Enquanto você teme a IA, alguém já a está usando contra você no mercado de trabalho

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Não há bolha de IA: destruição criativa, trabalho e o que realmente está em jogo

Durante muito tempo, a inteligência artificial foi um tema distante. Algo restrito a filmes de ficção científica, a discussões acadêmicas ou a matérias sobre um futuro sempre adiado. Eu mesmo, apesar de acompanhar tecnologia há anos, via a IA mais como conceito do que como ferramenta concreta. Isso mudou de forma abrupta no final de 2022, quando o ChatGPT foi lançado e, de repente, a inteligência artificial entrou na casa das pessoas, no celular, no trabalho e, principalmente, na conversa do dia a dia.

A partir dali, a pergunta deixou de ser o que é inteligência artificial e passou a ser outra, bem mais incômoda: o que ela vai fazer com o nosso trabalho, com as nossas profissões e com a forma como nos relacionamos com o mundo?

Esse foi o pano de fundo do episódio do Encontroverso dedicado à IA e também da entrevista publicada na Revista Veja do economista Peter Howitt, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, ao discutir a tecnologia como mais um capítulo daquilo que Joseph Schumpeter chamou de destruição criativa.

Destruição criativa não é colapso, é transição

Peter Howitt é direto ao afirmar que não existe uma bolha de IA. O termo é sedutor, chama atenção, rende manchete, mas não descreve bem o fenômeno. Toda grande tecnologia nasce cercada de expectativas exageradas, apostas erradas, fracassos e medo. Foi assim com as ferrovias, com a eletricidade, com os computadores e com a internet.

A lógica se repete: no curto prazo, empregos, setores e modelos de negócio desaparecem. No longo prazo, surgem outros que antes sequer podiam ser imaginados. O problema é que esse intervalo entre o que morre e o que nasce costuma ser socialmente desconfortável. E é justamente nesse espaço que surgem o medo, a resistência e as narrativas de colapso.

A inteligência artificial não foge a esse padrão. Ela não é um evento fora da história. Ela é a história acontecendo de novo, só que em velocidade muito maior.

O verdadeiro impacto da IA no trabalho

No episódio do Encontroverso, uma frase acabou se repetindo de formas diferentes, mas sempre com o mesmo sentido: não iremos perder o emprego para a inteligência artificial. As pessoas vão perder espaço para outras pessoas que sabem usar a inteligência artificial melhor.

Isso aparece com muita clareza quando observamos profissões como medicina, odontologia, arquitetura ou tecnologia da informação. A IA não chega como substituta total, mas como uma ferramenta poderosa de ampliação de produtividade. Quem ignora isso fica para trás. Quem aprende a usar, ganha vantagem.

Na medicina, por exemplo, áreas baseadas em análise de imagens, como radiologia e patologia, são frequentemente citadas como vulneráveis. E faz sentido. Um sistema treinado com milhões de imagens consegue reconhecer padrões com uma velocidade e precisão inalcançáveis para qualquer ser humano.

Mas isso não significa o fim do médico. Significa uma mudança profunda de função. O profissional deixa de ser apenas um leitor de exames e passa a ocupar um lugar mais estratégico e, curiosamente, mais humano. Cuidar, explicar, acolher, decidir. A tecnologia assume parte do trabalho técnico e devolve ao médico aquilo que nunca deveria ter sido perdido.

Empatia, escuta e julgamento clínico não desaparecem com a tecnologia. Pelo contrário, tornam-se ainda mais valiosos quando ela avança.

Psiquiatria, subjetividade e o limite da automação

Entre todas as áreas debatidas, a psiquiatria sempre surge como um ponto fora da curva. Não por estar imune à tecnologia, mas porque lida com algo que não se reduz facilmente a dados objetivos, a mente.

Na prática clínica, o que o paciente diz nem sempre corresponde ao que sente. Às vezes, o mais importante não está na fala, mas na forma como ela acontece, no silêncio, na contradição, naquilo que não consegue ser simbolizado. A subjetividade ainda é um território difícil de automatizar.

