A adolescência nunca foi tão barulhenta, confusa e bonita quanto em Mixtape
Existem jogos que você termina, fala sobre ele durante alguns dias e naturalmente esquece conforme outros lançamentos aparecem. Isso acontece o tempo inteiro, principalmente hoje, quando toda semana surge alguma novidade tentando disputar espaço.
Mixtape me passou a sensação oposta.
Terminei o jogo e continuei pensando nele horas depois, cantando as músicas mentalmente e lembrando das cenas. Continuei ouvindo músicas da trilha sonora no Spotify. Continuei lembrando de momentos da campanha enquanto fazia outras coisas do dia. E principalmente: fiquei lembrando de pessoas da minha própria vida.
Isso, para mim, é um dos maiores sinais de que uma obra realmente acertou em cheio no que queria fazer.
Porque, diferentes de outros jogos, Mixtape não tenta impressionar através do tamanho, do combate, do mundo aberto ou de dezenas de sistemas. A força dele está em algo muito mais difícil de executar: transformar a memória afetiva em uma experiência interativa genuinamente humana, delicada, realista e emotiva.
A Beethoven & Dinosaur , mesmo estúdio de The Artful Escape, conseguiu criar uma experiência que parece íntima o tempo inteiro, tanto pelo roteiro, quanto pela combinação absurda entre direção de arte, trilha sonora, edição, comportamento dos personagens e a forma como o jogo usa a música para transformar momentos comuns em algo memorável.
Como alguém que cresceu nos anos 90 e 2000, foi impossível não sentir esse jogo batendo diferente em vários momentos. Sem brincadeira, eu joguei com arrepios o olhos levemente marejados o tempo inteiro.
Nos últimos anos, tenho estado muito nostálgico e esse jogo chegou como um tapa na cara.
Isso não quer dizer que eu vivi exatamente o que aqueles personagens viveram, mas reconheci sensações muito específicas da adolescência que praticamente desapareceram da vida moderna.
Aquela mistura de amizade, impulsividade, insegurança, rebeldia e liberdade que só existe naquela fase da vida em que você ainda acha que tudo vai durar para sempre.

A história acompanha Stacey Rockford, Cassandra e Slater durante o último dia deles juntos antes da vida começar oficialmente a mudar.
Stacey está indo embora para Nova York para tentar seguir carreira trabalhando com música. Cassandra vive presa entre as próprias vontades e a pressão constante do pai policial. Slater parece aquele amigo que ainda não entendeu exatamente qual será o próximo passo da própria vida, mas tenta esconder isso através do humor e da personalidade mais tranquila.
O jogo é simples: uma última noite juntos antes da separação inevitável da vida adulta.
Só que a forma como Mixtape trabalha isso é o que faz toda diferença, pois eles não erram a mão na representação da adolescência.
Normalmente, quando jogo outros nomes, assisto filmes, séries, etc, tenho uma aversão a acompanhar adolescentes, justamente pela forma estereotipada e irritante como sempre são representados.
Os personagens fazem besteira, exageram histórias, bebem escondido, fogem da polícia, falam absurdos e transformam situações pequenas em eventos gigantescos, exatamente como adolescentes costumam fazer.
Ao mesmo tempo, existe um silêncio acompanhando tudo, eles sabem que aquela fase está acabando.
Mesmo sem verbalizar isso o tempo inteiro, o jogo deixa claro que existem desconfortos emocionais por trás das piadas, das aventuras e da energia caótica daquela noite.
Crescer também significa perceber que alguns momentos nunca mais vão se repetir.
A trilha sonora de Mixtape talvez seja uma das mais importantes dos últimos anos

Pouquíssimos jogos usam música da forma como Mixtape usa. Digo isso com propriedade, pois mesmo não sendo especialista na área, a música é um dos pontos que eu mais avalio em análises, playtests e jogadas casuais.
E aqui não estou falando apenas da qualidade da playlist, porque ela realmente é absurda.
The Cure, Joy Division, Smashing Pumpkins, Iggy Pop, Silverchair, Devo, Siouxsie and the Banshees e várias outras bandas aparecem ao longo da campanha, mas o mais impressionante não é a presença dessas músicas e sim como elas são inseridas na narrativa de cada capítulo.
Cada faixa parece escolhida por alguém que realmente entende o peso emocional que a música possui na vida das pessoas.
E faz sentido, porque Stacey, por exemplo, literalmente sonha em trabalhar com trilha sonora e supervisão musical. A personalidade dela inteira gira em torno disso.
Existe uma cena logo no começo em que você percebe que ela não escolhe músicas apenas porque gosta delas, mas sim por acreditar que determinados momentos da vida merecem uma trilha específica.
Em vários momentos, Mixtape parece menos um jogo tradicional e mais uma coleção de memórias conectadas por músicas.
Como millennial, isso bateu forte demais em mim, sem brincadeira.
Eu cresci em uma época onde música ainda fazia parte muito física da construção das relações. Gravar CDs, trocar músicas no MSN, descobrir bandas através de amigos, ouvir álbuns inteiros caminhando na rua e baixar música no Ares correndo o risco de destruir o computador inteiro hahahah
Essa relação em Mixtape é honestíssima.
O jogo parece uma lembrança viva

