Imagine entrar em um mundo onde cada detalhe, da textura das árvores à sensação do vento, é tão realista que por um momento você esquece de sua própria realidade. Este é o sonho que guiou a evolução dos videogames nas últimas duas décadas, através da evolução dos gráficos e tecnologias, como os óculos de Realidade Virtual.
Com a evolução, títulos como Far Cry, The Last of Us, Tomb Raider, The Witcher, dentre inúmeros outros, não só elevaram a régua da narrativa e gráficos, mas também transformaram a jogabilidade. Ações simples, como coletar uma arma ou item de recuperação de energia do personagem, transformaram-se em uma verdadeira epopeia de ter que catar um pedaço de barbante, uma corda, um toco de madeira e um pedaço de metal para fazer um simples arco e flecha para caçar um calango, procurar onde assar o mesmo e depois disso tudo recuperar 2% do life do personagem (eu sei que exagerei, mas você, leitor atento, percebeu aonde quero chegar).
E tudo isso não veio a troco de nada. Muito pelo contrário. Partiu-se para um aumento exponencial de tempo e custos de produção, culminando em um ano de 2024 sem jogos exclusivos para o PlayStation 5 e uma crise paralela para o Xbox da Microsoft. Impensável um cenário desses até poucos anos atrás.
A Ascensão da Complexidade
No impulso em direção à busca pela perfeição nos jogos, encontramos um paradoxo intrigante: quanto mais as produtoras de aprofundaram na criação de mundos realistas (e, por consequência, complexo), mais se distanciaram da simplicidade, que uma vez fez dos jogos uma fonte universal de alegria.
Os jovens mancebos com menos de 30 anos não vão lembrar, mas, nos primórdios, os jogos eram simples. Extremamente simples. O supra sumo da simplicidade nesta primeira fase, a meu ver, era Pong, ainda nos anos 70.
Nos anos 1980 as coisas ficaram ligeiramente mais complexas. Os equipamentos permitiam jogos mais elaborados, mas ainda assim, fáceis de aprender e jogar. Tudo bem que o grau de dificuldade de um Battletoads, Mega-man e Ninja Gaiden, dos anos 1980, por exemplo, eram elevados à condição de punição do jogador, mas tinha uma finalidade: para aumentar o fator replay. Mas a jogabilidade em si, era relativamente simples. Na década de 1990 o sarrafo aumentou e assim por diante (já estou me sentindo velho…).
No entanto, a indústria começou a buscar uma imersão mais profunda, uma realidade mais palpável. Jogos começaram a exigir mais dos jogadores: mais tempo, mais habilidade e mais paciência. A complexidade tornou-se um sinal de qualidade e inovação.
Mas, aqui reside o nosso primeiro paradoxo: ao criar mundos onde a realidade é recriada com uma precisão obsessiva, acabamos criando uma barreira. Uma barreira que separa os jogadores casuais daqueles dispostos a mergulhar de cabeça nessa nova realidade.
O Custo da Perfeição
Desenvolver estes mundos detalhados vem com um preço literal dividido em 2 fatores: tempo e dinheiro.
O aumento dos custos de produção é um reflexo direto da demanda por mais detalhes, mais complexidade e mais conteúdo. E aqui não entram só programadores, designers, testadores. São mais roteiristas, atores para capturas de movimentos, dubladores e todos os penduricalhos decorrentes dessa expansão.
Assim, este investimento tem levado a ciclos de desenvolvimento mais longos e a uma pressão crescente sobre as equipes de desenvolvimento.
O paradoxo aqui é dolorosamente claro: ao tentar criar algo sem limites, encontramos limitações financeiras e temporais que nunca imaginamos.
Vejam o que aconteceu Cyberpunk 2079, que passou quase 1 década para ser desenvolvido e, quando foi lançado, o produto era, no mínimo, ruim, e teve de passar por inúmeras atualizações para se tornar um jogo condizente com sua proposta original. Isso levou a uma nova sobrecarga ao time de programadores que tiveram de trabalhar exaustivamente para corrigir o jogo e o salvar de um fracasso financeiro que se anunciava com as devoluções dos consumidores. (isso já aconteceu em 1982, com o jogo E.T para Atari, bode expiatório para o primeiro crash da indústria dos videogames).
O preço da perfeição
Em pleno 2024, esse paradoxo se manifestou de maneira alarmante quando a Microsoft anunciou novos planos, com a pitada de tempero de lançar quebrar a exclusividade de alguns de seus títulos para oferece-los em plataformas Sony e Nintendo.
E a situação escalou para um nível mais preocupante ainda quando a Sony revelou que não teria novos jogos exclusivos para o PlayStation 5 neste ano, um cenário inimaginável que reflete a magnitude desse desafio.
Em 2024, portanto, não teremos nenhum God of War, Spider-Man, Horizon, Gran Turismo, Sackboy, Halo, Gears of War e por ai vai….
Isso era impensável até poucos anos atrás.
A Reação dos Jogadores e da Indústria
A complexidade e o realismo extremo certamente têm seu público, mas e os jogadores casuais? Aqueles que jogavam para relaxar, para escapar da realidade por alguns momentos?
Este é o coração do paradoxo: na busca por criar algo supremamente real, algo que pudesse rivalizar com a própria vida, começamos a afastar aqueles que buscavam nos jogos um refúgio da complexidade do mundo real.
As vendas de consoles sofrem, as produtoras se preocupam, e um ciclo preocupante começa a se formar, ameaçando a estrutura sobre a qual a indústria dos jogos foi construída.
Em busca do Anakin Skywalker e do equilíbrio para a Força
O paradoxo da complexidade nos videogames nos ensina uma lição valiosa sobre a natureza do progresso. Em nossa busca por simular a realidade, não devemos esquecer que a essência dos jogos reside na capacidade de trazer diversão e, porque não, escapismo do mundo real.
O desafio da indústria, à medida que avança, é encontrar o equilíbrio entre a complexidade e a
acessibilidade, entre o realismo e a fantasia.
Talvez a solução esteja em abraçar a diversidade
de experiências, oferecendo tanto jogos de alta complexidade para aqueles que procuram uma experiência profunda, quanto jogos mais simples e acessíveis para atrair e reter jogadores casuais. No fim, a verdadeira vitória será criar um ecossistema de jogos onde todos possam encontrar seu próprio espaço, sem que ninguém seja deixado para trás no avanço tecnológico.
E o ponto chave de tudo isso: criatividade. Que este seja o pilar do desenvolvimento dos jogos, pois se não for divertido, não interessará aos jogadores, não venderá e não terá dinheiro no mundo que torne uma ideia ruim em um jogo excelente.
Isso é tudo, pessoal! Nos vemos na próxima!
Imagem: Tech4Gamers

Advogado, graduado em Direito pela Universidade de Fortaleza (2001) e Pós-Graduado em Direito Privado pela Universidade de Fortaleza (2003). Colecionador de jogos eletrônicos. Diretor Vice-Presidente da União Cearense de Gamers – UCEG. Sócio da Quebrando o Controle Entretenimento, diretor de administrativo, produtor e roteirista de jogos eletrônicos. É colunista do site de jogos eletrônicos www.quebrandocontrole.com.br e titular das colunas Manifesto Gamer e Contracapa e apresentador do programa Hidden Gems. É colunista do portal Achou Gastronomia e titular da coluna Vem Pra Mesa.