Stranger Things e o fim da infância que não avisa quando chega

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Aviso de spoilers
Este texto contém spoilers de Stranger Things. Se você ainda não assistiu ao final da série, talvez seja melhor voltar aqui depois. Mas, se não tiver problemas, fica até o fim, porque este texto é bem tocante para mim.

Crescer não é um evento, é um processo
Stranger Things começou como uma história sobre bicicletas, walkie-talkies e amizade incondicional. Foi um resgate da infância para a minha geração, que cresceu com o analógico, com as brincadeiras de rua, com as mães esperando a gente chegar em casa porque não tinha como ligar para o celular (ele simplesmente não existia nas nossas vidas).

Junto a essa nostalgia, a série trouxe o terror que víamos nas TVs, no “Cine Trash”, no “Contos da Cripta”, nas tardes do “Cinema em Casa” (sim, nós tínhamos filmes de terror passando à tarde na TV aberta). Uma carta de amor explícita aos fãs de Stephen King, John Carpenter, Wes Craven e outros ícones que moldaram nosso caráter. Mas, episódio após episódio, foi ficando claro que a série nunca foi apenas sobre monstros de outra dimensão. Ela falava sobre crescer, sobre pertencer, sobre se incluir, sobre se adaptar. E crescer quase nunca é bonito, organizado ou justo.

O que mais me chama atenção é que ninguém em Hawkins cresce porque quer. Eles crescem porque a vida empurra ou, como diz o Leo Lopes lá no Radiofobia, a vida acontece. Perdem-se referências, perdem-se pessoas, perdem-se ilusões. A infância não acaba com um corte limpo. Ela vai se desfazendo aos poucos, enquanto a gente ainda tenta segurar o guidão da bicicleta.

Um dia a gente sai na rua para brincar com os amigos como faz todos os dias e volta para casa no mesmo horário, para cumprir a mesma rotina de sempre. Mas aquele foi o último dia em que fizemos aquilo, só que ninguém avisou que seria o último. Não havia data marcada para terminar.

O Mundo Invertido como metáfora da vida adulta
O Mundo Invertido nunca foi só um lugar de terror. Ele é escuro, hostil, imprevisível e cheio de coisas que você não entende direito, mas precisa enfrentar mesmo assim. É difícil não olhar para ele como uma metáfora da vida adulta entrando sem pedir licença.

O Mundo Invertido ficou congelado no tempo, como as memórias que nós guardamos do passado. Se você lembrar, a Nancy explica que aquele quarto dela que ela visita no Mundo Invertido não é o atual, mas o de alguns anos atrás. Um espaço que existia apenas na memória dela.

Quando crianças, os perigos são externos. Um monstro, um vilão, algo claramente identificável. Com o tempo, os inimigos mudam de forma. Viram perdas, frustrações, traumas, responsabilidades e culpas. Vecna não ataca o corpo. Ele ataca aquilo que a pessoa tenta esconder de si mesma: seus medos, seus segredos, sua mente. E isso é profundamente adulto.

Amizades que mudam, mesmo quando permanecem
Uma das dores mais silenciosas da série é perceber que aquelas amizades nunca mais serão iguais. Não porque deixam de existir, mas porque mudam. As conversas mudam. As prioridades mudam. As ausências começam a aparecer. Amizades são assim, elas se transformam.

Quem já cresceu com um grupo muito unido sabe exatamente do que estou falando. A vida vai separando sem precisar brigar. Um muda de cidade. Outro vai para uma área de trabalho diferente da sua. Outro muda só de bairro e isso já o afasta. Outro muda por dentro. Outro fica parado enquanto os demais seguem. Stranger Things não romantiza isso. Ela mostra que amar alguém não impede que caminhos se afastem.

Encerrar ciclos dói porque eles foram reais
Cada temporada carrega um encerramento que nunca é completo. Algo sempre fica em aberto. Um trauma não resolvido. Um personagem que não volta igual. Uma perda que não tem substituto. E isso talvez seja o aspecto mais honesto da série.

Na vida, ciclos raramente se fecham com trilha sonora épica e sensação de missão cumprida. Às vezes, eles apenas terminam. E o que dói não é o fim em si, mas o fato de que aquilo foi verdadeiro enquanto existiu.

Vi muita gente reclamando de coisas que não foram mostradas ou explicadas, mas olha para a sua vida e lembra quantas conversas ficaram em aberto, quantos livros ficaram por terminar, quantos filmes foram vistos só até a metade, quantas pessoas que deveriam nos dar alguma resposta simplesmente sumiram e, ainda assim, a vida seguiu. Stranger Things é essa metáfora da vida. Muita coisa fica em aberto porque a nossa vida está acontecendo o tempo todo, enquanto a das pessoas ao nosso redor também está acontecendo para elas.

O tempo não pede permissão
Talvez o maior choque de Stranger Things seja perceber que o tempo passa também para quem está assistindo. Aqueles personagens cresceram, mas nós também. A série vira um espelho desconfortável. Você começa assistindo por nostalgia e termina refletindo sobre o quanto mudou desde a primeira temporada.

Não é só a série que está acabando. É uma fase da nossa própria vida que se encerra junto com ela. Nunca mais iremos ver e ouvir aquela abertura. Eu fiz questão de não pular a abertura no último capítulo porque queria poder curtir aquilo pela última vez.

Checkpoint final
Stranger Things fala de monstros, mas o verdadeiro tema sempre foi o tempo. O tempo que passa, que leva, que transforma e que não volta para buscar o que ficou para trás. Crescer é aprender que alguns portais se fecham para sempre. E que seguir em frente não significa esquecer, mas carregar.

Talvez seja por isso que a série doa tanto no fim. Porque ela nos lembra de algo simples e brutal. A infância não acaba quando queremos. Ela acaba quando a vida decide. E, quando percebemos, já estamos do outro lado, tentando entender quem nos tornamos.

Para terminar, queria contar um aspecto muito pessoal do último episódio. Quem escuta o Encontroverso já nos ouviu falar sobre as partidas de RPG que jogávamos. Conheci grande parte dos meus amigos nesse contexto. Não era D&D, mas jogávamos Vampiro: A Máscara. A nossa amizade se mantém até hoje. Ainda temos vontade de jogar alguma campanha, mas o tempo não nos permite mais.

Eu não consegui assistir ao último episódio no dia em que ele foi lançado, por causa dos compromissos de final de ano. Assisti no dia 4 de janeiro, no domingo. No dia anterior, no sábado, minha filha de 14 anos, minha Lílian, sentou comigo porque está escrevendo uma história de RPG que ela vai mestrar. Fiquei dando ideias, conversamos e planejamos coisas que ela poderia fazer.

No dia seguinte, assisti ao episódio e, na cena final, quando o Mike termina uma campanha com seus amigos e sobe as escadas e a irmã mais nova desce para o porão e ocupa, com um grupo de amigos, a mesa que eles acabaram de desocupar para iniciar sua campanha, eu me vi exatamente no dia anterior. Percebi a vida acontecendo, o tempo passando e o “bastão” mudando de mão, mas ainda existindo. Porque a infância sempre vai estar presente.

E, como ponto final, deixo aqui uma frase que sempre me acompanha quando penso no peso do tempo passando:

“Quando me tornei homem, deixei de lado as coisas infantis, incluindo o medo da infância e o desejo de ser muito adulto.”
C. S. Lewis