Ideias em Jogo: A remoção de Horizon Chase e o que não falamos sobre Conservação Digital

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Hoje, 1º de junho, marca um dia de luto silencioso, porém profundo, para a preservação da memória digital e para a indústria brasileira de jogos. Se você tentar acessar as principais lojas virtuais de consoles e PC para adquirir Horizon Chase ou Horizon Chase Turbo, encontrará um vazio. Por determinação da Epic Games, os títulos estão sendo removidos das plataformas.

O que poderia ser lido apenas como mais um movimento contratual e corporativo de fim de ciclo de vida de um produto é, na verdade, o sintoma de uma problema muito mais complexo que assola a indústria global de desenvolvimento de jogos. Neste Ideias em Jogo vamos tentar conectar os pontos entre as recentes demissões em massa (layoffs), o desligamento de servidores de jogos clássicos, a preservação da nossa história de seu conteúdo digital e o papel do Brasil neste xadrez corporativo. Pegue seu café, ajuste a sua cadeira e vamos conversar sobre o que acontece quando a arte interativa esbarra no teto de vidro do capital financeiro.

Do Sonho da “Epic Games Brasil” ao Choque de Realidade

Na foto os fundadores da Aquiris, empresa de games com sede em Porto Alegre — Aquiris/Divulgação

Para entendermos a magnitude do que acontece hoje, precisamos voltar um pouco no tempo. Quando a Epic Games, gigante responsável pela Unreal Engine e por Fortnite, anunciou a compra do estúdio gaúcho Aquiris (criadores do próprio Horizon Chase e de Wonderbox), a comunidade celebrou, eu mesmo inclusive. A manchete da época cravava a fundação da “Epic Games Brasil” (conforme noticiado pelo Game Developer). Para muitos pesquisadores e profissionais da área, aquilo soava como a validação definitiva da qualidade técnica e artística do desenvolvedor brasileiro. Aquiris era a prova de que nosso ecossistema local havia amadurecido.

Contudo, a lua de mel corporativa durou pouco. A expansão desenfreada dos grandes conglomerados de tecnologia durante os anos de pandemia cobrou seu preço. Com a queda no engajamento de plataformas como Fortnite — fenômeno reportado pela Silicon Republic —, a Epic Games anunciou a demissão de mais de 1.000 funcionários, correspondendo a cerca de 16% de sua força de trabalho global.

O impacto no Brasil foi imediato e doloroso. De acordo com o portal The Gaming Era, ao menos 17 profissionais brasileiros altamente qualificados foram afetados. E aqui reside a nossa primeira reflexão acadêmica e ética: até que ponto a integração de estúdios locais em conglomerados globais fortalece a indústria nacional, e em que ponto ela apenas nos transforma em mão de obra descartável para ajustes de planilhas no hemisfério norte?

De fato as demissões e o que notamos no movimento destas empresas não nos leva a um lugar nada confortável.

O Fator Humano e a Narrativa do “Mártir”

Ao analisarmos a indústria de jogos sob a lente das Ciências Humanas e Sociais, é impossível ignorar a forma como o trabalho é gerido e justificado. Em meio ao caos das demissões, a postura do CEO da Epic Games, Tim Sweeney, chamou a atenção da crítica especializada. Segundo a Cartoon Brew, Sweeney adotou um tom quase de “mártir”, justificando os cortes como uma “dor necessária para a sustentabilidade da empresa no longo prazo“, afirmando que a empresa gastava mais do que arrecadava. (Fala sério …)

Tim Sweeney, diretor executivo da Epic Games, em Seul, Coreia do Sul, em novembro de 2021. Fotografia: Seong Joon Cho/Bloomberg via Getty Images

No entanto, a frieza dos números esconde tragédias individuais inaceitáveis. Um dos casos mais revoltantes, documentado pela IGN, revelou que entre os demitidos do ecossistema de Fortnite havia um funcionário lutando contra um câncer terminal, que, ao perder o emprego, também perderia seu seguro de saúde. Sweeney e a Epic precisaram responder publicamente a esse desastre de relações públicas, mas o dano estrutural e discursivo já estava feito.

A tecnologia que nos fascina — os avanços em renderização, as simulações baseadas em IA, o Ray Tracing em tempo real que a Unreal Engine 5 nos proporciona — é construída por pessoas. Quando a gestão trata esses talentos humanos como meros nós em um grafo de custos que pode ser podado a qualquer momento, toda a cadeia de inovação sofre. Não há engine poderosa o suficiente que renderize empatia.

A questão da remoção dos jogos: Preservação Histórica e Retrocomputing em Risco

Isso nos leva diretamente ao sumiço de Horizon Chase e aos fechamentos de servidores orquestrados pela Epic. Como apontaram a Push Square e o IG News, o “sublime jogo de corrida” sai das lojas não por falta de interesse do público, mas pelo reajuste de escopo pós-layoffs da Epic, que decidiu não renovar licenciamentos, focar seus esforços em outras frentes e fechar a torneira de projetos que não são “mega-hits” como Fortnite.

Mas a tragédia da preservação não para por aí. Reportagens da Engadget e da Club386 destacam que a Epic também desligou os serviços online de 17 jogos clássicos, incluindo lendas como Unreal Tournament e títulos da franquia Rock Band. E é aqui que a comunidade de retrocomputing e os pesquisadores de preservação digital acendem o sinal vermelho.

Do ponto de vista da arquitetura de software, a mudança de paradigma de “jogos como produto” para “jogos como serviço” (GaaS) atrelou irrevogavelmente a existência da obra de arte ao ciclo de vida de um servidor na nuvem. Se antigamente podíamos guardar um cartucho de Super Nintendo ou um CD-ROM, preservando a mídia para rodá-la em emuladores e analisá-la décadas depois (como fazemos rotineiramente em disciplinas de história do design de jogos), hoje, o desligamento de um servidor transforma o jogo em um artefato morto. E isso é muito preocupante.

