Foto : Sagresonline
As mulheres que lutam por seus direitos são destemidas, fortes e batalhadoras em busca de igualdade e liberdade. Em 8 de março, comemoramos o Dia Internacional da Mulher, uma data que não se trata de chocolates e flores, mas sim de lutas. Todos os movimentos sociais das mulheres existem para romper a sociedade patriarcal e afirmar o papel das mulheres na política, na economia e na sociedade em geral. Como disse a icônica Emmeline Pankhurst (interpretada por Meryl Streep) no filme ‘As Sufragistas’: ‘Não queremos quebrar as leis, mas sim fazer as leis’.
As mulheres não podiam votar, não podiam sequer divorciar ou ter CPF, quanto mais falar ou pertencer à sociedade como os homens. As conquistas das nossas antepassadas e as lutas presentes em pleno século XXI proporcionam diversos espaços para as mulheres, inclusive no mundo dos games. A representatividade feminina nos jogos digitais hoje existe graças a diversos movimentos feministas que abriram caminho para nós atuarmos nesse meio. E, claro, graças às mulheres que mergulharam nos jogos digitais em busca do seu direito de atuar no meio.
Mas, você conhece a história da Carol Shaw, a primeira mulher a desenvolver um jogo eletrônico no mundo?
Mulheres também criam games!

Foto : Sagresonline
Carol Shaw nasceu em 1955 em Palo Alto, Califórnia. Shaw é filha do meio entre dois irmãos. Seu pai era engenheiro mecânico e trabalhava na Stanford Linear Accelerator Center, um laboratório de projetos energéticos para o governo, e sua mãe era dona de casa.
Shaw passou a infância e a adolescência na região do Vale do Silício, local que abrigava muitas empresas conhecidas no mundo da tecnologia, e isso acabou influenciando-a. Ela era a irmã do meio, tendo dois irmãos. Devido à influência da família, Shaw desenvolveu afinidade pela construção e ferrovias. Carol, seus irmãos e seu pai, brincavam com trens em miniaturas e criavam circuitos ferroviários.
Inclusive, as brincadeiras de mini ferrovia se tornaram um projeto pessoal na faculdade de engenharia, mas Shaw largou o curso para focar na computação.
De acordo com a revista Vintage Computing, seu primeiro contato com o machismo foi logo na infância. Shaw sofreu preconceito ao entrar na área de STEM (Science, Technology, Engineering e Mathematics).
Na adolescência, Carol teve seu primeiro contato com o primeiro jogo de Arcade lançado mundialmente, o Computer Space. Ela aproveitava o clube de minigolfe que seus pais frequentavam, onde havia um espaço reservado para jogos e se entretenia lá.
Escola
O primeiro contato de Carol Shaw com computadores foi na escola, quando ela começou a escrever programas para as aulas de matemática. Ela participou de várias competições de matemática no ensino fundamental e médio e era uma das poucas mulheres em sua turma de exatas. Em uma entrevista para a revista Vintage Computing, ela compartilhou as dificuldades que enfrentou por ser mulher na área de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
As pessoas diziam: ‘Nossa, você é boa em matemática para uma garota’ Isso era meio irritante. Por quê garotas não deveriam ser boas em matemática?”, ressalta Carol.
Ensino superior
Como muitos estudantes, Carol não tinha certeza do curso universitário que gostaria de seguir. Inicialmente, ela ingressou na Faculdade de Letras e Ciências, motivada pelas matérias na área de tecnologia. Entretanto, Shaw tinha uma forte influência da família na engenharia elétrica, já que desde cedo criava mini ferrovias. Por essa razão, ela mudou para o curso de Engenharia Civil. Mas ela não parou por aí. Devido ao contato com o computador e as programações em algumas matérias, ela se interessou pelo desenvolvimento de software.
Em 1978, Carol decidiu fazer seu mestrado em Ciência da Computação. Após procurar emprego em diversas empresas durante seu ensino superior, finalmente, foi entrevistada pela Atari.
Atari
Em entrevista à revista Vintage Computing, Shaw conta que sofreu preconceitos por ser mulher ao trabalhar com jogos, ainda mais por não ter experiência prévia na produção de jogos.
“Uma vez, quando eu estava trabalhando no laboratório, Ray Kassar, o presidente da Atari, estava fazendo um tour pelo local e falou: ‘Nós temos uma mulher desenvolvedora de jogos. Ela pode fazer a combinação de cores e a decoração interior dos cartuchos’. E estes eram dois tópicos que eu não tinha interesse.”, lembra Shaw.
Na Atari, ela trabalhou na programação e design de cinco jogos: Jogo da Velha 3D, Video Checkers, Polo, Othello e Super Breakout.
Activision
Carol foi trabalhar na Tandem, onde também havia outras mulheres e sua superior também era uma mulher. Nessa empresa, ela fazia programação em Assembly, que são dispositivos para máquinas de grande porte. Alguns meses depois, ela entrou na Activision, onde se tornou a primeira mulher no mundo a criar um jogo: River Raid.

