Prazer em excesso, cansaço constante
A internet nos trouxe diversos paradoxos. Hoje buscamos diversas soluções tecnológicas para problemas que não existiriam se não houvesse uma tecnologia anterior intrinsecamente ligada àquele problema. Mas não é somente na área da tecnologia que novos problemas têm surgido.
O homem é um ser curioso por natureza. É por causa da curiosidade, da busca por respostas para perguntas que surgem o tempo todo em nossas mentes, que criamos a ciência, o método científico, a testagem, o empirismo, a necessidade de armazenar conhecimento para desenvolver novas etapas na pesquisa.
Existe uma situação que sempre me intriga, que é a forma como nosso cérebro hoje lida com a informação, mas esse é um assunto que quero deixar para outro texto… hoje quero falar sobre o prazer que buscamos incessantemente.
Nunca tivemos tantas fontes de prazer disponíveis. Curtidas, vídeos curtos (quando criança, short pra mim era só uma vestimenta, não tinha nada a ver com vídeo), notificações, recompensas visuais, troféus que pulam na tela quando fazemos algo no jogo, sons, vibrações e estímulos constantes disputam nossa atenção o tempo todo. Ainda assim, muita gente relata uma sensação estranha e aparentemente contraditória: quanto mais busca prazer, mais se sente cansada, vazia ou desmotivada.
Esse é o paradoxo da dopamina digital. Vivemos cercados por estímulos que prometem satisfação imediata, mas o resultado final costuma ser esgotamento mental. A sensação de prazer existe, mas dura pouco. E logo surge a necessidade de mais.
O que a dopamina realmente faz
Ao contrário do que muita gente pensa, a dopamina não é exatamente o hormônio do prazer. Ela está muito mais ligada à expectativa, à antecipação e à motivação para buscar algo. É ela que diz ao cérebro: isso vale a pena, vá atrás disso.
Curiosidade: sabia que nosso cérebro tem várias vias dopaminérgicas e que cada uma delas é responsável por uma função diferente? As vias dopaminérgicas são os circuitos neuronais no cérebro que transportam a dopamina e controlam as funções como movimento, recompensa, motivação, cognição e regulação hormonal, sendo as principais as vias mesolímbica, que controla o prazer e a emoção, a via mesocortical, que regula as funções executivas, a via nigroestriatal, responsável pelo movimento motor a via e tuberoinfundibular, que regula a liberação de prolactina.
O problema começa quando esse sistema dopaminérgico é bombardeado sem pausa. Redes sociais, jogos com loot boxes, notificações constantes e recompensas aleatórias ativam esse circuito repetidamente. O cérebro aprende rápido. Aquilo que antes causava empolgação passa a ser o novo normal. Para sentir o mesmo efeito, é preciso aumentar a dose. A mesma recompensa de antes já não gera o mesmo prazer… o mesmo efeito que é percebido com algumas substâncias químicas (lícitas e ilícitas) passa a ser desencadeado por recompensas digitais.
Loot boxes, notificações e o cassino no bolso
As loot boxes dos jogos funcionam como máquinas caça-níqueis digitais. Você não sabe o que vai ganhar, mas sabe que pode ser algo bom… ou não, o que é mais provável com a repetição. Essa incerteza é extremamente poderosa para o cérebro. O mesmo vale para rolar o feed das redes sociais ou checar notificações. Talvez tenha algo interessante, talvez não. E é justamente esse talvez que mantém o comportamento.
Com o tempo, o cérebro entra em um estado de busca constante. Não há saciedade real. O prazer deixa de ser um ponto de chegada e vira um empurrão para continuar consumindo estímulos.
Divertida Mente 2 e a emoção que nunca descansa
Divertida Mente 2 ajuda a ilustrar bem esse fenômeno. A chegada da Ansiedade mostra como a mente pode ficar hiperfocada em antecipar, prever e reagir. É um estado em que o cérebro não descansa, porque está sempre tentando se preparar para o próximo estímulo.
Importante ressaltar que a ansiedade é um sentimento normal. Graças a ela nós pudemos evoluir e perceber que abrigos, plantações e criações facilitam a sobrevivência, por exemplo, mas ela pode se tornar um sintoma de adoecimento quando foge do controle.
A dopamina em excesso faz algo parecido. Ela mantém o sistema em alerta permanente. O descanso perde valor. O tédio se torna insuportável. O silêncio incomoda. E, paradoxalmente, aquilo que deveria trazer prazer passa a gerar tensão.
Por que ficamos esgotados
Quando tudo é prazer imediato, nada é realmente prazeroso. O cérebro precisa de contraste. Precisa de pausas. Precisa de esforço para que a recompensa faça sentido. Sem isso, surge a fadiga. Uma sensação difusa de cansaço mental, dificuldade de concentração, irritabilidade e desmotivação.
Não é raro ver pessoas que passam horas consumindo conteúdo e, ao final do dia, sentem que não descansaram. Porque, de fato, não descansaram. Estavam estimuladas o tempo todo.
Checkpoint final
O paradoxo da dopamina digital não é um problema de fraqueza individual. É um efeito previsível de um ambiente desenhado para capturar atenção. Buscar prazer o tempo todo não nos torna mais felizes. Nos torna mais dependentes do próximo estímulo.
Talvez cuidar da saúde mental hoje passe por reaprender a tolerar o tédio, o silêncio e a espera. Reduzir estímulos não é perder prazer, é permitir que ele volte a existir de forma mais profunda. Em um mundo que nos oferece recompensas o tempo inteiro, escolher parar pode ser o gesto mais saudável de todos.

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!