Já parou pra pensar como um simples aparelho na palma da mão pode carregar mais memórias emocionais do que muitas bibliotecas inteiras? Digo isso sem medo algum, principalmente por me considerar leitor ávido, sempre estando com um livro em minha mesa de cabeceira e mantendo consistência nas minhas leituras (sejam de estudos ou por lazer).

E é exatamente nas memórias, que o livro A Handheld History: A comprehensive celebration of handheld consoles and their iconic games from indie journal, publicado pela editora Lost In Cult, fisga os jogadores de videogames, em especial os apaixonados por portáteis, como é o meu caso (quem me conhece sabe da minha idolatria pelos gloriosos PC Engine GT/Turbo Express, Sega Nomad, GameGear e pelos Game & Watch).
No livro, a promessa do título (“uma celebração abrangente dos consoles portáteis e de seus jogos icônicos”) é entregue com esbanjamento: são textos, fotos, relatos e curiosidades que fazem cada leitor querer sacar um Game & Watch, Game Boy, PSP ou DS de sua mochila jogar, seja numa viagem de carro, deitado em uma rede numa tarde de sábado, ou até mesmo se deslocando para o colégio/faculdade/trabalho, como passageiro de algum automotor.
Bem, voltando ao livro, sabe aquela nostalgia que bate quando você encontra seu antigo console na gaveta e lembra da famosa “soprada” nos cartuchos, das pilhas (confira se estão gastas!) e até da musiquinha repetitiva das fases? Aqui, ela é o combustível do livro.
Só que, diferente de muitos reviews e listas sobre consoles portáteis, “A Handheld History” escapa do óbvio. É menos “ranking dos melhores” e mais um mosaico de experiências: relatos de quem viu o Tetris fazer a avó jogar Game Boy, entrevistas com desenvolvedores indie que fizeram suas carreiras em plataformas micro, textos de jornalistas e criadores do mundo todo.
Também é bacana a abordagem do livro, principalmente para (muitas) as pessoas que consideram que os portáteis sempre viveram num limbo, sendo uma espécie de “subproduto” de consoles domésticos. O livro nos apresenta uma perspectiva diferente, de que os portáteis como videogames dedicados a experiências de jogo mais íntimas (quase que a totalidade de jogos de portáteis são somente de 1 jogador) e acessíveis. É bem verdade que os portáteis são “menores” tecnologicamente, mas infinitos em criatividade.

O livro usa esse paradoxo a favor, é no limite da tela e da bateria que a imaginação ganha espaço pra correr solta. E cada capítulo é praticamente um mini portal: do Game & Watch da Nintendo (Gunpei Yokoi ainda é um dos meus grandes ídolos), nascido nos anos 80, passando pelo fenômeno Game Boy e suas várias evoluções, até as ousadias recentes do Playdate e do Analogue Pocket.
Visualmente, “A Handheld History” é um espetáculo. As fotos de consoles, revistas antigas, jogos raros e até acessórios bizarros são apresentadas num layout moderno, quase como uma mistura entre álbum de férias geek e catálogo de exposições de museu. Mas nada daquela frieza de enciclopédia: cada imagem é acompanhada de um texto apaixonado, daqueles que fazem qualquer pessoa pensar “caramba, talvez eu precise de um Neo Geo Pocket na minha vida”.
O próprio livro é reflexo do mercado indie de cultura pop: projeto financiado por apaixonados, feito para apaixonados, escrito por jornalistas, colecionadores e desenvolvedores. Essa mistura deixa o tom sempre pessoal e convidativo – é um convite pra entrar na rodinha, não pra ficar olhando de fora.

Dá pra ler “A Handheld History” como um café reconfortante, relembrando clássicos como Tetris, Pokémon Red, WarioWare, Monster Hunter 3rd Portable… Mas seria perder metade da graça. Porque, entre as linhas, o livro cutuca temas mais profundos: acessibilidade, inovação, as diferenças entre jogar sozinho e em grupos, a importância de espaços de escape (quem nunca jogou escondido no ônibus ou durante a aula?) (Atenção meninas daqui de casa! O pai de vocês nunca levou o GameGear para jogar no colégio, viu?).
E, num tempo em que a indústria foca cada vez mais em gráficos realistas e hyperprodução, o livro nos faz olhar pro outro lado: o valor das experiências pequenas, íntimas, de bolso, que às vezes botam no chinelo muita superprodução de console parrudo.
É neste contexto que, se você é do tipo que pirou com a chegada do novo Nintendo Switch 2 (que é um portátil e não é ao mesmo tempo) ou é daqueles que guarda o Game Boy Advance como relíquia, “A Handheld History” é leitura obrigatória.
Por outro lado, se você não viveu a “era de ouro” dos portáteis (alô, geração touchscreen!) vai encontrar relatos e reflexões que mostram por que os consoles de bolso são, paradoxalmente, gigantes na história dos jogos.

No fim, o livro é mais que uma homenagem: é um lembrete de que, num mundo onde tudo cresce, às vezes as melhores coisas são mesmo aquelas que cabem na palma da mão.
Um grande livro. Sobre pequenos (no tamanho) videogames!
A Handheld History é uma publicação da editora Lost in Cult, em encadernação com capa dura, 277 páginas, todo em inglês e pode ser encontrado em livrarias on-line, inclusive em formato digital. O meu, em edição física, comprei por R$ 205,35 em maio de 2025 em uma promoção.

Advogado, graduado em Direito pela Universidade de Fortaleza (2001) e Pós-Graduado em Direito Privado pela Universidade de Fortaleza (2003). Colecionador de jogos eletrônicos. Diretor Vice-Presidente da União Cearense de Gamers – UCEG. Sócio da Quebrando o Controle Entretenimento, diretor de administrativo, produtor e roteirista de jogos eletrônicos. É colunista do site de jogos eletrônicos www.quebrandocontrole.com.br e titular das colunas Manifesto Gamer e Contracapa e apresentador do programa Hidden Gems. É colunista do portal Achou Gastronomia e titular da coluna Vem Pra Mesa.