A história dos videogames no Brasil possui capítulos únicos no mundo e desde a fabricação oficial de consoles e cartuchos em solo nacional pela Playtronic até a era de ouro das bancas de jornal capitaneada pela clássica revista Nintendo World. Três décadas depois, essa trajetória ganha um registro histórico definitivo com o livro Nintendistas, obra financiada via financiamento coletivo que reúne dezenas de depoimentos. Conversamos com um dos autores da obra, o jornalista Pablo Miyazawa, que nos passou muitas ideias desse projeto e de sua história.

Em entrevista exclusiva ao Quebrando o Controle, o autor e ex-integrante da equipe da Nintendo World detalha as motivações por trás do projeto, analisa o amadurecimento da comunidade nintendista no país, discute os desafios do mercado editorial impresso e reflete sobre o papel dessa memória para as novas gerações de jornalistas e criadores de conteúdo. O material ficou muito bom e queremos compartilhar na íntegra com vocês esse depoimento dessa obra.
QoC: Você esteve à frente das maiores publicações da história do jornalismo de games no Brasil, marcando época na Nintendo World. O que o projeto Nintendistas traz de diferente do que já foi feito no passado e por que este é o momento ideal para consolidar essa iniciativa no mercado brasileiro?
Pablo: “O projeto Nintendistas é uma homenagem aos tempos em que a Nintendo World foi a publicação de games mais popular do Brasil, e também é uma homenagem aos mais de 30 anos da chegada oficial da Nintendo no Brasil por meio da Playtronic.
Então, a gente já pode dizer que os fãs dessa época hoje são adultos e ainda carregam dentro de si a paixão pela Nintendo, por seus jogos e suas propriedades. O fato de todos estarem adultos hoje, e ainda muito conectados à Nintendo torna esse momento muito importante e, talvez, único para a gente criar uma iniciativa que não apenas evoque esses bons tempos, mas também conte a história que nunca foi contada sobre como a Nintendo resolveu instalar suas operações no Brasil.
Foi um momento único na história dos videogames no mundo, porque o Brasil foi o primeiro país a produzir consoles e jogos da Nintendo fora do Japão. Há muitas circunstâncias por trás desses fatos que nunca foram devidamente cobertas pela imprensa da época.
Então, aproveitei a minha experiência com a Nintendo, trabalhando não só na Playtronic, mas também na revista , para reunir as pessoas que acho que foram importantes para essa trajetória. Entrevistei dezenas dessas pessoas e juntei tudo em uma narrativa no formato de história oral, que conta uma versão desses fatos que acho que vai ser muito interessante para os velhos fãs e também para quem se interessa por videogames de modo geral, em saber como é que as coisas aconteceram naquela época e por que a Nintendo ainda é a marca de videogame mais amada e cultuada no Brasil.
Existem bons motivos para isso, e quem ler o livro Nintendistas vai compreender melhor ouvindo as experiências das pessoas que estavam lá.”
QoC: A comunidade Nintendo no Brasil é diversa, vai desde quem viveu a era de ouro das revistas até a nova geração que conheceu o Switch. Como a linha editorial do Nintendistas vai dosar a preservação histórica e o apelo nostálgico com a cobertura rápida e analítica que o público jovem consome hoje?
Pablo: “Bom, eu entendo que o livro Nintendistas é muito carregado de conteúdo, no bom sentido. E isso foi proposital, porque, por mais que hoje em dia a cobertura de videogames seja muito mais rápida e em formatos digitais, eu acho que ainda existe interesse e espaço para um produto que se dedique mais à informação, que não passe apenas superficialmente pelos fatos.
Então, apesar de a nostalgia estar muito envolvida nessa investigação que a gente fez, também houve uma preocupação da nossa parte em contar a história de um jeito que os mais jovens também vão se interessar e vão compreender.
Por mais que a gente saiba que os novos apreciadores da Nintendo estejam acostumados a outros formatos de comunicação e que a revista, por exemplo, seja uma coisa que nem fez parte da vida dessas pessoas, a gente acredita que um livro que reúna essas histórias, essas informações que se perderam no tempo, pode ser um produto que vai interessar a pessoas mais acostumadas a consumir vídeos curtos em redes sociais.
E, com certeza, os fãs antigos também vão apreciar a narrativa do livro, mas eu não deixei de me preocupar com os possíveis novos leitores, que certamente vão descobrir no livro coisas que não são contadas nos sites ou nos vídeos de hoje em dia.
