As revistas de videogame fizeram parte da infância de milhares de jogadores brasileiros. Muito antes da internet dominar o acesso à informação, elas eram responsáveis por apresentar novos consoles, revelar jogos inéditos e ensinar truques que pareciam impossíveis de descobrir sozinho.
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Na minha história, elas tiveram um papel ainda maior. Não serviram apenas para mostrar novidades ou publicar análises. Elas alimentaram a minha imaginação, despertaram curiosidade sobre tecnologias que eu sequer conhecia e ampliaram um universo que, até então, parecia limitado aos poucos videogames que eu encontrava na casa de parentes e amigos.
Hoje, olhando para trás, percebo que aqueles exemplares foram muito mais do que simples revistas. Eles funcionavam como verdadeiros pontos de encontro entre jogadores que, muitas vezes, nem se conheciam. Todos liam as mesmas páginas, sonhavam com os mesmos lançamentos e imaginavam como seria colocar as mãos naquele jogo que acabara de aparecer nas fotografias impressas.
As revistas eram o primeiro ponto de encontro
Como contei anteriormente, eu nunca tive uma preferência por marca. Isso aconteceu de maneira bastante natural, já que cresci jogando em consoles diferentes, sempre graças aos meus primos, amigos e conhecidos. Um dia era Atari 2600. No outro, aparecia um Odyssey² ou um Intellivision. Depois surgia outro aparelho completamente diferente.
Essa diversidade acabou impedindo que eu criasse aquela rivalidade entre empresas que muitos jogadores desenvolveram mais tarde. Para mim, videogame sempre foi videogame. O importante era descobrir um jogo novo, pouco importando qual logotipo estivesse estampado no console.
As revistas especializadas reforçaram ainda mais essa forma de enxergar os jogos eletrônicos. Elas falavam sobre diferentes fabricantes, mostravam novidades de várias plataformas e deixavam claro que existia um universo muito maior do que aquele que eu conhecia.
No começo, lembro principalmente da Videogame e da Ação Games. Curiosamente, muitas edições não chegaram às minhas mãos pelas bancas. Um primo comprava praticamente todas as revistas e, depois de algum tempo, elas acabavam passando pelas minhas mãos.
Foi folheando aquelas páginas que comecei a perceber o tamanho daquele universo. Cada edição parecia abrir uma nova janela para mundos que eu nem imaginava existir. Era impossível terminar uma leitura sem querer experimentar pelo menos alguns daqueles jogos.
Sem entender a indústria, mas pouco importa
Naquela época, eu ainda não entendia como funcionava a indústria dos videogames. Não fazia ideia de quem eram as produtoras, as publicadoras ou os desenvolvedores. Também desconhecia conceitos como gerações de consoles, exclusividades ou capacidade técnica do hardware.
Mesmo assim, alguma coisa chamava minha atenção. Bastava olhar aquelas páginas para perceber que existia criatividade sem limites. Parecia haver um jogo para qualquer assunto que alguém fosse capaz de imaginar.
Em uma página, eu pilotava carros de corrida em alta velocidade. Logo depois, imaginava um cavaleiro enfrentando monstros medievais. Em seguida, surgia um ninja, um robô, um personagem de desenho animado ou um herói tentando salvar o planeta.
Tudo isso acontecia apenas virando algumas folhas de papel.
Hoje parece algo comum, porque temos acesso imediato a milhares de vídeos e capturas de tela. Naquele tempo, porém, uma revista conseguia despertar a mesma ansiedade que atualmente sentimos ao assistir a um grande evento de anúncios pela internet. Cada nova edição era uma descoberta.
Descobrindo um universo muito maior
Ler revistas de videogame no início dos anos 1990 despertou algo que, hoje, considero fundamental para a minha formação como jogador. Elas estimularam uma imaginação que dificilmente teria sido desenvolvida da mesma maneira em outra época.
As fotografias ocupavam apenas pequenos espaços nas páginas. Muitas vezes existiam duas ou três imagens mostrando diferentes momentos da jogabilidade. Ainda assim, aquilo era suficiente para minha cabeça construir uma aventura inteira.
Eu imaginava como o personagem se movimentava, criava ideias sobre as fases seguintes e tentava descobrir o objetivo daquele jogo apenas observando algumas imagens estáticas.
