
“Women Game Jam (WGJ) como divisor de águas no acesso e construção de uma indústria de games mais inclusiva, diversa e justa.“

O universo de desenvolvimento de jogos é frequentemente associado a uma maratona de alta pressão. No centro dessa cultura, estão as game jams “tradicionais”: maratonas de desenvolvimento de jogos, de 48 horas de duração, onde desenvolvedores de todos os níveis participam correndo contra o relógio (muitas vezes sacrificando o sono), com um único objetivo de entregar um protótipo jogável e disputar o topo de um ranking.
No meio desse cenário competitivo, a Women Game Jam (WGJ), traçou um caminho completamente diferente: o que começou como uma iniciativa focada em criar um espaço seguro para mulheres (cis e trans) e pessoas não binárias, se transformou em um movimento histórico onde se consolidou no calendário global de todos anos, provando que o verdadeiro combustível para inovação e transformação da indústria não é a rivalidade, mas, sim, a colaboração, o acolhimento e a representatividade.
Se a indústria parecia um ambiente intimidador, a WGJ tem provado ao longo de suas edições que a diversidade de uma comunidade de pessoas criadoras e desenvolvedoras de jogos não só traz novas perspectivas, mas inverte a lógica do mercado criando um ambiente sob medida para que minorias possam florescer.

Historicamente moldada por um perfil homogêneo composto por homens cis heteros, e, em grande parte machista, a indústria de games ainda hoje se mostra um ambiente de difícil acesso para minorias. Se tratando de gênero, mulheres cis, mulheres trans e pessoas não binárias enfrentam barreiras que vão muito além da falta de oportunidades técnicas.
O isolamento, preconceito velado (e muitas vezes explícito também), a falta de credibilidade dadas às suas habilidades e a “escassez” de referências geram a tão conhecida “síndrome da impostora”, e acabam por vezes afastando talentos brilhantes antes mesmo que possam tentar.

Depois de tantos anos de estrada (próximo já da sua 10° edição que acontecerão nos dias 16 a 18 de outubro deste ano de 2026), o reflexo da WGJ é visível na própria estrutura da indústria de jogos atual. Olhar para a trajetória da WGJ ao longo das suas edições é observar o amadurecimento de uma comunidade que entendeu que acolhimento é o primeiro passo para a permanência. Quando a indústria de jogos parece um território fechado, a WGJ prova que a diversidade, a inclusão e o aprendizado coletivo colaborativo geram jogos mais ricos, criativos e humanos.
Liderança que inspira: O grande diferencial!

Um dos maiores pilares de sucesso da WGJ está em quem “puxa” a frente do projeto. A importância da representatividade na liderança do evento é CRUCIAL. Ver mulheres e pessoas não binárias organizando, coordenando e tomando decisões de grande escala global envia uma mensagem muito clara para as participantes:
“Esse espaço também é seu!”

Essa liderança tem desenhado um formato focado no processo inclusivo, acessível e no aprendizado coletivo e colaborativo, com acesso a mentorias experientes do mercado, prezando sempre por um ambiente seguro acompanhado também por especialistas da área de psicologia, distanciando-se ao máximo do modelo competitivo.
O evento elimina o peso do “vencer ou perder”, permitindo testar suas ideias de forma ousada e sem medo do fracasso ou do julgamento. Além disso, as conexões feitas na WGJ duram muito além do fim de semana do evento, gerando parcerias profissionais, contratações e amizades a longo prazo, fazendo valer o tão importante “networking”.
Muitas das participantes iniciantes que não sabiam por onde começar, hoje lideram equipes em grandes estúdios, palestras em eventos nacionais e internacionais ou fundaram suas próprias empresas independentes, tornando-se por sua vez liderança e referência para as próximas gerações.

Ao priorizar a criação de laços e o acolhimento em nível institucional ao invés da disputa por prêmios, a WGJ provou que o modelo competitivo de game jam não é o único possível a fazer ponte entre iniciantes e mercado de jogos, o evento também prova que é possível construir uma cultura de trabalho mais saudável e justa, se tornando um manifesto vivo de que para criar jogos incríveis e uma indústria mais forte, o ingrediente não é a pressão do relógio, mas sim a “altura das pontes” que estão sendo construídas juntas.
Quebrando o isolamento sistemático do setor, o impacto da maratona de jogos da WGJ não é medido pelo número de vencedoras, mas pela quantidade de mulheres cis, mulheres trans e pessoas não binárias impactadas com as oportunidades de construir portfólio e conquistar voz na indústria.
A WGJ não foca em descobrir quem é a melhor desenvolvedora ou o melhor jogo, o objetivo é garantir que todas as pessoas que participam cheguem ao final da imersão sabendo que são capazes de construir e desenvolver algo, mesmo que nunca tenham feito; que saibam que têm o direito, capacidade e apoio para ocupar seu lugar na indústria de jogos. É nesse cenário que a WGJ entra como um grande divisor de águas!

Você pode acompanhar todas as ações que o projeto tem realizado no Brasil através principalmente do instagram: Women Game Jam Brasil (@wgjbr).
Imagem da Capa: UOL

Colunista no QoC, Caster no Elas no Controle, CEO e Diretora de criação no Naiá Games Studio, Designer de jogos com mais de 10 anos de experiência em projetos que abragem: publicidade, entretenimento, educação, cinema e editorial. Atuou na liderança de projetos de grande escala e impacto global como: Samsung, Google e Microsoft, e é especialista no desenvolvimento e criação de experiências que usam tecnologias emergentes que vão desde mobile, uso de IA, e o ecossistema em XR/AR/VR. Líder de comunidades Game devs, fundadora da primeira associação e coletivo de desenvolvedores e estúdios de games do Amazonas, fundadora e líder da Aliança de Estúdios e desenvolvedores de games do norte, Líder e produtora na Women Game Jam (game jam com maior recorte de gênero do mundo), professora e ativista com foco no acolhimento e integração de minorias no mercado de jogos priorizando a inclusão, acessibilidade e diversidade no Brasil e no mundo.