
Por que o novo He-Man acertou exatamente por não tentar ser genial?
Tem uma cena no filme do He-Man que a sala inteira aplaudiu.
Não vou dizer qual. Não preciso. Quem foi ao cinema sabe exatamente o momento. E quem ainda não foi vai entender quando chegar quele instante em que a tela entrega algo tão certo, tão preciso, que levou a uma sala de cinema inteira bater palma para uma tela como fazia tempo que não via acontecer.
E isso não acontece por acidente. Acontece quando um filme sabe exatamente o que faz.
A Maldição do “precisa ter profundidade”
Existe uma síndrome crônica nas adaptações de desenhos e quadrinhos nos últimos, sei lá, 20 anos. Ela atinge diretores, estúdios e, frequentemente, os próprios fãs: a ideia de que para um filme baseado em quadrinhos, desenhos ou brinquedos ser legitimado, ele precisa ser sombrio, complexo, filosoficamente denso.
Christopher Nolan fez isso com Batman e o resultado foi magnífico na sua trilogia do Cruzado de Capa. Destoou de quase todos os demais. Mas criou geração de imitadores que confundiram tom melancólico do Bruce Wayne de Christian Bale com profundidade intelectual.
Zack Snyder ergueu um culto em torno da ideia de que heróis precisam carregar o peso do mundo nos ombros e olhar para o horizonte com expressão de quem leu Nietzsche no intervalo do almoço e Dostoiévski enquanto tomava o cafezinho no final da tarde. E muita gente bebeu dessa fonte. E muitos filmes de super-heróis caíram em desgraça exatamente por essa premissa (tudo bem que roteiros fracos, histórias ruins, atores inadequados dentre outros inúmeros fatores, contribuíram para fracassos retumbantes)
Mas em resumo: o resultado? Filmes que não conseguem simplesmente divertir o público. Ponto. PONTO.
He-Man poderia ter caído nessa armadilha com facilidade.
O universo de Eternia tem matéria-prima para isso: um príncipe com dupla identidade (aqui é um meme desde os anos 80, quando os memes nem existiam ainda), uma batalha cósmica entre bem e mal, questões de destino e legado. Daria para fazer uma versão sombria (como quis o filme dos anos 80, estrelado por Dolph Lundgren), cheia de conflito interno e metáforas sobre poder e responsabilidade.
Mas os produtores e diretor Travis Knight não permitiram essa abordagem. E acertaram em cheio!
Eternia não precisa de terapia

O filme entende algo fundamental sobre He-Man que muitos esqueceram ou nunca souberam: o personagem nunca foi sobre angústia existencial. Ele foi sobre um cara gigante de cueca dourada brandindo uma espada e gritando que tem o poder. E isso não é suficiente. Mais do que suficiente para as crianças que cresceram nos anos 80 e capaz de satisfazer nova geração de consumidores desse conteúdo (embora em menor intensidade do que os xóvens que hoje são 40+).
A produção abraça essa essência do “sem dramas” sem pudor.
O tom leve, o ritmo ágil, e uma alegria genuína em cada sequência de ação que comunica algo simples e raro: as pessoas que fizeram esse filme gostam do personagem! As piadinhas infames e sem graça do Esqueleto ficaram incríveis (ponto para Jared Leto, que, mesmo sem ser reconhecido pelo uniforme e maquiagem, acertou direitinho no tom do vilão que é mau por querer ser mau, sem ter que ficar explicando muito isso).
Não estão desconstruindo um mito. Não estão subvertendo expectativas para parecerem inteligentes.
Estão respeitando personagens que foram importantes pra muita gente e que pode ser importante também para quem está chegando agora.
E essa segunda parte é fundamental para surgir uma franquia de cinema!
O teste das pessoas que não cresceram em Grayskull
Fui para o cinema com minha mulher e minhas duas filhas, que, apesar de conhecerem superficialmente o universo de Eternia, não têm muito conhecimento desse universo. Noutras palavras, minhas pequenas (que não são mais tão pequenas assim) conhecem He-Man de ouvir falar. Sem a bagagem afetiva, sem a memória dos programas infantis dos anos 80 e sem saber distinguir o Mentor do Fera de primeira.
As 3 saíram satisfeitas. Minha esposa perguntou pelo menos umas 3x durante o filme onde estava a She-ra! As meninas, riam com o canto da boca meio que sem querer admitir que o pai delas, empolgado com o filme, estava, no fundo no fundo, certo ao arrastá-las para quase um filme de quase 2h30.
E isso já diz muito! Demonstra que a história, apesar de seus defeitos de ritmo e profundidade do roteiro, funcionou muito bem, com personagens eram compreensíveis, o humor leve, e razão emocional suficiente para se importar com o desfecho.
O filme não exige enciclopédia prévia. Ele constrói seu próprio espaço de entrada sem desrespeitar quem os fãs dos anos 80.
Esse equilíbrio tecnicamente difícil de atingir e frequentemente subestimado como critério de qualidade. Filmes que não fazem sentido para iniciados falham como obras. Filmes que explicam demais insultam quem chegou antes. He-Man encontra o meio-termo com uma naturalidade que parece simples.
Para os veteranos: eles fizeram o dever de casa