Acredito que isso acontecia porque eu já tinha desenvolvido esse hábito em outras leituras. Minha mãe assinava revistas da Turma da Mônica e também publicações da Disney. Depois de terminar uma história, eu costumava inventar continuações, criar novos personagens e imaginar aventuras completamente diferentes das publicadas.
Quando comecei a ler revistas de videogame, o processo foi praticamente o mesmo. A diferença era que, agora, minhas histórias precisavam considerar que alguém controlaria aqueles personagens usando um joystick.
As revistas também ampliaram a minha visão sobre os próprios videogames.
Até aquele momento, minha realidade era formada principalmente pelo Atari 2600, pelo Phantom System e por alguns outros aparelhos que apareciam ocasionalmente entre familiares. Eu imaginava que aquele era praticamente todo o universo dos jogos eletrônicos.
Começou a paixão pela SEGA?
Então começaram a surgir nomes completamente novos. Master System! Game Gear! Mega Drive!
Cada página apresentava um console diferente, acompanhado por jogos que pareciam pertencer a outra realidade. Os gráficos eram mais coloridos, os personagens maiores e os cenários transmitiam uma sensação de evolução tecnológica que impressionava qualquer criança.
Foi justamente através dessas revistas que conheci o Mega Drive antes mesmo de jogar nele.
Meses depois, meu primo compraria um aparelho da SEGA. Ao mesmo tempo, eu deixaria o Atari para conhecer o Top Game VG-9000, um dos muitos clones do NES comercializados no Brasil.
Naquele momento, sem perceber, eu começava uma nova etapa da minha história com os videogames.
Dicas que salvavam jogadores
As revistas de videogame também exerciam outra função extremamente importante. Elas não serviam apenas para apresentar consoles ou divulgar lançamentos. Muitas vezes, eram a única maneira de superar um desafio que parecia impossível. Para muitos jogadores, funcionavam como um verdadeiro manual de sobrevivência.
Hoje basta pesquisar qualquer dúvida na internet e, em poucos minutos, encontrar uma solução. Naquela época, a realidade era completamente diferente. Descobrir um segredo dependia de insistência, conversas entre amigos ou das páginas das revistas. Cada nova edição trazia a esperança de resolver algum problema antigo.
As seções de dicas estavam entre as minhas favoritas. Eu lia cada informação com atenção e tentava memorizar códigos, atalhos e estratégias. Algumas orientações eram enviadas pelos próprios leitores, criando uma troca muito interessante entre pessoas apaixonadas pelos videogames. Era uma comunidade formada muito antes das redes sociais existirem.
Muitas vezes, uma simples dica fazia toda a diferença. Bastava descobrir um item escondido ou uma estratégia diferente para finalmente avançar na aventura. Aquilo aumentava ainda mais a importância das revistas dentro da minha rotina. Elas eram muito mais do que leitura; eram companheiras de cada partida.
Os famosos “debulhados”
Além das dicas rápidas, existiam os famosos detonados. Algumas revistas preferiam chamá-los de “debulhados”, um termo bastante comum entre os leitores daquela época. Eles explicavam praticamente cada etapa da aventura e ajudavam quem havia ficado completamente perdido.
Esses guias mostravam caminhos escondidos, soluções para enigmas e estratégias para derrotar chefes muito difíceis. Também revelavam itens secretos que provavelmente passariam despercebidos durante uma jogatina comum. Era como receber ajuda de alguém que já havia explorado todo aquele mundo antes de você.
Algumas pessoas diziam que utilizar um detonado diminuía a diversão. Eu nunca enxerguei dessa maneira. Na verdade, eles permitiam continuar uma aventura que poderia terminar simplesmente pela falta de experiência. Afinal, muitos daqueles jogos não eram exatamente amigáveis com crianças.
Ainda hoje guardo um enorme carinho por essas páginas. Elas me ajudaram a terminar jogos que marcaram minha infância e tornaram muitas tardes ainda mais divertidas. Sem aqueles “debulhados”, provavelmente algumas aventuras permaneceriam incompletas na minha memória.
Um jogo continua impossível
Mesmo com tantas dicas e detonados, existiam jogos que pareciam desafiar qualquer tentativa de compreensão. Alguns eram difíceis por opção dos desenvolvedores. Outros simplesmente possuíam mecânicas confusas, que acabavam transformando pequenos detalhes em enormes obstáculos.
Entre todos eles, existe um que continua ocupando um lugar especial na minha lista de frustrações. Estou falando de Top Gun, lançado para o NES. Até hoje considero aquele pouso um dos momentos mais irritantes que já enfrentei em um videogame.
