O Jogo Perfeito: Tetris – From Russia With Love

Artigos Contra-capa Notícias Últimas notícias
Compartilhe

Se você jogou Tetris (quem nunca jogou Tetris?) provavelmente nunca parou para pensar em como aquele jogo de blocos que caem saiu de um computador soviético e foi parar no mundo inteiro.

Pois bem, essa é exatamente a história que Henk Rogers conta em O Jogo Perfeito: Tetris – From Russia With Love, lançado no Brasil pela Editora Di Angelo.

E que história é essa?

Rogers não é um nome muito conhecido fora dos círculos mais apaixonados da indústria de games, mas ele é, sem exagero, um dos personagens mais importantes da história dos videogames. Holandês de nascimento, criado em Nova York, radicado no Japão, o cara lançou o primeiro RPG do mercado japonês — The Black Onyx, em 1984 — em uma época em que gênero de RPG era coisa que se explicava para as pessoas antes de tentar vender. É o tipo de detalhe que, por si só, já renderia um livro inteiro sozinho.

Mas o ponto de virada vem em 1988 em sua vida profissional ocorreu quando Rogers vai à Consumer Electronics Show em Las Vegas em busca de um jogo para publicar. Por acaso ele tropeça em um computador rodando Tetris. Ele mesmo descreve o momento: soube na hora que havia encontrado algo especial. “Não havia outro jogo que eu visitei uma vez”, escreve. Quem já perdeu horas tentando encaixar as peças na tela de um Gameboy ou dezenas de outros dispositivos possíveis de rodar Teris vai entender exatamente do que ele está falando.

A partir daí, o livro vira quase um thriller. Rogers embarca em uma missão para garantir os direitos do jogo junto ao governo soviético, num contexto de Guerra Fria, burocracia soviética e disputas de propriedade intelectual que envolvem desde empresários sem escrúpulos até a própria KGB, a polícia secreta da União Soviética nos tempos da Guerra Fria.

Ele entra na URSS com visto de turista. É interrogado porque a combinação — holandês, cara de americano, escritório no Japão, falando russo — parecia suspeita demais para qualquer agente de inteligência que se prezasse.

E ainda assim, no final das contas, é ele quem sai com os direitos do jogo.

O livro também cobre a parceria com a Nintendo, que colocou o Tetris no Game Boy e transformou o jogo em um fenômeno que ultrapassa gerações. Mais de 500 milhões de cópias vendidas até hoje. Há um certo prazer em ler os bastidores de uma decisão que moldou a história dos jogos eletrônicos, sabendo o que ela representou: o Game Boy sem Tetris provavelmente teria uma história bem diferente.

Um dos elementos mais interessantes do livro é a presença de Alexey Pajitnov, o criador do Tetris, que leu o manuscrito de Rogers e anotou nas margens onde sua memória divergia. Essas anotações foram mantidas e incorporadas ao texto. Muito bacana esse detalhe da publicação.

O resultado é uma narrativa que tem dois pontos de vista ao mesmo tempo, e isso dá ao livro uma dimensão que vai além da autobiografia convencional.

Por outro lado, o livro apresenta um certo pretenciosismo de Rogers que, claramente, sabe o que fez e não economiza na própria importância dentro da história. Mas, convenhamos, quando a história que você tem para contar é essa, um pouco de vaidade é perdoável. Além do mais, ele compensa com anedotas genuínas sobre os primeiros anos da indústria — uma época em que os jogos eram feitos em quartos de jovens programadores, vendidos em mercados de pulga e explicados um a um para cada potencial comprador.

Se ficou curioso sobre o livro, além da leitura, recomendo que assista a o filme da Apple TV+, Tetris, de 2023, com Taron Egerton no papel de Rogers. Se você assistiu e ficou curioso sobre o que é real e o que é invenção de Hollywood, o livro responde boa parte das perguntas.

 Spoiler: o real já é dramático o suficiente.

O Jogo Perfeito não é um livro técnico sobre game design nem um ensaio sobre a cultura dos videogames. É uma memória de negócios, aventura e acaso. Tudo em torno do (talvez) jogo mais importante da história.

Imagem: Capa do livro em português – Editora Europa

Para quem gosta de saber o que está por trás dos jogos que marcaram época, é leitura obrigatória. O livro está disponível em português, com 355 páginas, pela Editora Europa a versão em inglês pela editora Di Angelo .

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *