Fim de Jogo. E Agora?

Renato Degiovani Últimas notícias
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A eleição terminou e, enquanto uns comemoram e outros lamentam, chegou o momento de trocar as promessas pelos compromissos. Para a indústria brasileira de games, a pergunta é inevitável: estamos diante de uma oportunidade real de crescimento ou tudo não passou de mais uma movimentação eleitoral?

Durante décadas, o desenvolvimento brasileiro de videogames sobreviveu muito mais graças à iniciativa pessoal, ao improviso e à teimosia de seus criadores do que por qualquer política pública consistente. Produzimos jogos quando praticamente não existia mercado, desenvolvemos ferramentas próprias e aprendemos a distribuir nossos produtos muito antes de alguém descobrir que a chamada economia criativa poderia render bons discursos.

Agora, finalmente, os games parecem ter conquistado um lugar na agenda governamental.

Em 2024, foi sancionado o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, estabelecendo bases jurídicas para o reconhecimento e o desenvolvimento do setor. Convém lembrar que o projeto nasceu no Congresso Nacional, em 2021, por iniciativa de um deputado federal. Não foi, portanto, uma criação original do governo, embora sua sanção tenha representado um avanço importante.

Reconhecer essa trajetória é necessário para evitar um velho hábito da política brasileira: transformar conquistas coletivas em patrimônio exclusivo de quem aparece na fotografia.

Mais recentemente, em pleno período eleitoral, o presidente assinou o decreto Games Brasil, regulamentando o Marco Legal e anunciando iniciativas de financiamento, incentivos fiscais, formação profissional, promoção internacional e divulgação dos jogos nacionais.

A proximidade com a eleição naturalmente desperta suspeitas. Afinal, inaugurar obras inacabadas e anunciar investimentos futuros são práticas bastante conhecidas da política brasileira e isso independe de partido ou ideologia. Mas seria injusto classificar tudo que foi prometido como propaganda eleitoral.

Os números prometidos são expressivos, incluindo iniciativas estimadas em dezenas ou centenas de milhões de reais. Entretanto, existe uma diferença considerável entre recursos anunciados, aprovados, contratados e efetivamente entregues aos beneficiários. E é justamente nessa distância que boas intenções costumam desaparecer.

Outro problema é descobrir quem conseguirá acessar esses recursos. Uma coisa é financiar um estúdio estruturado, com contadores, advogados e profissionais especializados em editais. Outra é atender aquele desenvolvedor que trabalha sozinho, ou com dois amigos, tentando concluir seu primeiro jogo comercial. Historicamente, boa parte da produção independente brasileira com algum relevância, nasceu exatamente desse segundo grupo.

Se os mecanismos de incentivo exigirem uma estrutura administrativa incompatível com a realidade desses profissionais, poderemos acabar criando uma política de apoio aos jogos independentes da qual os verdadeiramente independentes terão dificuldade para participar.

Entre as propostas anunciadas está também o Games Brasil, uma plataforma pública destinada a catalogar e divulgar jogos nacionais. A ideia é interessante. Afinal, uma das maiores dificuldades dos desenvolvedores atualmente não é colocar um jogo à venda, mas conseguir que alguém descubra sua existência. Entretanto, um catálogo não se transforma automaticamente numa ferramenta de divulgação.

É preciso audiência, atualização, integração com as lojas digitais e mecanismos que aproximem desenvolvedores, imprensa, distribuidores e jogadores. Caso contrário, teremos apenas mais um portal institucional com fichas de produtos e notícias sobre eventos oficiais. E, para além dos desejos pessoais deste ou daquele desenvolvedor, é preciso existir uma cultura do game nacional. Vitrines vazias não vendem jogos e esse talvez seja um dos aspectos mais importantes de toda a discussão: o Brasil não precisa apenas de dinheiro para fazer jogos mas precisa de condições para divulgá-los.

E volta uma questão frequentemente esquecida: a preservação de nossa história. O decreto prevê iniciativas relacionadas à preservação de jogos financiados com recursos públicos, o que representa um começo. Mas a memória dos videogames brasileiros é muito mais ampla e inclui décadas de produções independentes, experiências pioneiras e obras que correm o risco de desaparecer.

A continuidade política não significa automaticamente eficiência administrativa, disponibilidade financeira ou resultados concretos, afinal a economia brasileira, como um todo, não anda bem das pernas. A indústria de games não existe numa realidade paralela e, tal qual a picanha, promessas podem não passar disso.

Considero um erro transformar a discussão do setor de games numa disputa entre quem deseja aplaudir antecipadamente todas as medidas do governo e quem pretende desqualificá-las simplesmente por sua origem política. Uma política pública deve ser avaliada pelos resultados, independentemente de quem a propôs. Se funcionar, merece reconhecimento. Se fracassar, merece crítica. E, se tiver sido criada apenas para produzir manchetes durante uma campanha, isso ficará evidente quando chegar a hora de apresentar resultados.

O atual presidente foi reconduzido à cadeira de governante. Agora começa uma partida muito mais complicada, na qual não bastam promessas, slogans ou fotografias ao lado de desenvolvedores sorridentes. Será preciso entregar resultados.

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