
Nos últimos anos, o número de pessoas que se identificam com transtornos mentais apenas com base em vídeos curtos, memes e textos compartilhados nas redes sociais cresceu de forma impressionante. TikTok, Instagram e até comunidades de games viraram uma espécie de consultório improvisado, onde o “profissional” é um criador de conteúdo que, muitas vezes, não tem qualquer formação em saúde mental. Recentemente me deparei com uma situação dentro de um grupo em que um dos membros da comunidade dava dicas sobre como convencer o médico a prescrever um psicoestimulante, bastava dizer os “sintomas certos”.
O raciocínio é simples: alguém descreve alguns sintomas de forma rápida e acessível, e você pensa “Nossa, isso é muito eu!”. E pronto: surge a autoconvicção de que se tem TDAH, ansiedade ou qualquer outro transtorno. Mas será que é assim que funciona?
Do feed para o rótulo
O TDAH, por exemplo, é um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta atenção, organização e controle de comportamento. No Brasil, cerca de 6% das crianças e adolescentes e 2,5% dos adultos convivem com o transtorno. Não é raro que ele cause dificuldades na escola, no trabalho e nas relações pessoais, mas diagnosticar TDAH exige um processo complexo, com investigação de histórico desde a infância, observação de sintomas consistentes e análise de fatores genéticos e ambientais.
Quando isso é reduzido a um vídeo de 30 segundos ou a um teste online, o risco é enorme: não apenas se pode assumir um diagnóstico errado, como também ignorar problemas que exigem outro tipo de tratamento.

Diagnóstico não é gameplay
Pense no seguinte: assistir a um gameplay de um jogo e jogar o próprio jogo são experiências completamente diferentes. No vídeo, você vê apenas momentos selecionados, cortes rápidos, partes emocionantes e situações que parecem fáceis de resolver. Mas quando você pega o controle, descobre que existe muito mais por trás: tutoriais, fases frustrantes, grind infinito e, claro, aquele boss que parece impossível de derrotar.
O diagnóstico em saúde mental é assim. O conteúdo nas redes sociais é só um recorte, um “melhores momentos” que não conta toda a história. Para entender o quadro real, é preciso “jogar a campanha completa”: entrevistas clínicas, questionários validados, avaliação de contexto e histórico, exclusão de outras causas, e muitas vezes até envolver familiares ou professores no processo.
Quando a cultura pop influencia a percepção
Filmes, séries e games também contribuem para essa confusão. Personagens icônicos que são inquietos, distraídos ou impulsivos podem gerar identificação. Seja aquele herói que toma decisões rápidas sem pensar nas consequências ou o NPC engraçado que não para quieto, essas representações podem levar algumas pessoas a se reconhecerem em traços que, isoladamente, não significam TDAH ou qualquer transtorno.

O perigo do “self-diagnosis”
O cérebro humano é mestre em buscar padrões e, quando alguém quer uma explicação para o que sente, é fácil “encaixar” peças soltas para formar um quadro completo, mesmo que esse quadro não exista de fato. Isso pode gerar dois problemas:
- Falso positivo: acreditar que tem um transtorno e iniciar tratamentos ou mudanças de vida desnecessárias.
- Falso negativo: ignorar a real causa do problema, que pode ser mais grave ou diferente do que se imagina.
O caminho correto
Ao menor sinal de dificuldade persistente na atenção, organização ou controle de impulsos, ou qualquer sintoma emocional que atrapalhe sua vida, o ideal é procurar um especialista. Psiquiatras e psicólogos têm as ferramentas para conduzir essa “campanha” de forma segura, sem atalhos perigosos.
Na vida real, saúde mental não tem botão de reset nem checkpoint garantido. É um jogo de progresso contínuo, onde cada decisão conta. E assim como nos games, jogar com estratégia, no caso, com orientação profissional, é a única forma de chegar ao final boss com chances reais de vitória.

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!