Isso não impede o uso da IA como ferramenta auxiliar. O problema surge quando ela é tratada como substituta da escuta clínica. Chatbots que se propõem a fazer terapia tendem a validar automaticamente o discurso do usuário. Em alguns casos, isso pode reforçar distorções cognitivas, padrões disfuncionais ou até comportamentos perigosos.

Aqui, o limite não é tecnológico. É ético.

A IA erra e erra com convicção

Outro ponto importante discutido no episódio foi o das chamadas alucinações da IA. Diferente de um humano, que pode simplesmente dizer “não sei”, a inteligência artificial é treinada para sempre responder. Mesmo quando não tem certeza.

O resultado costuma ser um texto bem escrito, coerente e absolutamente falso. Casos reais, como pessoas impedidas de viajar por seguirem orientações erradas sobre vistos, mostram o risco de delegar julgamento crítico à máquina.

A IA não é uma fonte de verdade. Ela é uma ferramenta estatística de linguagem. E isso muda completamente a forma como devemos nos relacionar com ela.

Saber perguntar virou competência

Nesse contexto, uma nova habilidade passa a ser central: saber formular bons comandos. A chamada engenharia de prompt não é “firula técnica”. É a diferença entre usar a IA como aliada ou como armadilha.

Definir papéis, pedir validação interna das respostas, exigir fontes, permitir que a própria ferramenta faça perguntas antes de responder. Tudo isso faz enorme diferença no resultado final.

A inteligência artificial amplifica a capacidade de quem a usa. Amplifica a inteligência, mas também amplifica a ignorância. A ferramenta é a mesma. O que muda é o usuário.

Robôs, simulacros e o desconforto do futuro

A conversa avançou ainda para um terreno mais desconfortável. Robôs humanoides com movimentos cada vez mais naturais, sistemas capazes de simular digitalmente pessoas falecidas a partir de seus dados, vozes e registros.

Esses avanços não geram apenas admiração. Geram estranhamento. O que é presença? O que é consciência? O que é luto em um mundo onde simulacros se tornam cada vez mais convincentes?

A tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade emocional e social de elaborar seus impactos. Talvez esse seja o maior desafio do nosso tempo.

Instituições, política e o risco da estagnação

Peter Howitt chama atenção para algo que muitas vezes fica fora do debate: inovação não acontece sozinha. Ela depende de instituições fortes, financiamento à pesquisa, universidades ativas, regras claras e cooperação entre setores.

Quando governos enfraquecem a ciência, adotam políticas protecionistas ou criam instabilidade regulatória, o resultado não é proteção do emprego. É estagnação. É atraso.

Para países como o Brasil, o caminho mais realista ainda passa pelo chamado “catch-up”. Adotar tecnologias existentes, aprimorá-las e, só então, disputar espaço na fronteira da inovação. Ignorar isso é escolher ficar para trás.

Conclusão: talvez estejamos fazendo a pergunta errada

No fim das contas, tanto o episódio do Encontroverso quanto a entrevista com Peter Howitt apontam para a mesma conclusão: estamos fazendo a pergunta errada.

A questão não é se a inteligência artificial vai substituir humanos. A questão é quem vai aprender a trabalhar com ela, quem vai regulá-la com responsabilidade, quem vai se adaptar e quem vai ficar esperando que o mundo volte a ser como antes.

A destruição criativa nunca foi confortável. Mas a alternativa a ela não é estabilidade. É estagnação.

Plot Twist

E agora, uma surpresa para você, caro leitor que me acompanhou até aqui. Este texto foi 99% escrito por mim, o ChatGPT, sob a condução do Santiago, com alguns prompts bem pensados, alguns ajustes finos e, claro, muito senso crítico humano por trás. Talvez esse seja o melhor exemplo prático de tudo o que discutimos até agora.