Foto : Sagresonline (Carol Shaw com o jogo River Rider.)
O jogo River Raid foi inspirado em outro jogo, o Scramble. Naquela época, jogos ambientados no espaço chamavam a atenção do público, e Carol Shaw optou por fazer um jogo similar. Entretanto, o cofundador da Activision, Al Miller, pediu que ela criasse algo fora do comum. Com essa orientação, Carol pensou em um jogo de tiro em uma tela na vertical com rolagem. Para compor o cenário, ela colocou uma terra dividida por um rio ao meio, e para dar movimento, o jogador controlava um avião que voava sobre o rio. Ao apresentar o jogo, Dave Crane sugeriu que ela adicionasse um jato, e ela assim o fez.
O jogo foi um sucesso! Shaw ganhou uma placa de ouro, já que River Raid vendeu mais de um milhão de cópias. Depois, ela ganhou uma placa de platina por ter vendido mais de dois milhões de cópias.
Aposentadoria
Shaw trabalhou para a Tandem por mais de seis anos, de 1984 até 1990. Lá, ela trabalhava com a programação de computadores para processar sistemas como reservas aéreas e bolsas de valores. A máquina que ela trabalhava possuía diversos processadores e nunca parava de funcionar, mesmo que um processador fosse retirado.
Quando o esposo de Carol conseguiu um emprego na Xerox Palo Alto Research Center, ela decidiu se aposentar. Com o sucesso de River Raid e alguns investimentos, ela tinha dinheiro suficiente para isso.
Mesmo aposentada, Carol continuou fazendo trabalho voluntário para o Instituto Foresight, onde seu esposo trabalhava. Eventualmente, o instituto a contratou em meio período como Chefe do Escritório de Informações, onde ela fazia a manutenção de servidores MACs e Windows NT. Em 2001, ela saiu desse emprego.
No mesmo instituto, ela também participou do projeto MASS (Molecular Assembler Sequence Software), que foi escrito na linguagem C++ e ajudava na modelagem molecular de elementos – construindo-os átomo por átomo. O projeto estava relacionado ao trabalho de seu marido na área de nanotecnologia. O slogan do Instituto era “Preparando para a NanoTecnologia”.
É difícil fornecer contexto sem mais informações sobre qual projeto está sendo referido. Poderia, por favor, fornecer mais detalhes ou esclarecer a frase?
Vida Atual
Carol se afastou da mídia para viver uma vida tranquila, pois não queria fama ou publicidade. Em 1999, ela deu sua última entrevista na gravação de “Stella at 20”.
Hoje em dia, Carol Shaw, a primeira mulher a desenvolver jogos, leva uma vida tranquila e continua inspirando outras mulheres. Seu exemplo é importante não apenas para o mundo dos jogos, mas também para a luta por inclusão no campo da ciência e tecnologia, onde ainda há muitas batalhas a serem travadas.
Seu costume de andar de bicicleta, que se iniciou com suas idas e voltas para seu trabalho na Atari, permaneceu. E seu gosto por jogos também: Carol Shaw revelou em uma entrevista que gosta de jogar SimCity, um jogo de monitorar e construir cidades, e também revelou não gostar muito de jogos de console.
Hoje, a primeira mulher que desenvolveu games, vive uma vida tranquila, e, claro, inspira outras mulheres. Pois não é apenas no mundo dos games, ainda existe muitas lutas de pertencimento no mundo da ciência e tecnologia.
Com informações da revista Vintage Computing.

Jornalista e blogueiro
“Em cada trabalho que deve ser feito, há um elemento de diversão.”