Kung Fu, mitologia chinesa e um show de programação no Spectrum
Alguns anos atrás, para o blog Planeta Sinclair, me pediram que analisasse um jogo de ZX Spectrum. Relutei – criticar o trabalho alheio nunca foi minha praia; pesa demais. Sempre preferi criar a apontar falhas.

Mas insisti, e ainda bem. Porque foi assim que conheci Wudang, de Ariel Ruiz: um mergulho num mundo de honra, espadas e filosofia taoista, programado com uma maestria rara. É hora de revisitar esse caminho.
Wuxia: artes marciais e mitologia
Em Wudang somos transportados direto para o universo literário das artes marciais e mitologia chinesa, conhecido como wuxia. É algo que, no Ocidente, a gente reconhece como histórias de capa e espada, em que heróis enfrentam tiranos e corrigem injustiças, passando por provações épicas.

Os protagonistas do wuxia são mestres do wushu (as artes marciais chinesas que conhecemos por kung fu) e seguem o xia, um código de honra baseado em lealdade e justiça. Nessas histórias, eles geralmente possuem habilidades quase sobrenaturais, como saltos impressionantes ou resistência além do humano.
O wuxia inspirou os primeiros filmes de kung fu produzidos em Hong Kong no século passado. Depois, um estilo mais realista conquistou o Ocidente através de astros como Bruce Lee, Jet Li e Jackie Chan. Já no ano 2000, o filme O Tigre e o Dragão, de Ang Lee, levou o wuxia aos cinemas do mundo todo – e vários elementos vistos nesse filme aparecem também em Wudang.

A trama
No final do século XIII, Kublai Kahn, primeiro imperador da dinastia Yuan, iniciou uma perseguição ao Taoismo, uma filosofia milenar, mandando queimar textos sagrados e forçando a conversão dos monges taoistas dos templos das montanhas de Wudang. Assim ele favorecia o budismo, religião que havia conquistado forte influência sobre seu governo.
Nosso herói, Qi Wen Wei, é um monge taoista e mestre de wushu no Templo das Nuvens Roxas (hoje conhecido como Palácio Zixiao). Ele consegue escapar do ataque dos soldados do imperador. Já seu melhor amigo, também monge, não teve a mesma sorte e acabou lançado às catacumbas por se recusar a renunciar ao taoismo.

A lealdade é um valor central do Taoismo, por isso Qi Wen Wei decide voltar ao templo para resgatar seu amigo, contando apenas com sua maestria nas artes marciais e sua espada jian.

Um enredo cuidadosamente construído
Ariel Ruiz foi muito cuidadoso ao criar a história de Wudang. Temos todos os elementos do wuxia: o mestre honrado que desafia o imperador para salvar o amigo, a rivalidade entre o Taoismo e o Budismo, além do contraste entre os estilos do kung fu – a força bruta do wushu “duro” praticado pelos monges budistas, e a agilidade do kung fu “suave” ensinado nos templos taoistas nas montanhas de Wudang.

Wudang, berço do Taoismo
As montanhas Wudang, berço do Taoismo, guardaram por séculos centenas de templos, pagodes e santuários. Muitos foram destruídos durante a dinastia Yuan, mas outros resistiram até hoje – locais onde ainda se pratica Tai Chi Chuan seguindo tradições antiquíssimas.

Nos templos de Wudang desenvolveu-se o wushu interno, focado no cultivo do Qi (energia interna), da essência e do espírito. O kung fu de Wudang também inclui técnicas com armas, como o manejo da espada jian. A vida do nosso herói dependerá muito dela.

“As armas são ferramentas pouco auspiciosas;
Devendo apenas ser usadas como último recurso.”
— Kublai Kahn
Kublai Kahn
Kublai, neto de Genghis Khan e primeiro imperador mongol da China, desde jovem era atraído pelo budismo. Criado por uma ama budista e rodeado de conselheiros que seguiam a mesma fé, favoreceu o budismo tibetano, que se tornou influente no estado chinês. A rivalidade com os taoistas levou Kublai a ordenar a conversão forçada dos monges taoistas ao budismo.

O jogo em si
Depois dessa imersão na história, vamos ao jogo. Em algum lugar nas catacumbas do templo está o amigo de Wen Wei, preso numa cela cuja chave precisamos encontrar. Para isso, exploramos salas e corredores, muitas trancadas, cujas chaves estão em posse dos guardas imperiais espalhados pelo templo – prontos para nos atacar sem hesitar.

Exploração e combate
O jogo se sustenta em dois pilares: exploração e combate. Como um verdadeiro herói wuxia, podemos fazer saltos longos em qualquer direção e escalar paredes com uma leveza felina.

Quando um inimigo nos enxerga, ele se aproxima para atacar. Nesse momento, desembainhamos a espada e começa o duelo, que mistura estocadas e bloqueios altos ou baixos. Ficar atento à postura do adversário é essencial para defender o golpe no momento certo.

