Pensamento macabro para aqueles que estão com medinho da IA: dias atrás me deu vontade de ver um daqueles velhos filmes de faroeste, do tipo estrelado pelo saudoso John Wayne no clássico Bravura Indômita. Netflix tem algo parecido? Não. Prime tem? Não. Apple tv? Disney+?, Max? Old Flix? Google? Não, não, não, não e não. Torrent tem? Tem um link asiático mas com um peer zerado, ou seja, não vai conseguir baixar.
IA, faz ai pra mim um filme no estilo True Grit de 1969, com Yul Brynner como personagem principal, mas que não morra no final, com muita ação e tiroteio ao por do sol e Gal Gadot como personagem feminina. Dez minutos depois estou lá, sentado na minha poltrona favorita, balde de pipoca na mão e uma cervejinha do lado, pensando: putz, essa IA é boa mesmo. Pena que tá tirando o trabalho de muita gente.
Mas pera, ainda precisa de pessoas para montar a televisão, plantar o milho de pipoca, fazer o estofamento da poltrona e instalar toda a parte elétrica, inclusive o ar condicionado. Ainda tem emprego pra muita gente. Sem contar alguém pra recolher a sujeira e varrer a salinha de TV.
Ok, não estou com essa bola toda, mas já dá pra fazer isso com música e é super mega blaster “compor” algo que, de outra forma, jamais faria.
Mas e quanto aos games? IA, faz ai pra mim um jogo de navinha, estilo atirar em todo mundo, scroll up paralax com 3 camadas, podendo alternar as armas e turbinar a nave. Taca um som bem hard metal no gameplay e mega explosões. Bola um nome bem impactante, inclua na Steam, com versão também para android e Ios, nas stores de celulares. Ah, otimize também para o Zeenix.
Estamos longe disso? Acredito que não. Vai tirar o sono de muita gente? Vai, com certeza. Vai tirar o meu? Não, a menos que seja algo assim: IA, crie uma história não linear, onde o leitor possa interferir com o andamento da narrativa, baseado nas suas características presentes nas redes sociais, interagindo com seus “amigos” da rede. Não pera, isso já pode ser feito. Eu mesmo já experimentei, pelo menos o lance da narrativa não linear e a IA não demorou nem 10 minutos pra fazer o jogo completo.
Perdi o sono? Nadica de nada, pelo contrário, adorei o resultado. Preocupa? Nem um pouco, afinal, fazer o game é tudo de bom e esse prazer a IA não tem como me proporcionar. Mas ajuda muito no dia a dia.
A questão nem é tanto o trabalho braçal, mas o comportamento programado da IA: será que ela vai pegar o tema e fazer o melhor possível, dentro do que foi proposto, vai fazer a primeira opção que encontrar ou ela vai “julgar” e dizer algo como “seu tema está lacrador demais” ou “precisa de mais inclusão”?
Uma vez, programando um aplicativo para usar em uma determinada tarefa referente a um jogo, usando o Pascal do Delphi, recebi um warnning do tipo: seu código na linha tal ficaria mais eficiente se fosse escrito assim bla bla… Claro que não foi tão explícito assim, mas a dica estava lá. Nada é mais íntimo na programação do que o nosso código e o meu foi violentado. Agora o pessoal se delicia pedindo para IA fazer os códigos. Já tem até meme falando que gasta um minuto para fazer o código e dez horas para debugar. Ora bolas, manda a IA debugar.
O curioso é que nada disso é novidade de fato. Lá nos anos 80 conheci dois aplicativos: The Producer e The Creator nos quais você informava as configurações dos seus dados e ele criava (com o código e tudo mais) um aplicativo de gerenciamento de banco de dados. Era estranho, naqueles tempos, ver código gerando código, mas a gente acaba entendendo que não há nada demais nisso. Não há nenhum vudu compucabalístico por trás da parada.
É o mesmo com a IA: não tem mágica acontecendo mas apenas processamento absurdamente grande de informações, em tempo recorde. Nesse aspecto ela age como nosso próprio cérebro: analisa tudo que está armazenado, ou seja, toda informação que coletamos ao longo da vida, e produz um resultado. Assim como a gente, ela também se baseia no que já foi criado, visto, degustado, etc. Simples assim.
Lembra da pergunta da semana passada de como serão os games daqui a 10 anos? Vai pensando ai porque muita gente boa hoje pode acabar se dando mal, principalmente aqueles que demoram três, cinco ou mais anos para fazer o seu primeiro game.
Em tempo: achou exagero meu quando falei do game que interage com os amigos virtuais, em função das características deles, presentes nas redes? Com certeza não viu o viral do Felipe Neto que perguntou ao Grok quais abordagens nos posts dele poderiam levá-lo para a cadeia. A resposta foi hilariante.
E só por curiosidade, pedi pro ChatGPT fazer uma caça ao tesouro numa ilha deserta, usando narrativa não linear e programado no Delphi. Semana que vem eu mostro os resultados e minhas impressões ou melhor, imprecisões. Já estou pensando no que será daqui a vinte anos.
Então, se quiser criticar, elogiar, xingar, falar palavras de incentivo, mandar pix pra ajudar na aposentadoria, etc, o canal mais eficiente é o velho e surrado e-mail: renato@tilt.net. Sinta-se livre pra descer o sarrafo porque nesta altura do campeonato, meu amigo, eu já sofri todas as críticas positivas e negativas que um gamedev pode sofrer.
Game Designer formado em Desenho Industrial e Comunicação Visual, em 1981 pela PUC/RJ. Foi diretor técnico e editor da revista Micro Sistemas de 1983 até 1995. Produtor do site TILT online desde 1996. Autor de vários jogos para computador, tais como Amazônia, Serra Pelada, Aeroporto 83, Angra-I, Xingu, Resgate na Serra do Roncador, Pedra Negra, e muitos outros. Criador das ferramentas de produção e programação de jogos: Sistema Editor de Adventures, Zeus, Micro Aventuras e Projeto Gênesis.