Há certas promessas que um filme faz antes mesmo de começar. Quando o logotipo da franquia surge na tela e o bigode mais famoso do mundo dos games se desenha em CGI rebuscado, o espectador entra em uma espécie de estado místico — uma comunhão laica com o encanador de Brooklyn. O primeiro longa do Super Mario Bros., de 2023, soube honrar essa liturgia: pegou o carro-chefe da Nintendo, respeitou seu DNA, contou uma história fechada e ainda deu ao Luigi aquela dose de protagonismo secundário que ele merecia havia décadas. Saímos da sessão com a mesma sensação de quando zerávamos o primeiro mundo: “terminei, mas quero mais”.
Pois bem — o “quero mais” chegou em 2026. E, como no famoso paradoxo do banquete (que, bem servido, sempre deixa fome), a continuação que prometia estrelas acabou nos entregando apenas purpurina. Um filme que tem “sabor” Mário Galaxy. Mas que pouco extrai do jogo que lhe deu origem.
Saltando Mundos: A Escolha que Comprometeu o Roteiro
A primeira questão — e, a meu ver, a mais grave — é a escolha do material-fonte. Quando se decide dar continuidade a uma história sobre o Mario, a pergunta natural é: “por onde continuar?”. A franquia tem, convenhamos, uma cartilha robusta. Super Mario Bros. 2, com sua premissa onírica e os simpáticos Shy Guys; Super Mario Bros. 3, que até hoje figura nas listas dos melhores jogos de todos os tempos; Super Mario World, que abriu o universo para o Yoshi e para o mapa em sete mundos. Três continuações possíveis, três narrativas prontas para adaptação, três universos plenamente compatíveis com o primeiro filme.
O roteiro, no entanto, preferiu o atalho: pular da tubulação do encanamento direto para a Via Láctea.
O novo filme dá um salto estelar rumo a Super Mario Galaxy, título de 2007 do Nintendo Wii que, à época, representou justamente uma virada de paradigma na franquia. Não há pecado na ambição — o pecado está em ignorar todo o aquecimento narrativo que uma continuação, a meu ver, exigiria.
É como começar a trilogia de O Senhor dos Anéis ignorando A Sociedade do Anel e pulando direto para As Duas Dorres ou O Retorno do Rei. Até funciona, se o espectador já tiver lido os livros. Mas um filme, por definição, precisa contar sua própria história — e uma história bem contada exige base, não um modo turbo ativado.
O Amontoado Galáctico: Velocidade Não é Profundidade
Para agravar o quadro, o filme resolveu compensar o salto narrativo com aceleração. E aqui entramos na zona de risco: velocidade, no cinema, é um recurso, não um conteúdo. Ritmo é bom; atropelamento, nem tanto. Mesmo problema das continuações de Sonic. Pelo visto, Nintendo e Illumination/Universal Pictures optaram por não estudar os erros do maior rival do Mário, no caso, o porco espinho velocista, cujos erros cinematográficos de suas continuações são evidentes.

O que se vê na tela, por quase duas horas, é uma sucessão de amontoados gráficos pouco criativos (apesar de belos). Tudo passa rápido demais para que o espectador se afeiçoe a qualquer coisa. A Princesa Rosalina, personagem que no jogo foi construída com uma melancolia comovente, aparece como figurante de luxo e quase sem propósito. O Mario, que no primeiro filme tinha camadas, vira uma espécie de operário intergaláctico em modo automático. O Luigi, coitado, retorna ao papel de sempre — o de estar por lá.
A falta de criatividade é tanta que até a cena da chegada das pequenas estrelas e admiração de Mário e companhia, nada mais é do que uma cópia escancarada do episódio The Eye, de Andor, do universo Star Wars.
Circula em Hollywood uma máxima atribuída a Billy Wilder que definia o excesso de cenas num roteiro com a seguinte pérola: “se o espectador começar a olhar para o relógio, o filme acabou, mas ele ainda não sabe”.