Enfim, é um produto feito, pensado para todos os públicos fãs da Nintendo, mas, com certeza, vai atingir com mais força aqueles que vivenciaram essa época pessoalmente e que hoje ainda apreciam a Nintendo de alguma forma. Acho que é isso.”
QoC: O jornalismo especializado em games passou por transformações profundas, migrando das bancas para a dependência de algoritmos e, mais recentemente, para o financiamento direto da comunidade. Qual o papel da campanha de financiamento coletivo não só para viabilizar o Nintendistas, mas para garantir independência editorial a longo prazo?
“Bom, eu não sei se o financiamento coletivo garante independência editorial a longo prazo. Fizemos o crowdfunding pensando em viabilizar o projeto Nintendistas, que é esse livro. E foi uma surpresa perceber a adesão do público, não apenas pessoas na faixa dos 35+, 40+, mas também muitos jovens que começaram a jogar Nintendo nas plataformas mais recentes, o que significa que a história da Nintendo fascina qualquer faixa etária, qualquer geração.
O crowdfunding tornou possível esse sonho de lançar um livro tão denso e extenso, são mais de 280 páginas, né? Algo que nunca foi feito provavelmente no mercado editorial brasileiro sobre a marca Nintendo.
E, talvez, sem o apoio desses seguidores, de todos os apoiadores que a gente conseguiu angariar em duas campanhas nos últimos dois anos, tornou possível a gente fazer um produto de luxo, com acabamento premium e com a participação de muitos colaboradores. Então não dá nem para dizer que é uma revista glorificada: é um livro de capa dura que vai ficar bonito nas estantes de todo mundo que é fã da Nintendo.
A gente nunca vai conseguir agradecer o suficiente a adesão dos fãs que se comprometeram com a nossa causa e que queriam ver uma obra como essa ver a luz do dia. Então, é possível que o crowdfunding se torne realmente uma ferramenta essencial para a gente conseguir viabilizar novos produtos editoriais no futuro, porque a gente sabe que o mercado hoje é diferente, os custos para se produzir um produto de papel são bem maiores do que eram 20 anos atrás.
Mas a gente percebeu que existe uma parcela considerável dos jogadores e fãs da Nintendo que está disposta a ajudar esse tipo de produto. Isso encoraja a gente a pensar a respeito de novos projetos e formatos no futuro, e certamente o crowdfunding vai ser levado em consideração para essas empreitadas. Não consigo garantir ainda o que a gente vai fazer, mas já estamos arquitetando aqui nossos próximos passos, que certamente vão se aproximar bastante do que o público espera hoje em dia.
A gente sabe que não tem uma grande fartura de produtos desse tipo, muito pelo contrário. Então, com a ajuda dos apoiadores, a gente vai conseguir arquitetar coisas muito legais aí para o futuro. Fiquem ligados.”
QoC: O termo ‘nintendista’ já foi usado tanto como elogio quanto como rótulo pejorativo. De que forma o projeto pretende ressignificar e valorizar essa identidade dentro da cultura brasileira, sem cair na bolha ou no fanatismo cego?
Pablo: “Realmente, nintendista é um termo que já foi quase um palavrão. O público de games consegue ser bastante tóxico e separar os fãs em pequenas bolhas. Então quem é fã de uma plataforma normalmente não gosta da outra, e com a Nintendo não poderia ser diferente. Mas a gente também percebeu que os fãs da Nintendo que hoje assumem o rótulo de nintendistas com orgulho são diferenciados. Porque, apesar de serem muito fanáticos e, ‘passarem pano’ para a Nintendo em muitas das suas atitudes ao longo dos anos, também é um público que sabe ser crítico, né? Que sabe demandar quando precisa. Que é bastante vocal nas redes sociais.
E percebeu-se que ser nintendista não precisa ser algo ruim, pelo contrário. No começo da trajetória desse livro, a gente não sabia muito bem como a gente trataria essa questão: ‘Ser nintendista é algo bom? As pessoas gostam de ser nintendistas?’. E a gente foi descobrindo que todo mundo que trabalhou com a Nintendo de alguma forma, todo mundo que acompanhou essa marca no Brasil, não tem problema em ser chamado de nintendista. Muito pelo contrário: virou motivo de orgulho, de bater no peito.
Não dá nem para associar com torcer para um time de futebol ou seguir uma religião, é algo mais ou menos no meio do caminho. O nintendista é alguém que sabe compreender a importância dessa marca, mas também sabe criticar. E acho que isso que encorajou a gente a dar o nome ao livro de Nintendistas.
