Quando o passado parece perto e o ontem parece longe
Existe uma sensação estranha que quase todo mundo já experimentou. Você pensa em algo que aconteceu há quinze anos e aquilo parece perto. Quase tangível. Como se estivesse logo ali, atrás da porta. Mas algo que aconteceu ontem parece distante, como se tivesse ocorrido meses atrás.
No nosso grupo de WhatsApp onde falamos sobre amenidades, o Daniel Gomes, aqui do QoC e da Comunidade Mega Drive, sempre traz alguma nostalgia. Algo que nos remete a um passado longínquo que, curiosamente, parece próximo. Isso me gerou uma inquietação na semana em que escrevo este texto. Uma semana antes da publicação, porque o escrevi antes de viajar no Carnaval.
A pergunta não é apenas por que isso acontece. A pergunta é o que isso revela sobre nós.
O tempo da física não é o tempo da mente
Em Interestelar, Christopher Nolan faz o que sabe fazer melhor: transformar um conceito científico em impacto emocional. O tempo ali é relatividade pura. Horas em um planeta equivalem a décadas na Terra. Mas o que realmente dói não é a equação. É perceber que a filha está envelhecendo enquanto o pai continua jovem, é saber que para salvá-la ele perdeu a vida dela inteira… é saber que aquele tempo nunca será recuperado.
Outra ficção sensacional que aborda o tempo sob outro olhar é A Chegada, de Denis Villeneuve. A genialidade do filme está em transformar linguagem em percepção temporal. Quando a protagonista começa a compreender o idioma alienígena, ela deixa de vivenciar o tempo de forma linear. Passado, presente e futuro deixam de ser sequência. Tornam-se coexistência. E é aqui que a coisa começa a ficar desconfortavelmente próxima da vida real.
O cérebro não mede duração. Ele mede mudança
O cérebro não mede minutos. Ele mede significado, ele atribui sentimentos às vivências e aquela situação ganha peso e se torna motivo de fixação da memória, mas a nossa memória não armazena dias completos. Ela guarda marcos… emoções… mudanças… rupturas… conquistas… perdas…
Quando você pensa em 2009, você não revive 365 dias. Você revive “o ano em que…”. Para mim, por exemplo, foi o ano em que me formei e o ano em que me casei. Não lembro de cada dia daquele ano, apesar de ter sido um dos anos mais marcantes da minha vida. A emoção comprime o passado distante e ele vira um resumo narrativo.
O ontem pode parecer longo quando carregou novidade, tensão ou transformação. Um dia cheio de decisões difíceis parece maior quando lembrado. Um mês inteiro de rotina automática encolhe.
Curiosamente, semana passada, minha filha me perguntou quem decidiu que o dia teria 24 horas. Fui pesquisar movido por essa curiosidade compartilhada e descobri algo fascinante. Ninguém decidiu isso sozinho. Foi um processo cultural que começou há mais de quatro mil anos. Os egípcios dividiram o período de luz em 12 partes usando relógios de sol e a noite em outras 12 observando grupos de estrelas chamados decanos. Assim nasceu a ideia de 12 mais 12, totalizando 24 partes. Essas horas variavam conforme a estação. Depois, os babilônios, com seu sistema numérico de base 60, ajudaram a estruturar minutos e segundos. E foi o astrônomo grego Hiparco quem propôs tornar essas 24 partes iguais, criando as chamadas horas equinociais. O que hoje parece natural é, na verdade, uma convenção construída lentamente pela humanidade. Nós não apenas medimos o tempo. Nós o organizamos para caber na nossa compreensão. O relógio é uma invenção. A experiência é outra coisa.
Tempo, identidade e ciclos
Em Dark, essa ideia ganha contornos filosóficos quase deterministas. A série não fala apenas sobre viagens no tempo. Fala sobre inevitabilidade. Sobre ciclos. Sobre como escolhas e traumas atravessam gerações. O mais perturbador não é o looping temporal, é a sensação de que estamos presos em padrões que acreditamos estar escolhendo pela primeira vez. O tempo psicológico tem menos a ver com relógios e mais com identidade, com experiências.
Em Life is Strange, o poder de voltar no tempo revela algo brutal. Cada escolha altera quem você se torna, mais ou menos como vimos em Efeito Bortboleta, onde as escolhas do personagem mudam seu futuro mas todas aquelas histórias coexistem no seu cérebro. Não existe retorno real. Existe apenas consciência ampliada das consequências.
Às vezes o ontem parece distante porque você já não é a mesma pessoa que o viveu e às vezes algo de vinte anos atrás parece próximo porque ainda está ativo dentro de você.
A infância parece longa porque tudo era novo. Cada experiência era inédita. O cérebro estava em constante expansão. A vida adulta acelera porque a repetição aumenta. A novidade diminui. O mundo deixa de surpreender com a mesma frequência e, sem novidade, o tempo encolhe.
Existe também um fator quase matemático que não podemos esquecer: quando você tem dez anos, um ano representa dez por cento da sua vida. Aos quarenta, representa apenas dois vírgula cinco por cento. Cada ano se torna uma fração menor da história total, mas talvez a camada mais profunda não seja cognitiva, seja existencial. O tempo parece próximo quando ainda nos atravessa. Parece distante quando já não nos representa.
Interestelar fala de relatividade física. A Chegada fala de relatividade perceptiva. Dark fala de ciclos inevitáveis. Life is Strange e Efeito Borboleta falam de escolhas irreversíveis.
Todas essas obras, no fundo, falam da mesma coisa: o tempo psicológico é uma construção narrativa, pois nós não vivemos minutos, vivemos histórias, e quando a narrativa muda, o tempo muda junto. A história que armazenamos não é exatamente como aconteceu minuto a minuto, mas uma construção que fizemos do que vivemos e que podemos acessar o todo instantaneamente.
Checkpoint final
E se você chegou até aqui eu quero te propor um exercício simples: pegue dois momentos da sua vida. Um evento marcante que tenha acontecido há muito tempo e outro irrelevante mas recente. Feche os olhos por alguns segundos e tente perceber qual deles parece mais próximo emocionalmente. Depois, pergunte-se: o que esse momento mais relevante ainda significa para mim? Ele ainda está ativo na minha identidade ou já virou apenas uma lembrança arquivada?
Você pode perceber algo curioso: o tempo que parece perto, geralmente é o tempo que ainda carrega afeto, aprendizado ou dor não resolvida. O tempo que parece distante muitas vezes é aquele que já deixou de nos atravessar.
O relógio pode até marcar horas iguais para todos, mas a experiência nunca é uniforme.
Preste atenção nos próximos dias. Observe como uma conversa importante pode alongar uma tarde. Como um dia automático pode desaparecer da memória. Como uma lembrança antiga pode parecer mais viva do que algo que aconteceu ontem. O tempo pode até ser medido em 24 horas iguais, mas ele é sentido em intensidades diferentes e talvez compreender isso seja uma forma mais honesta de viver.
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José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!