Por Um Punhado De Bits: Zeenix, Retrato Da Indústria BR

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Nos últimos dias a internet está sendo bombardeada com críticas contundentes relacionadas a, mais uma, lambança de uma empresa brasileira que atua no mercado de games, a TecToy. Se focássemos apenas na empresa, no seu CEO politicamente incorreto ou mesmo na qualidade do produto, daria até pra relevar. Mas não. Tem os usuários fandom e, neste caso, vale qualificar como “talvez futuros usuários”, se é que me entendem.

Desde a pré-história digital ouço o mantra “temos que defender a indústria nacional” e isso valeu para nos brindar com uma reserva de mercado, lá no começo dos anos 80, que só não causou mais prejuízos porque foi literalmente abandonada em 1990 (R.I.P.).

É louvável, sob vários aspectos, defender o que é nosso. Os agricultores da França estão fazendo isso e olha só a confusão que tem gerado, mundo afora. Como sempre e em todos os casos, quem paga o pato são os consumidores finais e neste caso em especial nós, os desenvolvedores.

Se você, que está acompanhando a mais recente presepada da TecToy e ficou assustado ao conhecer os detalhes do imbróglio, saiba que não é a primeira vez dela e nem mesmo a única, por estas bandas, a meter os pés pelas mãos.

No comecinho dos anos 80 e com a informática pessoal já iniciando o trajeto para uma segunda geração de equipamentos, a CCE resolveu lançar um “poderoso” microcomputador que prometia mundos e fundos, o MC1000. Além dele ter um hardware alienígena, mesclado com sabe-se lá quais modelos estrangeiros, o marketing até tentou vendê-lo para “uso profissional”, já que em teoria, talvez, quem sabe, ele pudesse rodar CP/M o SO de uso profissional. Deu tudo errado, assim como o atual Zeenix, que uma hora é console de games e outra hora é PC portátil.

Prometeram inclusive que teriam uma linha de apoio aos desenvolvedores de games e alguns até receberam gratuitamente uma máquina para criar. Seria o casamento perfeito: a indústria protegida incentivando e ajudando o desenvolvimento de tecnologia voltada aos jogos. Mas não passou disso. E nem vou falar do TK2000, que custava a metade de um Apple II, mas não passava disso mesmo: um Apple pela metade e cujo fabricante sequer tinha uma linha de acesso para desenvolvedores.

E veio a era MSX, cujo projeto mundial do equipamento se baseava no conceito de compatibilidade: todos os fabricantes licenciados fariam máquinas equivalentes entre si. Sabe qual é o país que, tendo dois fabricantes de peso, não conseguiu fazer os computadores cem por cento compatíveis entre eles e nem mesmo com o resto do padrão? Preciso dizer qual?

Em meio a promessas de abrir um canal entre a rede de venda dos micros e os estúdios de desenvolvimento tupiniquins, o que a gente viu de fato foi o mais tenebroso e deletério período de pirataria de games, jamais imaginado. Nunca antes neste país…

Eu estava lá, Gandalf! Muitos anos atrás e não apenas olhando de longe. Estava na fileira da frente. Sabe o que mais lembro desse período? O entusiasmo dos desenvolvedores, (incluindo esse que vos escreve) em achar que “agora vai, agora decolamos”. Puf! Puf!

Quando olho para a atual quizumba do Zeenix, regada à promessas de apoio ao dev indie br, vejo apenas uma confusão identitária azulada e que traz à reboque um painel gigante escrito em neon: “só queremos vender umas bugigangas chinesas”, sob a proteção do imposto das blusinhas, que tão convenientemente o sinistro Taxxad nos impôs. Mas e o consumidor? Ele que se lasque. E o desenvolvedor? Ele que se lasque também.

Senão vejamos: se o equipamento funciona à base do Windows, então todos os jogos que rodam no Windows já rodam nele. Uns com desempenho melhor outros nem tanto. Então, à rigor, não tem sentido algum dizer que vai ter um setor de apoio e fomento ao desenvolvimento br. Pra que isso, se todo mundo já está fazendo jogos que rodam em Windows? De fato, esse aspecto das “promessas” iniciais já nem recebe mais atenção.

E os “futuros” usuários? Sobrou apenas um grupo pequeno de fãs que insiste em defender a ideia de que tudo se arrumará com o tempo e que experiências passadas não moldam o futuro, ainda que venham por empresas reincidentes no atraso (pra não dizer outra coisa).

Assim como o pessoal que hoje critica a escala 6×1, sob o argumento de que “se não consegue pagar pela escala 4×3, então feche a empresa”, está na hora de adotarmos a linha “se não consegue produzir um equipamento minimamente viável, não se meta a fazê-lo”.

Vale sempre o velho ditado, que eu ouvia lá na minha infância e nem entendia direito o seu significado: quem não pode com mandinga, não carrega patuá.

A nossa indústria é isso aí, retratada em 8k de resolução: não produz (e nem se importa em produzir) tecnologia na área dos games, não promove um esforço na direção da evolução dos próprios games e as vezes se esmera em fazer besteira. Isso vale para o hardware, para o software, para a academia e para o jornalismo especializado.

Então, se quiser criticar, elogiar, xingar, falar palavras de incentivo, mandar pix pra ajudar na aposentadoria, etc, o canal mais eficiente é o velho e surrado e-mail: renato@tilt.net. Sinta-se livre pra descer o sarrafo porque nesta altura do campeonato, meu amigo, eu já sofri todas as críticas positivas e negativas que um gamedev pode sofrer.

Imagem: equipe Quebrando o Controle