Mais um ano vai se encerrando
Semana passada não coloquei nenhum texto na coluna… falha minha que peço perdão pelo fato de estarmos numa época de comemorações, reflexões e planejamentos… mas mesmo assim, uma fase de muito trabalho.
Mais um ano vai se encerrando, mais um ciclo vai se fechando. Aqui não temos um checkpoint, temos uma linha de chegada, temos uma fase que termina para que outra se inicie. A linha de 2025 já está na nossa frente e é impossível não pensar no que ficou para trás ou no que se assoma. As vitórias, os fracassos, as pausas, os “respawns” emocionais, os chefões que enfrentamos e até aqueles que deixamos para o próximo ano dando a volta em torno deles… fiz muito isso quando tentei me aventurar jogando algum “souls like” e falhei miseravelmente.
Esse movimento de fechar ciclos sempre me lembra uma sensação muito específica da infância. A sensação de fechar um jogo nos anos 90. Aquela conquista que não vinha fácil, não vinha rápida, não vinha com DLC, patch de correção ou modos de acessibilidade. O jogo que você deveria “enfrentar” estava completo ali na sua frente, encarcerado dentro de um cartucho de poucos centímetros mas com muito desafio pela frente. Naquela época nós terminávamos o jogo porque insistíamos. Porque errávamos, aprendíamos e tentávamos de novo. Não consigo lembrar de nenhum jogo da infância que me perguntava se eu estava tendo muita dificuldade e sugeria uma redução no nível do desafio… era quase uma preparação para a vida.
Citando, ‘ipsi literis’, um dos melhores discursos da cultura pop: “O mundo não é só sol e arco-íris, é um lugar muito cruel e nojento e, não importa o quão durão você seja, ele vai te botar de joelhos e te manter lá pra sempre se você deixar. Você, eu, ninguém vai bater tão forte quanto a vida! Mas não é sobre o quão forte você consegue bater, é sobre o quão forte você consegue apanhar e continuar seguindo em frente, o quanto você consegue aguentar… e continuar seguindo em frente. É assim que se ganha!” Quem não conhece o discurso, assiste ao Rocky 6 (ou se você quer acelerar a recompensa, procura o vídeo no YouTube que tem lá o trecho completo).
A dificuldade como parte da jornada
Quem viveu essa época sabe o peso e a beleza de ver os créditos rolarem. Era quase um ritual. Tivemos Super Mario World (e as dezenas de teorias sobre o número de fases), Mega Man X (e as diferentes formas de derrotar os chefes que você tinha que descobrir), Super Metroid (com seu mapa gigantesco e vários pontos escondidos), Donkey Kong Country (quem nunca passou raiva na fase do carrinho da mina?), Kid Chameleon (e a ingrata descoberta de que você não nasceu preparado), Battletoads (o que é aquela fase da moto?), Sonic (Daniel, eu achei fácil, mas não poderia deixar este clássico de fora). Cada jogo com sua lógica própria e seus castigos. Alguns tinham passwords gigantescos com caracteres que nunca tínhamos visto que anotávamos num papel amassado e que tinha enorme probabilidade de desaparecer na próxima faxina. Outros só salvavam em pontos específicos. Alguns não salvavam nada, obrigando a recomeçar tudo quando o console desligava. E a vida era assim… nem sempre as coisas eram mais fáceis ou menos fáceis… elas eram o que elas eram e nós tínhamos que nos adaptar.
Mas mesmo assim nós insistíamos. Porque havia algo profundamente humano naquela mecânica de tentativa e erro. A sensação de ultrapassar uma fase difícil era proporcional à frustração que ela nos causava. Nada era perdido. Tudo era aprendizado. A recompensa da vitória superava a frustração da derrota.
Os ciclos que fechamos e os ciclos que protelamos
Na vida adulta o conceito de finalização ficou diferente. Hoje temos conteúdos infinitos, atualizações constantes, tarefas que nunca acabam, responsabilidades que não dão Game Over nem nos deixam pausar o jogo. E é justamente aí que o encerramento de um ciclo se torna tão importante. Ele nos permite refletir, calcular a rota, olhar para trás, para os lados e seguir em frente.
Encerrar um ciclo é admitir que chegamos ao final de uma fase. É reconhecer que aquela história teve um arco, um desafio, um aprendizado e um desfecho. Não significa resolver tudo, mas aceitar que algo foi vivido por completo. E que agora é hora de avançar para o próximo capítulo, mesmo que ainda não saibamos qual é o chefão da próxima fase. Pode ser que o chefão anterior até tenha sido mais difícil, mas não será o mesmo.
Quando fechar o jogo era tão prazeroso quanto jogar
Nos anos 90, terminar um jogo era uma celebração íntima. Algo que só acontecia porque o jogador atravessou todos os obstáculos. Essa sensação hoje rareia. Não porque somos menos capazes, mas porque vivemos em uma lógica de continuidade infinita. Sempre há mais episódios, mais notificações, mais demandas, mais conteúdo, mais pendências. Sempre tem um conteúdo novo que você ainda não consumiu, alguma novidade que você “está de fora”, a sensação do “fomo (fear of missing out)” atormentando-nos constantemente… quem sabe eu escreva sobre isso em breve.
Encerrar um ciclo no mundo atual é quase um ato de resistência. É como dizer ao cérebro que sim, aquilo termina aqui. Não precisa prolongar, revisar mentalmente, tentar otimizar ou recomeçar. Finalizar se torna tão terapêutico quanto teclar aquele Start que começava tudo. O Reset aqui não tem espaço. A vida real não permite resets muito amplos, o que não quer dizer que não possamos tentar novamente, mas que a nova tentativa não substitui a anterior. Ela vem carregada da experiência que você já teve, quase como um “rogue-like”.
Checkpoint final
Encerrar ciclos é uma forma de honrar a nossa própria trajetória. Assim como os jogos da nossa infância, cada fase da vida vem com seus desafios, suas vidas perdidas, seus acertos e suas recompensas. Como eu disse lá no começo do texto, a linha de chegada de 2025 está logo adiante… e não importa se este ano pareceu um longo RPG, um plataforma frenético ou um puzzle que não fez sentido nenhum. O importante é reconhecer que você chegou até aqui.
Em janeiro, que já está bem aí, começa outra fase. Talvez mais difícil, talvez igual, talvez mais leve… só o tempo nos dirá. Costumo dizer aos meus pacientes que existe um elemento nos tratamentos que nenhum dinheiro no mundo compra: o tempo!
Por ora, permita-se sentir o que a vida raramente nos dá: a sensação de conclusão. Porque, ao contrário dos jogos de hoje, a vida não nos oferece DLC para completar o que ficou para trás ou a oportunidade de baixar o nível de dificuldade. Ela oferece algo mais precioso: UM PRÓXIMO COMEÇO!

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!