Uma das melhores decisões da Beethoven & Dinosaur foi não tentar fazer as memórias parecerem realistas e sim emocionais.
As lembranças dos personagens são exageradas, estilizadas, caóticas e às vezes completamente absurdas. Tem perseguição de carrinho de supermercado, voos pela cidade e cenas que claramente foram aumentadas pela imaginação adolescente dos personagens.
Só que isso faz total sentido dentro da proposta, porque, na real, ninguém lembra da adolescência de forma objetiva.
Eu por exemplo, tenho flashes da minha adolescência e todos são em câmera lenta, com particularidades e personalidades para cada um desses momentos.
A gente lembra de sensações, do nervosismo do primeiro beijo, de quando a pessoa que eu gostava deitava na minha barriga na aula, dos ensaios de apresentações com as turmas, das festas do colégio.
Lembra de uma vergonha gigantesca que provavelmente nem era tão grande assim.
A gente lembra de momentos simples como se fossem eventos históricos.
Mixtape entende perfeitamente esse exagero emocional da memória afetiva e traz uma direção de arte que ajuda demais nisso.
O visual mistura animações na pegada stopmotion, enquadramentos extremamente cinematográficos, iluminação estilizada e cortes quase musicais, com transições, slowmotions lindíssimos. Em vários momentos, parecia que eu estava assistindo um clipe jogável misturado com filme coming-of-age dos anos 90.
Stacey, Cassandra e Slater parecem amigos reais

Grande parte do impacto emocional do jogo vem da escrita dos personagens, onde se evita aquele problema clássico de jogos narrativos onde todo mundo parece estar falando frases prontas e clichês o tempo inteiro.
As conversas fluem naturalmente, os personagens interrompem uns aos outros, falam besteira, fazem comentários sem importância e realmente possuem intimidade entre si.
A gente acredita naquela amizade e isso é fundamental para a experiência funcionar.
Stacey provavelmente é uma das protagonistas mais carismáticas que vi nos últimos anos, possuindo aquela mistura de arrogância cultural adolescente, paixão genuína por música e inseguranças que se escondem atrás da sua personalidade forte.
Ela quer ir embora, mas é claramente perceptível que ela tem medo do significado disso.
Já a Cassandra talvez tenha sido a personagem que mais me surpreendeu ao longo da campanha, pois ela traz uma agressividade emocional que aos poucos vai revelando inseguranças muito mais profundas do que parecia no começo.
E Slater traz um equilíbrio importante para o grupo, com aquele perfil clássico do amigo que parece estar levando tudo na brincadeira, mas claramente também está tentando lidar com o fato de que o mundo está mudando rápido demais ao redor dele.
O gameplay virou uma discussão completamente sem sentido

Desde o lançamento, muita gente começou aquela velha discussão sobre “isso é videogame mesmo?” ou “cadê a gameplay?”.
Sinceramente, acho um debate extremamente limitado e sem sentido, pois essa é justamente a proposta do jogo.
Mixtape é uma experiência narrativa focada em música, atmosfera, emoção e memória afetiva, com o gameplay sendo uma ferramenta complementar de game design.
Você anda de skate, participa de minigames (por sinal, muito bons), joga baseball, foge da polícia, explora cenários e participa de várias aventuras diferentes durante a campanha.
Só que absolutamente nenhuma dessas mecânicas existe para criar dificuldade e sim para fortalecer e intensificar a emoção do momento.
Existe uma sequência específica envolvendo música, velocidade e controle que me fez sorrir igual idiota jogando.
E videogame é isso também.
Existe algo muito millennial dentro de Mixtape
Talvez pessoas mais novas também se conectem com o jogo, mas sinto que Mixtape bate especialmente forte em millennials, porque ele retrata uma adolescência pré-redes sociais constantes.
Uma época onde as pessoas precisavam criar diversão praticamente no improviso, sair de bicicleta sem avisar ninguém, ficar horas na rua, entrar em locadoras, escutar música junto, passar vergonha em grupo.
Criar memórias sem pensar em postar tudo na internet.
Mixtape captura muito bem a sensação de PRESENÇA.
Eu cresci vivendo muita coisa parecida emocionalmente. Não igual ao jogo, obviamente, mas reconheci demais aquela vibe.
Em vários momentos, Mixtape me lembrou pessoas que já passaram pela minha vida e que hoje provavelmente nem imaginam o impacto que tiveram em certas memórias minhas.
Poucos jogos conseguem trazer isso.
Vale a pena jogar Mixtape?

Se você procura combate, sistemas aprofundados, progressão gigantesca ou desafios, provavelmente não é o jogo ideal para você.
Agora, se você gosta de jogos narrativos, música, personagens bem escritos e experiências capazes de despertar lembranças muito específicas da vida, então Mixtape é obrigatório.
A Beethoven & Dinosaur conseguiu criar uma das experiências mais humanas dos últimos anos dentro dos videogames.
Um jogo sobre amizade, música, despedida, juventude e memória afetiva que não é artificial e nem exagerado.
Mixtape me lembrou de amigos antigos, bandas que marcaram fases da minha vida e momentos que eu provavelmente não valorizava tanto enquanto aconteciam.
Poucos jogos conseguem fazer isso comigo, menos ainda conseguem fazer isso sem depender de nostalgia barata e fanservice.
Mixtape não tenta recriar o passado e sim a sensação de lembrar dele.
E consegue.
Nota: 10/10
Imagens: Capturas do game e divulgação Annapurna Interactive
Texto original em: Mixtape: há jogos que vêm e que vão. Outros, ficam para sempre. | LinkedIn