textos, talvez já tenha percebido que muitas das ideias que trago para cá nascem justamente das experiências que vivo na minha profissão.

De certa forma, o processo terapêutico também é uma viagem no tempo. Não no sentido literal, mas no sentido psíquico.

Volta-se a experiências antigas. Revivem-se emoções. Revisitam-se memórias que, muitas vezes, estavam organizadas de forma fragmentada ou dolorosa. O paciente passa a olhar para si no passado. Aquele “eu” que foi julgado por tantos anos, muitas vezes sem qualquer direito de defesa.

E na terapia existe uma regra implícita, ou muitas vezes explícita, como no livro: o passado não pode ser alterado, mas pode ser compreendido, reorganizado e ressignificado.

A mudança não acontece no cenário. Acontece no sujeito.

Talvez essa seja uma das ideias mais importantes quando pensamos em sofrimento psíquico. O que mantém a dor não é apenas o que aconteceu, mas a forma como aquilo continua sendo vivido internamente.

O que fica depois do encontro

As histórias de “Antes Que o Café Esfrie” têm uma delicadeza crua. Quase dolorosa. Os personagens sabem que não podem mudar nada. Sabem que, ao retornar, tudo continuará exatamente como antes. E mesmo assim escolhem ir.

Por quê?

Porque, às vezes, o que falta não é mudança. É fechamento. É poder olhar para alguém uma última vez e dizer algo que ficou guardado. É compreender um gesto que antes parecia incompreensível.

Esses pequenos movimentos não alteram a realidade externa, mas transformam completamente a experiência interna. E isso, muitas vezes, é o que permite seguir.

Checkpoint Final

Talvez todos nós carreguemos pequenas viagens no tempo que nunca fizemos. Conversas que ficaram em aberto, sentimentos que nunca ganharam forma e momentos que gostaríamos de revisitar, nem que fosse por alguns minutos.

Se analisarmos friamente, talvez o que queremos de verdade nem seja mudar, pois isso implicaria em alterar quem somos hoje, inclusive as partes boas. Talvez a questão seja outra. Entender as circunstâncias que nos tornaram quem somos e dar sentido ao que vivemos.

O filme “Efeito Borboleta” toca nesse ponto, mas eu já estou fazendo meu checkpoint final. E quem sabe, quando eu beber aquele café naquela mesa, eu volte aqui e analise se deveria tê-lo incluído neste texto ou não.

Mas o texto não vai mudar.

Então pode ler e reler.

Ele sempre será o mesmo.

Se você pudesse revisitar um momento do seu passado, sabendo que nada mudaria…

O que você diria?

Quem você visitaria?

Para quando você voltaria?

6 thoughts on “E se você pudesse voltar ao passado sem mudar o presente?

  1. Se não houvesse limite de quantas vezes eu pudesse voltar ao passado, com certeza iria abusar o sistema para resolver qualquer inconveniência do dia a dia, como achar chaves e carteiras. xD

    Num contexto mais filosófico, com puro objetivo prático, usaria para refletir meus erros, já que sabendo o que procurar, poderia ter uma visão mais precisa do contexto, ao invés de me basear em ruminação de memórias distantes e viés emocional.

    Ótimo texto!

    1. Obrigado, Paulo! O livro citado no texto é muito reflexivo! Ele nos faz pensar justamente nesses pequenos detalhes que ruminam nossas memórias e que muitas vezes nos ancoram a um ponto que não deveria ser adoecedor. Recomendo demais a leitura caso tenha interesse.

  2. Este assunto me é muito caro pela experiência que tive quando criança.
    O que você diria?
    Quero ter o privilégio de conviver e sentir o seu amor e seu abraço
    Quem você visitaria?
    Minha Mãe

    1. Sei o quão caro é pra senhora o assunto, tia! Tenho certeza que tudo o que você fez naquele momento foi o melhor que você pôde fazer com a idade que tinha…

  3. Durante a pandemia perdi alguns entes queridos e se pudesse retornar teria dito a minha vozinha o quanto eu amava,pediria desculpas por brigas e birras tão tolas…enfim daria abraços cheios de ternuras nos meus tios e primo.Apenas reviveria um almoço em família mais uma vez.

    1. É interessante como sempre há aquele momento que fica eternizado em nossa memória, ALinyzinha! Por isso é tão importante termos sempre a consciência de que o que construímos no presente nos fará ser quem seremos amanhã, então poder voltar no tempo e reviver experiências boas significa que você construiu algo no passado que a faz ser a pessoa especial que você é hoje.

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