Eu cresci numa época em que os jogos não pediam licença para nos frustrar.
Eles simplesmente nos derrotavam.
Nos anos 90, jogar videogame era aceitar, desde o início, que eu iria perder muitas vezes. E perder feio. Não havia tutoriais longos, setas piscando ou modos “assistidos”. Havia tentativa, erro, e um silêncio quase pedagógico após o game over. Era ali que algo acontecia.
Eu precisava aprender.
Observar padrões.
Memorizar fases.
Estudar golpes.
Testar estratégias diferentes até que, finalmente, algo funcionasse.
Os jogos exigiam presença. Não bastava apertar botões; era preciso entender o sistema. Cada inimigo tinha um tempo, cada fase escondia uma lógica, cada erro custava caro. A frustração vinha, mas junto dela nascia a resiliência. Eu desligava o console irritada, mas voltava no dia seguinte melhor. Mais atenta. Mais estratégica.
Aprendi cedo que insistir sem pensar não resolvia.
Que repetir o mesmo erro só me levava ao mesmo fracasso.
Que vencer era consequência de adaptação.
Aqueles jogos me ensinaram, sem discursos ou manuais emocionais, que a recompensa vinha depois do esforço. Que não ganhar de primeira não era injustiça — era parte do processo. Que errar fazia parte do caminho, não um atalho para desistir.
Hoje, quando olho para muitos jogos atuais, vejo experiências mais suaves, mais guiadas, mais preocupadas em não frustrar. Entendo o cuidado, mas sinto falta do desafio cru. Daquele desconforto que nos obrigava a crescer. Da sensação de conquista que só existia porque o fracasso tinha sido real.
Os games dos anos 90 não me ensinaram apenas a jogar.
Eles me ensinaram a persistir.
A pensar antes de agir.
A lidar com a derrota sem quebrar.
E talvez, sem perceber, foi ali — diante de uma tela pixelada e de uma dificuldade implacável — que aprendi algumas das lições mais duras e mais valiosas da infância: nada que vale a pena vem fácil, e desistir nunca foi uma opção embutida no jogo.
Idalina Gurjão
