A Brasil Game Show, maior feira nacional de jogos digitais, finalizou sua 15ª edição no último domingo, dia 13 de outubro, com muitas atrações e novidades.
Para o segmento nacional de desenvolvimento de jogos, um dos pontos mais importantes da feira é, como em outras edições, a Avenida Indie, espaço reservado pela organização para os estandes das produtoras de games do país.
Esse ano, a BGS inovou, dedicando um espaço mais generoso às iniciativas nacionais, com uma localização que abrangia três vias com games e experiências lúdico-digitais brasileiras, com amplo espaço para o tráfego de público.
Há nítidos avanços, quando resgatamos a análise de dez anos atras, registrada no antigo site Play’n’Biz, no qual escrevi que “o espaço reservado aos estúdios nacionais independentes parece tímido e sem destaque [onde] apenas meia dúzia de empresas compunham a área de desenvolvedores nacionais, apesar de contar com destaques como Toren, do estúdio gaúcho Swordtales, e Aritana e a Pena da Harpia, do estúdio Duaik Entretenimento”.
À ocasião, escrevi ainda que “empreendimentos como Digiten, Garage 227 Studios, Firasoft, Reload e Game Blox [estavam] opressivamente reunidos em um canto atrás dos stands portentosos de Americanas e Saraiva”.
Na edição de 2023 da feira, a ‘avenida’ ainda era uma longa via apertada, como registrou Renato Degiovani aqui no QoC: “Até mesmo a avenida indie tinha pontos que estavam constantemente congestionados, mas isso era gerado por outro problema: a avenida é muito estreita. Basta um ou dois pararem para ver um jogo e o mesmo acontecer no estande à frente e fica impossível passar por ali”.
Aparentemente, a organização decidiu ceder mais espaço para os projetos brasileiros, mas ainda há questões a serem observadas, como segue:
Grandes estandes
A BGS sempre foi marcada pela presença de grandes estandes de empresas de porte, como Microsoft, PlayStation e grandes magazines, algo que vem se tornando mais raro nas últimas edições, provavelmente fruto de retração econômica e de ampliação de eventos concorrentes, como a CCXP, gamescon latam e Retrocon, entre outros.
Quem puxar pela memória há de lembrar que, uma década atrás, várias publicadoras de outros países também já aportaram no evento e hoje estão ausentes.
Como resultado, há mais espaço a ser preenchido pelas empresas participantes, de modo que a distribuição acaba por privilegiar indiretamente estúdios menores, a exemplo dos nacionais.
Produção nacional expressiva
A quantidade e a qualidade de games produzidos no país tem crescido ano a ano e se profissionalizado, conquistando investimentos externos, a atenção de publicadoras estrangeiras e novos negócios, movimento que leva um maior número de pessoas interessadas a querer conhecer e jogar os games brasileiros.
Fruto dessa constatação, a organização deve ter avaliado com olhar mais generoso a possibilidade de ampliar a avenida, considerando haver espaço de sobra, como visto acima.
Eventos concorrentes
Embora o assunto jamais tenha surgido de forma oficial, é corrente no meio que a chegada da gamescon latam, ex-BIG Festival, trouxe um upgrade para o universo dos grandes eventos ligados aos jogos digitais, situação que já mostrava mudanças desde a primeira edição da CCXP, focada na cultura Geek, mas local também aberto às marcas e ações com games.
O sucesso incontestável de 2023 da Retrocon, repetido esse ano com uma logística mais organizada para recepção de público e das produtoras de games nacionais independentes, fez subir a régua da concorrência, pressionando a BGS a se mexer para atender também a esse segmento de forma mais madura e profissional.
Ao final, temos que a pequena avenida até então reservada para os indies revelou-se um verdadeiro ‘quarteirão indie’, com mais áreas livres para movimentação e experimentação dos games brasileiros.
Ainda que a análise desse resultado seja positiva, é inegável que, frente aos estandes profissionais das marcas consolidadas de mercado, as estruturas de octanorm dos estandes disponíveis aos indies carecem de personalidade e charme, o que depõe contra o local e, por extensão, não se mostram convidativos ao grande público de games, cujo olhar é disputado intensamente pelos estandes de grande porte.
Naturalmente, compete aos locatários dos estandes caprichar no layout para ganhar a atenção dos visitantes, mas seria ingênuo acreditar que os estúdios brasileiros em sua maioria teriam condições de bancar com os custos adicionais de estética e design de ambiência, tendo em vista o esforço hercúleo de grande parte dos desenvolvedores nacionais para virem a São Paulo, arcando com um pesado investimento, somente para estar exibindo seus projetos na feira sem a contrapartida das vendas garantidas.
Longe de ser uma crítica à produção da BGS, esse texto enfatiza a necessidade de um olhar mais atento para o aperfeiçoamento da experiência indie na feira, de modo que a relação custo-benefício se mostre proveitosa para os Devs nacionais.
O QoC aguarda a edição 2025 da feira com grande expectativa, para que estas questões sejam avaliadas com carinho pela organização.
Até lá.
Imagem: Game Blast

Idealizador do projeto Indie Brasilis, ex-editor e atual colaborador do Quebrando o Controle, o jornalista se diz um Geek assumido e fanático por RPG e Dungeons & Dragons. O profissional atua desde 2007 no jornalismo de games, com passagens pelos veículos Portal GeeK, Game Cultura, GameStorming, Rádio Geek e Drops de Jogos, entre outros.






