Quando a vida segue seu curso
Semana passada eu atendi uma paciente que está vivendo um momento de luto. É algo bastante comum no meu consultório, mas este caso em específico me chamou a atenção. Ela encarou com um olhar mais resiliente do que pacientes em luto costumam encarar, ela enxergou o que é o luto. Existe uma verdade silenciosa que quase ninguém gosta de encarar de frente: a vida é feita de ciclos e dentro desses ciclos existe algo inevitável, a despedida. E lembrei de algo que eu disse à minha mãe quando um tio dela faleceu… eu disse a ela que a vida estava seguindo seu curso e o tempo não pode voltar.
Em algum momento, nossos pais começam a perder aqueles que vieram antes deles. Tios, avós, amigos de longa data. Pessoas que fizeram parte de uma história que muitas vezes só conhecemos pelos relatos de família. Depois chega a nossa vez… e um dia, inevitavelmente, serão nossos filhos que lidarão com a nossa ausência.
Não é um pensamento confortável, mas é um pensamento honesto. O luto não é uma exceção da vida, ele faz parte da própria estrutura da existência humana e talvez seja justamente por isso que histórias sobre perda sempre encontram espaço dentro da arte. Porque elas não falam apenas sobre o fim. Falam sobre o que continua.
A segunda morte
No filme “Viva – A Vida é uma Festa” existe uma ideia muito bonita. No universo da história, que se passa dentro da cultura mexicana, as pessoas não desaparecem completamente quando morrem, elas continuam existindo em outro lugar enquanto ainda houver alguém que se lembre delas… enquanto ainda houver alguém que se lembre delas…
Assim, podemos definir que existe algo chamado de segunda morte, que não acontece quando o coração para, mas quando ninguém mais se lembra de você, quando a última pessoa que guarda sua memória também desaparece.
É claro que se trata de uma metáfora. Mas é uma metáfora que ecoa porque toca em algo que reconhecemos. Algo que falei no texto da semana passada: o passado! A memória não é apenas um registro do passado, ela é uma forma de continuidade.
O vínculo não termina, ele se transforma
Durante muito tempo, o luto foi entendido como um processo de desligamento. Como se seguir em frente exigisse deixar para trás quem partiu, mas a experiência humana mostra outra coisa. O que acontece não é um rompimento, é uma transformação do vínculo.
A presença física desaparece, mas algo permanece em nós, nas histórias que continuam sendo contadas nas reuniões de família, nas expressões que repetimos sem perceber e nas decisões que tomamos lembrando de algo que alguém nos ensinou um dia.
De certa forma, as pessoas que fizeram parte da nossa vida continuam participando dela, ainda que não como já participaram um dia, porém de uma forma que ainda nos atravessa.
O que a gente carrega sem perceber
Já que luto envolve memória, existe algo curioso sobre ela: a memória não se manifesta apenas quando tentamos lembrar, ela aparece nos detalhes, no jeito de falar, no gosto por uma música, na forma de lidar com uma situação difícil, em um conselho que surge quase automaticamente na cabeça, como se tivesse sido sussurrado naquele momento. A memória se manifesta através de nós definindo quem nós somos. Às vezes não percebemos, mas estamos cheios de pessoas dentro de nós e talvez seja por isso que a ausência nunca é completa, porque aquilo que foi vivido em vínculo não desaparece com facilidade.
Se transforma.
Se reorganiza.
Se redistribui na forma como seguimos vivendo.
Checkpoint Final
Abordar o luto não é falar apenas sobre meios de aprender a lidar com a ausência, é também sobre reconhecer as formas discretas com que a presença continua existindo. Talvez não seja sobre esquecer, mas sobre lembrar de outro jeito.
Vou concluir com um pensamento que gosto de ter e de dizer a quem está passando pelo luto: “o luto é um processo de transformação. Ele transforma dor em saudade e saudade em lembrança. E lembranças nostálgicas, como eu falei no texto da semana passada, costumam ser um lugar onde nos sentimos seguros”.
E assim, a pergunta que fica não é apenas: “Quem partiu?”
Mas: “O que, dessa pessoa, continua vivendo em você?”

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!
Texto muito interessante, sou alguém que lida muito mal com a morte, vendo nesta perspectiva, talvez seja um bom começa para aceitar, mas uma vez obrigada pela ajuda querido sobrinho ❤️🙏
Tô sempre aqui, tia! Te amo!
Excelente texto!! Percebi que muitas pessoas vivem em mim, através da lembrança de tenho delas e isso foi muito especial. Obrigada por mostrar que a dor ou seja o luto, tem o caminho a seguir e se transformar!
Excelente texto!! Percebi que muitas pessoas vivem em mim,e através da lembrança de tenho delas e isso foi muito especial. Obrigada por mostrar que a dor ou seja o luto, tem o caminho a seguir e se transformar!
Oi, prima! Fiquei muito feliz com o seu feedback! Tento sempre trazer às pessoas alguma reflexão que as permita se identificar com o que escrevo! Que bom que consegui despertar essa centelha em você!