São Paulo recebeu, no último sábado, dia 19 de julho, o MSX Summit, celebração de entusiastas ‘micreiros’ que cresceram programando nos computadores MSX, em um evento organizado a partir de uma bem elaborada parceria entre a revista Clube MSX e o MSXSP, que trabalhou para resgatar o saudoso histórico desse modelo computacional, que alcançou vendagem expressiva no país por meio de dispositivos como o HotBit da Epcom/Sharp, e o Expert, da Gradiente.
A primeira edição do evento já mostrou a que veio, com uma extensa programação, que foi realizada em comemoração aos 40 anos do sistema no Brasil, e contou com a presença de figuras ilustres da história da computação no país e também de um respeitável convidado internacional.
Durante o evento, Stefano Arnhold, ex-diretor de planejamento estratégico da Sharp do Brasil, se apresentava ao lado dos amigos Rodolfo Fücher e Mauro Muratório, ambos igualmente ex-profissonais da Sharp, e contou ao público uma curiosidade, afirmando que a empresa quase produziu os mini-jogos Game & Watch da Nintendo.
Stefano afirmou que trabalhava com um tio na importação e comercialização de câmeras fotográficas, em um período no qual o processo era ainda mais oneroso, demorado e burocrático, fazendo com que os lucros fossem minguados, em razão da altíssima inflação daquela época.
Como alternativa, decidiu viajar ao Japão para conhecer outras possibilidades de negócios e acabou sendo apresentado, por um contato da Minolta à Nintendo, que à época ainda não produzia consoles de games, mas já comercializava os Game & Watch.
“Os caras da Nintendo me receberam como se eu fosse um cara legal, o que foi bem legal”, iniciou a história, arrancando risos da plateia do summit. “E aí, vindo do Brasil, eu falei: ‘eu quero produzir o Game & Watch de vocês no Brasil, no polo industrial de Manaus'”.
Segundo a política de restrição de importações da época, conhecida como Reserva de Mercado, Stefano comentou que não podia comprar os aparelhos, mas era possível adquirir os componentes separados para montar no Brasil.
“Duas semanas depois, ele me mandou um telex (nossa, como nós somos velhos!), [dizendo] ‘encontrei uma trading que vai desmontar os nossos produtos […] e aí a gente pode fazer negócio'”.
Após apresentar seu projeto ao tio, que achou o plano “completamente maluco”, Stefano detalhou que era necessário abrir uma carta de crédito, momento em que o chefe barrou a proposta: “Nós não vamos fazer negócio em essa empresa”, teria afirmado ao jovem.
“Eu tenho 50 anos de crédito no Ministério da Indústria e Comércio Internacional do Japão, tenho o melhor score de crédito que você pode ter, uma empresa que pede uma carta de crédito não é boa gente”, continuou o importador.
Stefano comenta que logo após o ocorrido deixou a empresa e integrou a Sharp do Brasil, onde fez uma impressionante apresentação de produto para os diretores, com o objetivo de levar os mini-games da Nintendo para a empresa.
“Esse seu negócio de mini-games gera, vamos chutar, um milhão de reais por ano e nós aqui na Sharp não fazemos nada abaixo de dez milhões”, respondeu Paulo Karatangi, então vice-presidente de negócios da Sharp no Brasil.
“Por quê eu estou contando essa historinha?”, perguntou o palestrante de foma enigmática à plateia. “Porque o primeiro produto que eu fiz na Tectoy foi o mini-game”, finalizou Stefano, arrancando risos dos presentes. “E vendeu quaquilhões!”, arrematou.
O São Paulo MSX Summit 2025 aconteceu no último dia 19 de julho e é considerado um evento imperdível para fãs e entusiastas do MSX. Este ano, o ciclo de palestras contou com a presença ilustríssima do Dr. Kazuhiko Nishi, criador do padrão MSX, e palestrantes de peso, como Moris Arditti, da Gradiente, Ademir Carchano, da ACVS e criador do game Laser Disc, Rodolfo Fücher e Mauro Muratório, ex-Sharp do Brasil, e Stefano Arnhold, que narrou esta história.
Imagem: Mauro Muratório, Rodolfo Fücher e Stefano Arnhold. Registro fotográfico de Kao Tokio.

Idealizador do projeto Indie Brasilis, ex-editor e atual colaborador do Quebrando o Controle, o jornalista se diz um Geek assumido e fanático por RPG e Dungeons & Dragons. O profissional atua desde 2007 no jornalismo de games, com passagens pelos veículos Portal GeeK, Game Cultura, GameStorming, Rádio Geek e Drops de Jogos, entre outros.