Horizon Chase é uma obra fundamental. Ele utilizou pipelines modernos de renderização 3D (usando a engine Unity, antes da aquisição) para emular esteticamente as limitações técnicas e o feel de clássicos rasterizados de 16 bits, como Top Gear. Ele é a ponte perfeita entre o retro e o contemporâneo, um verdadeiro estudo de caso em game design. O fato de que seu acesso primário será cortado devido a reestruturações corporativas evidencia a urgência de discutirmos políticas de preservação do patrimônio digital. Se não criarmos mecanismos de archiving independentes e não exigirmos que as empresas ofereçam versões offline de jogos em fim de vida, estamos condenando nossa história cultural à lixeira virtual.

A Transdisciplinaridade e o Papel do Ecossistema Brasileiro

Como professores, estudantes e desenvolvedores, o que podemos extrair dessa sequência de eventos? Em primeiro lugar, precisamos olhar para a nossa própria casa.

O Brasil tem avançado a passos largos no campo institucional. A aprovação do Marco Legal dos Games é um exemplo de política pública que busca trazer segurança jurídica e fomento para o estúdio nacional. No entanto, o caso Aquiris/Epic nos ensina que o capital estrangeiro, embora bem-vindo, não pode ser a nossa única via de sobrevivência.

É em espaços da academia e eventos nacionais como o SBGames (Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital), Brasil Game Show, Gamescom Latam e também nas salas de aula das nossas universidades e cursos de formação que precisamos formular estratégias de resiliência. A transdisciplinaridade é a chave. Precisamos que os envolvidos na Indústria brasileira de jogos entendam de modelos de negócios sustentáveis; que o game designer compreenda o direito autoral e o Marco Legal; e que os artistas tenham noções sólidas de direitos trabalhistas na era digital.

A educação tecnológica no Brasil não deve apenas formar operadores de engines estrangeiras, mas pensadores críticos capazes de criar propriedades intelectuais (IPs) robustas e de mantê-las sob controle local, garantindo que os lucros e as decisões sobre a preservação dessas obras fiquem nas mãos de seus criadores. Precisamos fomentar ecossistemas, não apenas exportar mão de obra barata camuflada de “integração global”.

Conclusão: De Quem é o Controle, Afinal?

Imagem do game Horizon Chase – Será mesmo o fim?

Hoje, Horizon Chase se despede das vitrines digitais, levando consigo um pedaço da história de sucesso de um estúdio que provou que o Brasil sabe fazer jogos de classe mundial. Mais do que chorar sobre o código derramado, que este 1º de junho sirva como um ponto de inflexão para a nossa comunidade.

A infraestrutura tecnológica — seja a inteligência artificial, as engines fotorrealistas ou as lojas digitais — concentra um poder imenso. Quando corporações gigantes tropeçam nas próprias pernas, são os desenvolvedores locais, as pessoas com problemas de saúde e as obras de arte que pagam a conta.

Fica aqui a minha provocação para você, leitor: Até quando continuaremos construindo nossos castelos digitais em terrenos alugados?
Como podemos agir, hoje, como consumidores e criadores, para garantir que os jogos que amamos não sumam com o apertar de um botão ao ser desligado um serviço?

Aguardo os comentários é de vocês. Vamos debater, pesquisar e, acima de tudo, continuar quebrando o controle.

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Referências

Demissão em massa na Epic Games afetou ao menos 17 profissionais brasileiros (The Gaming Era) – https://gamingera.biz/demissao-em-massa-epic-games-17-brasileiros/

Epic Games Lays Off 1,000+, CEO Sweeney Strikes Martyr Tone (Cartoon Brew) – https://www.cartoonbrew.com/artist-rights/epic-games-layoffs-tim-sweeney-259627.html

Epic Games Boss Tim Sweeney Responds After Fortnite Layoffs Revealed to Include Employee With Terminal Cancer Who Will Lose Life Insurance (IGN) – https://www.ign.com/articles/epic-games-boss-tim-sweeney-responds-after-fortnite-layoffs-revealed-to-include-employee-with-terminal-cancer-who-will-lose-life-insurance

After Laying Off Terminally Ill Employee, CEO Tim Sweeney Says Epic Games Is In Contact About Life Insurance Issue – Game Informer – https://gameinformer.com/2026/03/30/after-laying-off-terminally-ill-employee-ceo-tim-sweeney-says-epic-games-is-in-contact

(UPD) Horizon Chase and Horizon Chase Turbo will disappear on June 1 (IG News) – https://news.instant-gaming.com/en/articles/18691-upd-horizon-chase-and-horizon-chase-turbo-will-disappear-on-june-1

Epic Games shutting down some services for 17 popular games (Club386 / Engadget) – https://www.club386.com/epic-games-shutting-down-some-services-for-17-popular-games/
https://www.engadget.com/epic-games-rock-band-unreal-tournament-servers-181142548.html

Sublime PS4 Racer Will Be Delisted Due to Epic Layoffs Debacle (Push Square) – https://www.pushsquare.com/news/2026/03/sublime-ps4-racer-will-be-delisted-due-to-epic-layoffs-debacle

Epic buys Wonderbox dev Aquiris to establish Epic Games Brasil (Game Developer) – https://www.gamedeveloper.com/business/epic-buys-wonderbox-dev-aquiris-to-establish-epic-games-brasil

Epic Games to lay off 1,000 employees as Fortnite engagement drops (Silicon Republic) – https://www.siliconrepublic.com/business/epic-games-layoff-1000-employees-fortnite-engagement-drops

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