O alívio de não sentir
Semana passada, em uma das consultas, um paciente me disse algo que, à primeira vista, pareceria uma solução simples: ele queria colocar todos os problemas dentro de uma caixa, trancá-la, fechar, esquecer e seguir a vida como se nada estivesse ali.
Confesso, sinceramente, que eu o entendo, pois eu já pensei no mesmo.
Existe um tipo de cansaço que não pede resolução, pede silêncio. Um silêncio emocional, um intervalo. Ou um botão de pausa que a vida real não oferece.
A ideia da caixa surge exatamente nesse ponto. Não como negação da realidade, mas como tentativa de sobrevivência. O problema é que, na prática, essa estratégia não resolve, ela apenas adia e o que é adiado, não desaparece.
O terror que vem de dentro
Em fevereiro, eu, minha esposa e minha filha assistimos à série “It: Bem-vindos a Derry”. Sim, assistimos bem depois do lançamento da série e sim, minha filha gosta de filmes e séries de terror.
Quando o meu paciente falou da caixa, eu lembrei logo de uma cena em que o personagem Dick Hallorann conta que aprendeu com a avó a guardar coisas ruins dentro de uma caixa. Uma forma de não ser consumido por aquilo que ele sentia e percebia… até que ele encontra Pennywise.
Pennywise não cria medo, ele revela o medo… ele acessa as memórias e abre aquilo que já estava guardado. A caixa das angústias de Hallorann é aberta e tudo que estava organizado, contido, aparentemente sob controle, retorna de forma desorganizada, intensa e impossível de ignorar.
Talvez o verdadeiro terror dessa cena não seja o palhaço, mas a constatação de que aquilo nunca deixou de existir.
Uma curiosidade que parece pequena, mas não é: Hallorann não nasceu nessa história. Ele vem de “O Iluminado”, outra obra de Stephen King. Eu não me lembrava desse detalhe até ir pesquisar sobre o personagem depois de ter visto o episódio em que acontece a cena relatada. Ele também aparece em “Doutor Sono”, onde ele apresenta a mesma caixa, com o mesmo conceito, ao pequeno Danny Torrance (não é um spoiler, tá bom?).
A caixa na vida real
Na clínica, essa “caixa” aparece com outros nomes. Evitar pensar, fingir que não aconteceu,distrair-se o tempo todo, trabalhar demais, dormir menos do que deveria, preencher todos os espaços possíveis para não ter que olhar para dentro. São os mecanismos de defesa, muitas vezes inconscientes, que ativamos.
Funciona? Às vezes… por um tempo…
Emoções não processadas não ficam inativas, elas ficam aguardando e quando retornam, raramente pedem licença.
Elas aparecem como ansiedade que não se explica, irritação que parece desproporcional, um cansaço que não melhora com descanso, uma tristeza que não tem um motivo claro. Às vezes aparecem como crises outras vezes como um vazio difícil de nomear.
Não é que a caixa se abre de repente. Ela nunca esteve realmente fechada.
Abrir não é o problema
Talvez o maior equívoco não seja tentar criar a caixa. Em alguns momentos, ela até é necessária, enquanto nos fortalecemos ou adquirimos mais experiência para lidar com ela. É o “metroidvania” da vida que te faz voltar para áreas do mapa depois de ter determinadas habilidades (desculpa pra quem não é do mundo gamer, mas a referência era inevitável).
Nem tudo pode ser enfrentado de uma vez. O problema é acreditar que a caixa pode permanecer fechada para sempre, porque existe uma diferença importante entre guardar e elaborar.
Guardar é colocar algo fora do campo de consciência. Elaborar é transformar aquilo em algo que pode ser integrado à sua história sem te paralisar. Isso não acontece de forma abrupta, não precisa ser tudo de uma vez, não precisa ser sozinho.
Diferente do que acontece com Hallorann, o processo terapêutico não invade, não quebra o cadeado, não expõe de forma caótica. Ele convida, organiza e permite que a caixa seja aberta aos poucos, com previsibilidade, com segurança.
No seu tempo…
Checkpoint final
Mas afinal, devemos ou não criar a caixa?
Não importa, pois a questão principal no processo terapêutico é o que fazemos com ela depois. Porque, no fim das contas, a terapia não tenta evitar que ela se abra. Ela te prepara para decidir se você prefere que isso aconteça de forma descontrolada… ou se, em algum momento, você vai escolher estar presente quando isso acontecer.
E aí fica a pergunta que tenho tentado deixar nos meus textos.
Se existe uma caixa dentro de você, você sabe o que tem lá dentro… ou só está torcendo para nunca descobrir?

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!