Em Mario Galaxy, o espectador olha para o relógio algumas vezes. E, pior, fica em dúvida se o que acabou de passar na tela foi um filme ou apenas um trailer estendido. E não falo só por mim. Assisti ao filme acompanhado de minha mulher e minhas duas filhas (de quase 14 e 12 anos) e o sentimento foi o mesmo entre nós 4.
A Maldição das Continuações: Quando o Cinema Repete (e Esquece) a Mesma Lição
O drama das continuações inferiores é uma praga tão antiga quanto o cinema comercial. Diria, inclusive, que é a maldição de Midas ao contrário: o que antes era ouro, a segunda rodagem transforma em chumbo.
A lista de cadáveres no cemitério das sequências é extensa. Velocidade Máxima 2 afundou o que o primeiro Velocidade Máxima havia tão bem construído. Matrix Reloaded acaba com toda a elegância que Matrix original nos havia dado. O Poderoso Chefão – Parte III, décadas depois do segundo (que é, quase tão bom quanto o primeiro), acabou virando tema de comentário jocoso nos bastidores da família Corleone. Até Hollywood, quando é honesta consigo mesma, reconhece: continuar é mais difícil do que começar.
Claro que existem exceções à regra, como o caso de O Império Contra-Ataca, Toy Story 2, O Cavaleiro das Trevas, dentre alguns outros.
O que quero dizer com a citação de continuações exitosas é de que existe um caminho. E esse caminho, em regra, é o da construção de uma boa história — não o do salto apressado.
O ponto é que o segredo das boas sequências não está em querer dar um passo maior do que a perna.
Entre a Aventura e a Inconveniência
Quando penso no paradoxo dessa continuação, lembro imediatamente de G. K. Chesterton, , em uma de suas pérolas publicadas em Tremendas Trivialidades (1909), disse “uma aventura é apenas uma inconveniência corretamente considerada; uma inconveniência é apenas uma aventura erroneamente considerada”.
E esse é o ponto de Mario Galaxy.
O Mario, nas mãos de roteiristas que respeitassem a lógica da franquia, teria vivido uma aventura — no sentido chestertoniano do termo, aquela inconveniência que a gente considera direito e transforma em história capaz de marcar. Mas o Mario que vimos na tela vive, na verdade, uma inconveniência. Uma aventura recalcitrante, atropelada, empurrada a fórceps.
Há matéria-prima dramática de sobra no jogo original: a solidão cósmica da Rosalina, a melancolia das galáxias perdidas, a ideia quase mítica de um encanador transformado em semideus estelar. Mas, para chegar lá, seria necessário aceitar a inconveniência — encará-la, dissecá-la e convertê-la em aventura.
O filme preferiu fugir dela.
E, claro, acabou sendo engolido por ela.
O Próximo Salto: Por Onde o Encanador Poderia Ter Pulado
Na minha opinião, e fique a vontade para discordar dela, a Nintendo precisa recalcular a rota caso queira fazer um terceiro filme.
O universo Mario sempre se renovou a cada geração. Há espaço para um filme que pegue a essência de Mario 3 (os mapas, os reinos, a ascensão de Bowser), outro que se dedique a Mario World (a chegada do Yoshi, a mitologia dos dinossauros). Tudo isso foi deixado de lado para saltar apressadamente para Galaxy.
Tomara que a Big N possa, no final das contas, tapar esses buracos. E, quem sabe, no futuro, relançar um Directors Cut de Galaxy, que possa fazer mais sentido do que a versão que está em cartaz nos cinemas.
Isso é tudo, pessoal! Nos vemos na próxima!

Advogado, graduado em Direito pela Universidade de Fortaleza (2001) e Pós-Graduado em Direito Privado pela Universidade de Fortaleza (2003). Colecionador de jogos eletrônicos. Diretor Vice-Presidente da União Cearense de Gamers – UCEG. Sócio da Quebrando o Controle Entretenimento, diretor de administrativo, produtor e roteirista de jogos eletrônicos. É colunista do site de jogos eletrônicos www.quebrandocontrole.com.br e titular das colunas Manifesto Gamer e Contracapa e apresentador do programa Hidden Gems.




