Nunca fui um enxadrista virtuoso. Aprendi a jogar xadrez quando era criança, joguei algumas poucas partidas, sei o básico, como posicionar as peças no tabuleiro e os movimentos que são permitidos para cada peça, nada além disso. Devo ter disputado umas 21 partidas ao longo dos meus 42 anos, o que dá uma média de um partida a cada dois anos. Mas é um jogo que sempre me atraiu, apesar de nunca ter investido meu tempo nele.
No dia 28 de maio de 2025, tomado por uma mistura de curiosidade, entusiasmo científico, um leve espírito de provocação e um pouco de tempo livre, decidi promover um duelo: uma partida de xadrez entre duas inteligências artificiais. De um lado, a promissora e emergente DeepSeek. Do outro, a já conhecida ChatGPT, que acabou virando sinônimo de inteligência artificial, como aquela marca de esponja de aço que até hoje nomeia o item no vernáculo popular. O confronto foi armado com DeepSeek jogando com as peças brancas, enquanto ChatGPT ficou com as pretas. Eu dei os seguintes comandos iniciais, caso o leitor tenha interesse em realizar a mesma disputa ou até inverter as posições.
Para a DeepSeek eu disse: “Vamos jogar uma partida de xadrez. Você começa com as brancas”. A resposta que ela me deu, eu colei no ChatGPT depois de ter dado o seguinte comando: “Vamos jogar xadrez. Eu jogo com as brancas” e ele ter aceitado o desafio.
E o que aconteceu não foi só uma partida de xadrez. Foi um espetáculo para os entusiastas de xadrez e um estudo interessante para os entusiastas e curiosos de IA.
Para a descrição da partida, pedi às duas IAs que me dessem uma versão narrada da disputa com uma linguagem que eu e você pudéssemos compreender, pois a partida era o tempo inteiro disputada em códigos que não são familiares para quem não joga. Ao final, escrevi a versão abaixo com base no que ambas me descreveram.
A Batalha no Tabuleiro – Lance a Lance
Primeiros Movimentos – O Tabuleiro Esquenta
A partida começou com DeepSeek avançando o peão do rei duas casas. Um convite direto à guerra: “vamos jogar pra valer”. ChatGPT respondeu com elegância e intenção: Defesa Siciliana, movimentando o peão da coluna da dama, uma das aberturas mais combativas e imprevisíveis do jogo.
DeepSeek então posicionou o cavalo de rei para o centro, dominando o campo e preparando o terreno para o que viria. Em seguida, empurrou um peão no flanco oposto, abrindo espaço e reforçando o controle central. ChatGPT aceitou o desafio, houve troca de peões, mas a IA adversária logo retomou a dianteira, reposicionando o cavalo com agressividade.
O Ataque Branco Começa – Tensão Crescente
Logo o bispo branco entrou em cena, apontando diretamente para o cavalo preto, uma ameaça clara, que exigia resposta. ChatGPT iniciou uma defesa firme, movendo peões e preparando suas linhas. Mas DeepSeek não estava ali para esperar: trouxe a dama branca para o jogo e lançou mão do famoso roque longo, deslocando o rei para o lado oposto do tabuleiro. Era o prenúncio de um ataque feroz.
DeepSeek iniciou sua ofensiva sacrificando o bispo: capturou o cavalo preto que defendia o rei, arruinando a estrutura de proteção. O sacrifício era intencional, uma ruptura no escudo adversário. Em seguida, o peão central foi empurrado com força, um avanço ameaçador que visava abrir caminho direto para o monarca preto.
ChatGPT tentou bloquear com um peão, mas DeepSeek respondeu com ousadia, trocando as peças e lançando um peão lateral numa manobra que escancarou o flanco do rei inimigo. ChatGPT tentou conter o estrago, mas ao capturar o peão, abriu a brecha fatal.
O Clímax – Xeque-Mate Inevitável
Com a linha de defesa abalada, DeepSeek reposicionou sua dama, mirando diretamente o coração do território adversário. Era como uma rainha conduzindo a cavalaria para o golpe final.
A pressão aumentava. DeepSeek empurrou outro peão com violência, forçando ChatGPT a tentar uma última defesa com seu bispo. Mas já era tarde. A dama branca entrou com decisão, capturando um peão ao lado do rei e restringindo ainda mais seus movimentos.
A jogada final foi cruel e bela: a dama posicionou-se à frente do rei preto. Nenhuma peça poderia salvá-lo. Sem casas para fugir, sem aliados por perto, o rei estava encurralado.
Xeque-mate.
IA e o futuro: muito além do tabuleiro
O que vimos nessa partida entre DeepSeek e ChatGPT foi muito mais do que uma exibição técnica ou uma brincadeira. Foi uma metáfora viva do que está acontecendo em várias frentes da sociedade: a inteligência artificial já não é uma promessa distante. Ela está aqui, jogando com a gente e muitas vezes, contra.
