Se você conhece o que essas duas palavras (Spectrum e Next) juntas significam, já fica avisado que não tem muita coisa nova aqui nesta matéria. Mas se não sabe, nunca ouviu falar ou tem uma vaga ideia, então prepare-se para uma história do arco da velha (como se dizia antigamente) e que mostra, no final, como um país pode menosprezar e dificultar a vida do povo empreendedor.
Lá pelos idos de 2010 dois brasileiros, Victor Trucco e Fabio Belavenuto se juntaram para fazer uma espécie de versão moderna do TK95 (computador clone do ZX Spectrum dos anos 80). Com a ajuda de outro brasileiro, Henrique Olifiers, tiveram a ideia de produzir esse “novo” computador lá na Inglaterra, a terra originária dos micros da Sinclair.
A internet está cheia de páginas contando esse feito, desde o nascimento do projeto até o encerramento da segunda campanha no Kickstarter (as entregas desse lote estão terminando neste começo de 2024) e é sobre isso que versa este texto. No final da matéria tem alguns links para quem quiser se informar mais sobre o projeto. Vale a pena a leitura deles porque o assunto é muito interessante e enriquecedor.
Por volta de 2017 ocorreu a primeira campanha para a realização do Spectrum Next e, das £ 250.000 pretendidas, foram arrecadadas £ 723.390 (algo em torno de R$ 4,5 milhões, na conversão atual), o que por si só já dá uma ideia de quão grandiosa era a proposta. Sem contar que estamos falando de um computador de 8 bits, cujo modelo original e que inspirou o projeto terminou seu ciclo comercial ainda nos anos 80.
Depois desses resultados e com a entrega dos micros aos apoiadores, veio a segunda campanha por volta de 2020. As mesmas £ 250.000 foram pretendidas e a arrecadação bateu £1.847.106, ou seja, 7.3 vezes mais do que o valor da meta. A promessa de entrega para esses apoiadores era agosto de 2021.
O ZX Spectrum, clonado pela brasileira Microdigital nos anos 80, em duas versões TK 90x e TK 95, não foi um microcomputador de grande relevância no Brasil. Em parte porque “demorou” muito para ser lançado por aqui e porque acabou sendo ofuscado por um outro microcomputador, esse sim, de grande importância na segunda metade dos anos 80, o MSX.
Mas o “micrinho”, como eram chamados carinhosamente os micros da Sinclair, tinha fãs fervorosos mundo afora e mesmo sendo em menor escala no Brasil, eles se fizeram presentes (dai esse resultado do projeto Spectrum Next).
Os clones brasileiros, tanto o 90x quanto o 95, tinham uma deficiência crônica em relação a todos os outros computadores pessoais da época como, por exemplo, a falta de um sistema rápido e eficiente de armazenamento de dados (principalmente para os programas). Dá para dizer que o Spec “morreu” no Brasil por falta de disquete.
Imagine, uns 35 anos depois, ter essa deficiência resolvida e mais uns adicionais importantes, tais como maior velocidade de processamento, armazenamento moderno, conexão a monitores atuais, etc.
Para um fã é como colocar mel no sorvete.
Mas moramos no Brasil, então…
O preço de um micro desses, na casa das £ 320, é salgado (por volta de uns dois mil reais). Mas fã é fã e ponto final. Fã não se importa de esperar quase 3 anos pelo seu micro, por conta de atrasos causados pela pandemia. Fã não liga se vai ter que pagar um imposto alto para ter acesso ao seu produto dos sonhos.
Então um belo dia a transportadora bate na sua porta e diz o seguinte: sabe aquele valor que você pagou pelo seu micro e mais o frete? Então, some a ele 60% de imposto de importação. Depois, some em cima desse resultado mais 17% de icms. Entendeu? Imposto cobrado sobre imposto. Já é um absurdo cobrar imposto sobre frete, mas sobre outro imposto é simplesmente insano. Mas é isso que acontece hoje.
Como exemplo, um produto que foi orçado para efeito de fiscalização alfandegária em R$ 2.464,59 deve ao fisco R$ 2.402,39. Um pra você, um pro governo gastar no que achar mais adequado.
Mas e a multidão de fãs brasileiros, não vai fazer nada? Não vai pelo menos reclamar, chutar o pau da barraca, se indignar? A resposta é NÃO. Sabe por que? Quase não tem brasileiros apoiando um projeto desses, realizado por 3 brasileiros.
Basta ir na página da campanha e verificar o mapa de apoiadores espalhados pelo mundo afora, no qual o Brasil sequer aparece. O último relevante da lista, o Canada, tem 87 backers, ou seja, o Brasil tem bem menos que isso.
Enfim, olhando por cima da para perceber que o preço alto (somado aos impostos) foi o principal inibidor deste projeto por aqui. Desde sempre vivemos tempos de aperto de orçamento, então, um micro de 8 bits em pleno 2024 não deve mesmo estar no topo dos nossos desejos plausíveis. Pra piorar, o governo desde sempre joga contra.
Abaixo deixo alguns links para se informar mais sobre o Spectrum Next.
E uma sensacional entrevista com os criadores, no site OldPlayers.
Imagem: Avito
Game Designer formado em Desenho Industrial e Comunicação Visual, em 1981 pela PUC/RJ. Foi diretor técnico e editor da revista Micro Sistemas de 1983 até 1995. Produtor do site TILT online desde 1996. Autor de vários jogos para computador, tais como Amazônia, Serra Pelada, Aeroporto 83, Angra-I, Xingu, Resgate na Serra do Roncador, Pedra Negra, e muitos outros. Criador das ferramentas de produção e programação de jogos: Sistema Editor de Adventures, Zeus, Micro Aventuras e Projeto Gênesis.