Não importava quantas vezes eu lesse as instruções ou tentasse repetir os movimentos. Sempre parecia faltar alguma informação importante para conseguir pousar corretamente. Era uma mistura de tentativa, erro e muita teimosia diante da televisão.
Talvez alguém consiga defender esse jogo com argumentos bastante convincentes. Eu respeito completamente essa opinião. Mesmo assim, dificilmente mudarei de ideia sobre ele. Algumas lembranças permanecem exatamente como aconteceram, e essa certamente é uma delas.
Quando um pôster valia ouro
Se as reportagens despertavam minha curiosidade, os pôsteres conquistavam definitivamente meu coração. Eles levavam os videogames para além da televisão e transformavam personagens em parte do meu cotidiano. Eram brindes simples, mas possuíam um enorme valor para qualquer criança.
A Videogame e a Ação Games não ficaram conhecidas pelos pôsteres. Já a SuperGame fazia disso um verdadeiro diferencial. Quase toda edição trazia uma bela ilustração de algum jogo da SEGA, tornando cada exemplar ainda mais especial.
Meu primo sempre preservava suas revistas com muito cuidado. Eu, entretanto, tinha outra prioridade quando elas chegavam às minhas mãos. Os pôsteres rapidamente ganhavam um novo destino, mesmo que isso significasse separar algumas páginas da publicação original.
Naquele momento, a revista deixava de ser apenas leitura. Ela passava a fazer parte da decoração do meu quarto e também da minha rotina. Bastava olhar para aqueles desenhos para lembrar dos jogos e imaginar novas aventuras.
Meu quarto também virou gamer
Não demorou para que a porta do guarda-roupa começasse a mudar de aparência. Com alguns pedaços de fita adesiva, ela recebeu ilustrações de personagens que marcaram minha infância. Aqueles desenhos transformavam um móvel comum em uma pequena homenagem aos videogames.
Sonic, Fantasia, Golden Axe, Altered Beast e Kid Chameleon estavam entre os meus favoritos. Cada novo pôster ocupava um espaço cuidadosamente escolhido. Aos poucos, parecia que o quarto inteiro acompanhava a minha paixão pelos jogos eletrônicos.
O mais curioso é que muitos daqueles jogos eu ainda nem possuía. Mesmo assim, bastava observar as ilustrações para imaginar como seria explorá-los. A criatividade fazia o restante do trabalho, exatamente como acontecia durante a leitura das revistas.
Hoje esses pôsteres despertam o interesse de muitos colecionadores. Para mim, porém, o verdadeiro valor sempre esteve nas lembranças que eles carregam. Cada pedaço de papel representa uma fase muito especial da minha vida como jogador.
O legado das revistas de videogame
E isto era só o início. Além dessas revistas, ainda fui leitor da ProGames, da Sega Mania, da GamePower, da SuperGamePower e da Gamers. Cada uma, à sua maneira, conseguiu me conquistar e fazer parte da minha formação como jogador.
Elas estiveram presentes no momento certo da minha vida gamer. Acompanharam uma época sem internet, passaram pela transição tecnológica e continuaram importantes mesmo depois que a forma de consumir informações mudou completamente.
Hoje, manter uma revista mensal é algo muito mais complicado. As notícias chegam rapidamente pela internet e aquilo que antes demorava semanas para alcançar o leitor agora aparece quase instantaneamente. Mesmo assim, ainda existe valor em criar conteúdos físicos ou digitais voltados para um público específico.
Às vezes, quando pego uma edição da Game Sênior, sinto aquela sensação de voltar no tempo. É uma lembrança gostosa de uma época em que descobrir um jogo novo através de algumas páginas impressas já era uma experiência especial.
Sou muito grato por essas revistas terem sido uma das bases daquilo que sou como gamer. Elas foram tão importantes quanto os meus primeiros videogames, as locadoras, o computador e, posteriormente, a emulação.
Cada uma dessas experiências ajudou a construir minha relação com os jogos eletrônicos. E ainda existem muitas outras histórias para contar, porque essa paixão nunca foi formada apenas pelos jogos, mas também por tudo aquilo que existia ao redor deles.
Texto original: Comunidade Mega Drive

Profissão: Perigo
“Que não é o que não pode ser que; Não é o que não pode; Ser que não é; O que não pode ser que não; É o que não; Pode ser; Que não; É.”