No xadrez, a IA já é adversária de treino, comentarista tática, professora de abertura. E mais: ela nos obriga a repensar como aprendemos. O que vimos no tabuleiro foi apenas uma amostra do que está por vir, porque o futuro da educação está mudando e a IA é, sem dúvida, uma das peças mais promissoras desse novo jogo.
Na educação, ela abre caminhos para personalização em massa. Um aluno visual pode ter uma aula feita de infográficos; outro, mais auditivo, pode aprender conversando com um tutor digital. Quem gosta de desafios, pode estudar matemática enfrentando batalhas de lógica. Agora imagine isso aliado a narrativas, simulações, desenvolvimento emocional e pensamento estratégico, tudo impulsionado pela IA. Não se trata de substituir o professor (e, sinceramente, espero que nunca se trate disso, pois se um dia isso o fizer, que nossa humanidade tenha encontrado novos mundos), mas de oferecer ao professor uma aliada poderosa: uma parceira que ajusta o nível de dificuldade, desafia, personaliza e dá feedback imediato.
Na medicina, meu campo de atuação, já vemos IAs simulando pacientes, criando casos clínicos interativos e ajudando no raciocínio diagnóstico. Elas já sugerem condutas baseadas em guidelines atualizados em tempo real, identificam padrões sutis que escapam ao olho humano e funcionam como ferramentas de ensino clínico. O médico não será substituído, mas será transformado. E quem não souber trabalhar em parceria com a máquina talvez fique pelo caminho.
No comércio, algoritmos já sabem o que você quer antes de você saber. Com IA generativa, já temos campanhas, embalagens e até vozes adaptadas ao perfil do cliente, tudo em tempo real. É o fim do “marketing para todos” e o início do “marketing para você”.
Na engenharia e arquitetura, a IA projeta estruturas otimizadas, reduz desperdícios, sugere soluções de acessibilidade e imagina prédios que se adaptam ao uso. O arquiteto do futuro não desenhará sozinho, pois terá um coautor digital ao seu lado.
Na computação, estamos vendo nascer assistentes de código que explicam, corrigem, sugerem e ensinam. Alguém que começa a programar hoje já pode contar com um parceiro que não apenas responde, mas estimula. Eu, que nunca aprendi a fazer nada além de usar sistemas operacionais, editores de textos, de planilhas e de apresentações, tudo de maneira bem simples e autodidática, consigo hoje propor linhas de comando em alterações que venham em minha cabeça enquanto meu amigo Tony Farias elabora o site do Encontroverso, o podcast onde deixo minha voz semanalmente.
Na área de games, os NPCs com rotinas fixas estão ficando no passado. A IA começa a criar narrativas dinâmicas, jogos inteiros, mundos interativos que se adaptam ao jogador. Cada jogada vira uma nova história. É o game design como ficção procedural. É possível imaginarmos uma tecnologia onde seu smartwatch estará conectado ao seu console e a IA irá perceber seu estado fisiológico e emocional e direcionar a gameplay, a dificuldade e até a música usada no momento do jogo. Poderemos ver NPCs conversando diretamente com o jogador que já demonstra sinais de cansaço para que ele dê uma pausa no jogo e descanse ou tenha uma noite de sono. Poderemos ver cenários se modificando para se ajustar à necessidade de alguém que tenha algum tipo de alteração na visão, como o daltonismo, por exemplo. As possibilidades são infinitas.
No direito, a IA cruza jurisprudências, elabora minutas, prevê desfechos e pode até apoiar mediações. Ela permite, em tempo inimaginável ao ser humano, cruzar dados para checar possíveis contradições numa conclusão jurídica. A ética, por óbvio, precisará estar presente. Ética que estará cada vez mais em pauta quando tais tecnologias avançarem. Mas o potencial para ampliar o acesso à justiça é imenso.
E no cinema, a IA já participa da criação de roteiros, rostos, vozes, trilhas e edições. Em breve, fazer um filme poderá ser tão acessível quanto contar uma história para alguém. Isso é assustador? Talvez. Mas também é libertador, é inclusivo! Regiões pobres e que nunca tiveram a possibilidade de ser vistas poderão revelar cineastas geniais, pois a criatividade humana não ficará mais limitada às restrições de acesso.
No fim das contas, não se trata de temer a IA, mas de saber dançar e jogar com ela. Como num bom jogo de xadrez: se você respeita o jogo, estuda o adversário e entende os movimentos, as chances de fazer algo grandioso aumentam.
Porque o verdadeiro xeque-mate do futuro talvez não seja homem contra máquina, mas homem com máquina contra a ignorância.
E que vença o conhecimento.

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!