Porque, no fim das contas, ser nintendista é algo que as pessoas gostam de assumir, vestir a camisa. E que, se a pessoa é uma apreciadora da Nintendo, se a pessoa teve contato com a Nintendo em sua vida e isso a transformou, ela acaba sendo uma nintendista também.
Então, espero que os leitores do Nintendistas percebam que a nossa tentativa de valorizar essa paixão tenha sido bem-sucedida, porque todos que produziram esse livro, todo mundo que foi ouvido para esse livro e que trabalhou nesse livro se considera nintendista de alguma maneira. Eu, principalmente.”
QoC: Muitos projetos focados em nichos específicos apostam na experiência tátil do impresso em formatos multimídia fechados. O que os apoiadores da campanha podem esperar em termos de entregáveis e formatos de conteúdo? Existe o desejo de resgatar o espírito das bancas de jornal em algum formato físico especial?
Pablo: “Então, a gente ainda tá planejando o que a gente vai fazer daqui para frente. Eu não quero anunciar nada antes de cada apoiador receber o livro em casa.
E esse processo tá acontecendo nesse exato momento. Foi realmente uma longa jornada de dois anos entre o início da campanha, a produção do livro e, finalmente, ele estar nas nossas mãos. Então, a gente quer saborear essa vitória, que foi muito custosa pra gente, para todos os envolvidos.
Mas, como eu falei anteriormente, é muito provável que a gente vá seguir fazendo, criando e pensando em produtos que possam agradar a esse público que apoiou o Nintendistas em forma de livro. A gente já falou que pretendemos fazer um documentário baseado no livro, mas também como algo complementar. Isso tá nos nossos projetos, tanto que a gente prometeu um teaser sobre esse possível documentário para aproveitar as muitas imagens de arquivo que a gente tem guardadas.
Existem planos assim de fazer mais produtos impressos aos moldes do Nintendistas. Com qual frequência, a gente ainda não sabe, depende muito da recepção das pessoas. Mas o que eu posso dizer é que a gente descobriu um filão aí. A gente descobriu que esse público é realmente muito dedicado, ele gosta de se engajar e apoiar esse tipo de causa, e estão dispostos a investir se perceberem que o produto vale a pena.
Então, a gente vai aguardar ansiosamente a recepção dos leitores pelo livro e esperar que isso os torne mais propensos a apoiar futuras empreitadas que a gente venha a criar. Mas eu ainda não posso falar o que a gente tem planejado aí no nosso pipeline.”
QoC: Analisando a trajetória da imprensa de games no Brasil, do fim dos anos 90 até 2026, qual você gostaria que fosse o principal legado do Nintendistas para a nova geração de produtores de conteúdo e jornalistas de games no país?
“Olha, foi muito legal, ao fazer o Nintendistas, perceber que a Nintendo World, a revista da qual eu fiz parte, que foi o meu primeiro trabalho nesse segmento, deixou uma marca tão importante nos corações das pessoas.
Eu sei de muita gente que pensou em ser jornalista, em trabalhar com games, porque era leitor da Nintendo World. E, certamente, se a revista não tivesse causado esse impacto, a gente não estaria fazendo o Nintendistas tanto tempo depois. O Nintendistas só existe porque a Nintendo World fez algo muito importante lá atrás, que marcou o suficiente para as pessoas quererem reviver de alguma forma aquela época.
Então, eu acho que, mais do que um legado do livro Nintendistas, é também importante a gente valorizar o legado que a Nintendo World deixou e que ainda é aproveitado até hoje, né?
Então, se o Nintendistas realmente se tornar um material importante para o futuro do ‘nintendismo’ no Brasil, muito desse mérito vai para a Nintendo World. Como eu falei, não existiria um sem o outro. Mas eu tô muito satisfeito com o resultado final do Nintendistas, eu espero que ele se torne uma referência para os novos produtores de conteúdo, para os novos fãs da Nintendo, eu vou ficar muito feliz.
Significa que a gente respeitou o legado original da Nintendo World e a gente conseguiu dar continuidade para uma coisa muito legal, muito bonita, que a gente começou quase 30 anos atrás.”
Entrevista realizada por áudio transcrito para este portal.
Agradecemos ao amigo Pablo Miyazawa por este depoimento sobre esse trabalho que com certeza ficará marcado como uma pesquisa que fará parte da história dos videogames no Brasil.
Imagens: Cartarse – Projeto Nintendistas (Divulgação).

Professor, Analista de Sistemas, Presidente da UCEG e pai do Icaro.
“Os jogos podem mudar o mundo”