No microcosmo empreendedorístico do mercado de desenvolvimento de games no Brasil vigora, ainda nos tempos atuais – e talvez por um longo período ainda ao que se observa – um nível tóxico e paranoico de preconceitos, desinformação e intolerância que parece refletir a lamentável polarização política encontrada nos muitos núcleos sociais e que responde pela segmentação entre prós e contras em inúmeros assuntos, dividindo famílias, grupos sociais, ambientes de negócios e até culturas que, em princípio, deveriam buscar operar em conjunto em favor de suas afinidades e possíveis conquistas.
É o que se viu no último final de semana, quando o desenvolvedor Matheus Borba, da GoGo Games, decidiu manifestar-se contra o que entende como falta de critérios e de transparência na definição dos projetos escolhidos para integrar os jogos representantes de nossa cultura nos eventos de games nacioanis.
Expressando sua “insatisfação [com] a falta de profissionalismo no processo de seleção de jogos para eventos como Big Festival e Gamescom Latam”, Matheus verbalizou impropérios contra avaliadores destes projetos e chegou ao ápice, ao defender que o game lunr.rdio.taxi, produzido pelo estúdio Soín Coletivo, não apresentava a qualificação necessária como representante do game design brasileiro em tais eventos.
Não fosse a análise do desenvolvedor chocante e deprimente, ao se outorgar mais preparado tecnicamente que um corpo de jurados, e jogar contra a própria classe ao decidir separar o que é de “uma qualidade extremamente alta” e o que representa “uma falta de respeito com quem trabalha em projetos de alto padrão”, Matheus exibiu com clareza seu pleno desconhecimento sobre o mercado no qual diz atuar profissionalmente.
Prontamente, Talbone, desenvolvedora e uma das responsáveis pela produção de lunr.rdio.taxi, veio a público responder às infelizes colocações de Matheus: “Pra explicar um pouquinho pra quem ainda não conhece, lunr.rdio.taxi é um jogo de ritmo e drift com uma pesadíssima carga cultural brasileira. Naves inspiradas em clássicos carros do nosso dia-a-dia (tem uma nave que é um paredão de som!) e temáticas reais e concretas na vida do jovem brasileiro”, comentou, enfatizando que o game foi desenvolvido com o apoio de “DJs e produtores musicais de todo o país” na criação de uma trilha sonora que compõe “uma experiência documental e metafórica da vida urbana noturna brasileira nos tempos atuais”.
Talbone, uma travesti, fez questão de salientar que o estúdio é composto por “um time quase 100% formado por pessoas trans, neurodivergentes, e principalmente, de origens humildes e nada privilegiadas”. “A seleção do nosso projeto significará muito na vida de cada membro do time”, defendeu.
É difícil compreender que, diante destas observações, goste-se ou não do game produzido pelo estúdio, alguém opte por continuar a defender o indefensável, mas a história fica mais complexa e desesperadora, quando Matheus Borba decide atacar o veículo que noticiou o fato.
O Drops de Jogos levou a informação adiante, esclarecendo que, ao se posicionar contra um game que expressa a Diversidade Cultural brasileira, que usa como base expressões da cultura da periferia como o Funk Pancadão e produzido por “um time quase 100% formado por pessoas trans”, o profissional do GoGo Games exala preconceito e incorre potencialmente no crime de Transfobia e injúria racial.
Foi o que bastou para que outro desenvolvedor se levantasse, destilando o velho discurso de ódio “anti-woke”, com uma sequência de impropérios e ofensas da mais baixa estirpe.
“O que eu estou vendo acontecendo com o Matheus Borba, uma grande pessoa, um cara que faz tanto pela comunidade […] e estão questionando ele por palhaçada”, afirmou Guilherme de Cicco em vídeo gravado na rede social Linkedin. “[Pedro] você não tem escrúpulos”, vociferou contra o jornalista que assina a matéria do site.
“Você não passa do pior ser humano da face da Terra […], você tem que perder o seu emprego, você não merece ser o porta-voz jornalístico da comunidade GameDev”, expressou, antes de proferir um palavrão descabido e inaceitável, estendido à toda “a esquerda imunda […] que fica mamando em edital em vez de criar um projeto por si próprio”.
Antes de encerrar o lastimável vídeo, Guilherme afirmou que o game da Soín Coletivo “faz apologia ao crime”, sem identificar quais elementos que crê serem balizadores de tais impressões.
Como é de praxe nessas situações vexatórias protagonizadas por pessoas que adoram destilar o veneno com o qual estão intoxicadas, foram apagados textos e vídeos alusivos a preconceitos e intolerância, com uma tréplica de Matheus Borba afirmando que em suas colocações, reforçou “diversas vezes que nenhum desenvolvedor está ou estaria relacionado diretamente a esses critérios”, sem explicar as críticas direcionadas a lunr.rdio.taxi.
Entre justificativas como “interpretações equivocadas” e “desculpas pelo mal entendido”, a resposta de Matheus se iguala em vaziez com as explicações lançadas mais tarde por De Cicco, que também lamentou “qualquer desconforto ou mal-entendido”, dizendo que suas palavras não refletiam “o respeito ao trabalho da imprensa”.
Mais do que futricar sobre este cabedal de idiotias, este texto é uma reflexão sobre os tempos que vivemos, no qual se autoriza o uso indiscriminado das expressões torpes e impublicáveis por uma ala de pessoas reacionárias, despreparadas, abjetas e que se sentem representantes de valores e grupos sociais.
Que isso seja padrão no Fla-Flu direita-e-esquerda dos tempos atuais já é por si só digno de pena de nossa sociedade brasileira, mas quando vemos imiscuído em nosso segmento um comportamento sectário, preconceituoso e violento como tais manifestações, é impossível ficarmos inertes. Não podemos aceitar discursos de ódio no meio desenvolvimentista de jogos nacionais.
Opiniões antiéticas e impublicáveis deveriam ser guardadas para si ou, melhor, serem objeto de permanente questionamento, como forma de aperfeiçoamento pessoal. Escolha a sua bandeira e saiba respeitar as posições alheias.
Que estes desenvolvedores tenham aprendido esta importante lição social e que o triste episódio ajude outros a entenderem que atitudes como estas não mais serão aceitas.
Imagem: fotomontagem com Matheus Borba e Guilherme de Cicco

Idealizador do projeto Indie Brasilis, ex-editor e atual colaborador do Quebrando o Controle, o jornalista se diz um Geek assumido e fanático por RPG e Dungeons & Dragons. O profissional atua desde 2007 no jornalismo de games, com passagens pelos veículos Portal GeeK, Game Cultura, GameStorming, Rádio Geek e Drops de Jogos, entre outros.