Para quem cresceu com a série animada original, com os bonecos da Mattel/Estrela, com as HQs que chegaram a sair por aqui pelas mãos da Editora Abril, o filme tem camadas.
Não vou entrar em detalhes. Spoiler é crime contra a humanidade e contra a crítica. Mas existe uma linguagem visual, referências de design, escolhas de elenco e momentos específicos que funcionam em frequência exclusiva para quem tem o histórico. São presentes escondidos em cenas que passam despercebidos para o público geral (me permitam o quase spoiler, mas as minhas meninas não entenderam os risos dos personagens na cena final) e que fazem o fã veterano apertar o cotovelo do vizinho na cadeira ao lado.
O tipo de cuidado que demonstra pesquisa, não apenas licennça. Há uma diferença entre usar uma propriedade e conhece-la. A equipe de Travis Knight e do Amazon MGM Studios fizeram o trabalho de casa direitinho!
O que um filme de entretenimento deve fazer
Existe uma crítica preguiçosa que qualifica filmes assim como “apenas entretenimento” como se isso fosse uma concessão, uma categoria menor, um elogio com asterisco.
Essa crítica está errada, a meu ver.
Fazer entretenimento bem-feito é tão difícil quanto fazer drama denso.
A diferença é que o entretenimento não tem onde se esconder: se o público não se divertiu, falhou. Não tem trilha sonora melancólica e fotografia saturada para criar a ilusão de que a lentidão e de profundidade.
O He-Man não falhou. A sala aplaudiu. Pessoas sem contexto prévio se engajaram. Fãs de décadas encontraram o que vieram buscar.
As vezes o maior acerto de uma adaptação é simplesmente respeitar quem o personagem sempre foi e ter a coragem de não tentar transformá-lo em outra coisa para parecer mais sofisticado.
Eu tenho a força. Essa é a premissa de He-Man. E quem fez esse filme também sabia disso!
PS! Assistam às 3 cenas pós-crédito! Minha esposa adorou uma delas (aqui é outro quase spoiler)!

Advogado, graduado em Direito pela Universidade de Fortaleza (2001) e Pós-Graduado em Direito Privado pela Universidade de Fortaleza (2003). Colecionador de jogos eletrônicos. Diretor Vice-Presidente da União Cearense de Gamers – UCEG. Sócio da Quebrando o Controle Entretenimento, diretor de administrativo, produtor e roteirista de jogos eletrônicos. É colunista do site de jogos eletrônicos www.quebrandocontrole.com.br e titular das colunas Manifesto Gamer e Contracapa e apresentador do programa Hidden Gems.