Ao vencer, absorvemos o Qi do inimigo. Às vezes, nos despojos, encontramos uma chave para acessar outra área do templo. Nosso nível de Qi é representado por um símbolo de Yin & Yang, enquanto a energia vital dos inimigos é mostrada por um rosto demoníaco.
Além dos guardas, enfrentamos feiticeiros do imperador que lançam projéteis de energia negativa, obrigando-nos a bloquear com a espada.

Mini desafios e puzzles
O templo é construído sobre uma rede de túneis e armazéns de chá. Explorar tudo é crucial para encontrar a chave da cela. Pelo caminho há desafios opcionais que podem aumentar bastante nosso Qi.

Um deles é uma divertida adaptação de Breakout; diz a lenda no jogo que foi criado por monges Shaolin para espantar o tédio: guiamos uma bola Baoding com duas varas de bambu para destruir tijolos, enquanto tentamos não irritar dois demônios que querem estragar nossa brincadeira.

Outro puzzle aparece num armazém de chá infestado de ratinhos. Cada um tem um petisco favorito, e precisamos usar isso para guiar um deles até uma poção de Qi perdida num pequeno labirinto.

O Tao do ZX Spectrum
Chegamos então à pergunta inicial: o que torna Wudang tão especial?
Simples: é feito inteiramente em Sinclair BASIC, sem recorrer a código-máquina ou compiladores. Ainda assim, não é mais lento do que muitos jogos programados em assembler. As animações são suaves, baseadas em caracteres 8×8, e as telas carregam rápido.
Os gráficos são incríveis, dos detalhes arquitetônicos do templo às árvores das montanhas. Tudo isso rodando dentro dos limites do BASIC do ZX Spectrum!

Da inspiração à obra-prima
Wudang é, na verdade, um remake do Kung Fu 2, também em Sinclair BASIC, que Ariel criou em 1991 como uma homenagem a Saboteur. Entre Kung Fu 2 e Wudang houve um salto enorme em técnica e narrativa. Wudang não só aprofundou a temática do kung fu como abraçou o wuxia e o taoismo, criando um conjunto harmonioso de elementos históricos, filosóficos e artísticos.

Jogabilidade, estratégia e poesia
O controle pode ser feito por teclado ou joystick. As teclas são redefiníveis e o jogo reconhece teclas pressionadas simultaneamente, essencial para os saltos.
Explorar o mapa com os saltos de Qi Wen Wei lembra o herói de Legend of Kage “voando” pela floresta. O ponto alto, porém, é o combate – que faz o jogo deixar de ser só exploração e ganhar emoção, quase como os duelos em Prince of Persia. Há um fator aleatório que faz cada luta ser única.
Os três níveis de dificuldade dão longevidade ao jogo e tornam os combates mais estratégicos. Também valorizam os mini-desafios, que podem ser ignorados em dificuldade baixa, mas se tornam vitais nos níveis mais altos.
Um duelo que chama atenção acontece numa floresta de bambu, claramente inspirado numa cena clássica de O Tigre e o Dragão – mais um detalhe que mostra o carinho de Ariel Ruiz com a obra.


Como jogar
Wudang é um jogo criado para o lendário ZX Spectrum (48K), um dos ícones dos anos 80, que no Brasil ficou famoso pelos clones TK90X e TK95. Para rodar o jogo no seu computador moderno, você vai precisar de um emulador de ZX Spectrum.
Aqui vão algumas opções populares e fáceis de usar:
- Fuse (Windows, Linux, macOS) – emulador nativo, completo e gratuito.
- JSSpeccy 3 (web) – emulador que roda em browser, amigável para iniciantes.
Basta abrir o arquivo do jogo (normalmente com extensão .tap ou .tzx), e começar a jogar.
👉Link para descarga: https://worldxxisoft.itch.io/wudang
Conclusão
Taoismo é filosofia, é religião, mas acima de tudo busca o equilíbrio e a harmonia com a natureza. Wudang encontra esse caminho: o enredo, a jogabilidade, a arte gráfica e a parte técnica se unem num equilíbrio raro.
Ariel Ruiz atinge um nível impressionante na arte de programar em Sinclair BASIC, usando todos os truques conhecidos e inventando novos. Ele conseguiu colocar, por exemplo, o mapa inteiro do jogo numa única variável que ocupa 16KB de RAM!
Se tivesse sido feito em código-máquina, talvez fosse “apenas” mais um hit técnico. Mas por ter sido desenvolvido com tanto capricho em BASIC, puxando o máximo do ZX Spectrum, Wudang já garantiu seu lugar entre os grandes do homebrew dos micros de 8-bit.
“Refinar a saliva em essência;
Refinar a essência em Qi;
Refinar o Qi em espírito;
Refinar o espírito e retornar ao vazio;
Refinar o vazio e unir-se com o Tao.”
— poema tradicional taoista de refinamento dos três tesouros (jing, qi, shen)

Licenciado em Engenharia Informática e Computação pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Gerenciamento de Projetos na Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, Brasil. Fundou com o amigo Marcus Garrett, a Teknamic Software (Bitnamic no Brasil), software house dedicada a reeditar jogos clássicos, como “Amazônia” e “Incidente em Varginha”, e publicar novos títulos como “Alien Holocaust” e “Saboteur! Remastered” para o Atari 2600 e o ZX Spectrum.