O Cemitério Digital: Por Que Compramos Jogos Que Nunca Vamos Jogar

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Tenho mais de 200 jogos na biblioteca da PS Store. Mais uns 40 na Steam (fora minha coleção de mídias físicas, mas esse artigo não esse tipo de coleção).

Dos que estão nas bibliotecas online, joguei, de verdade, talvez uns quarenta, cinquenta, talvez.

Os outros duzentos e poucos vivem ali, em ícones perfeitamente organizados, num estado de espera permanente que já dura anos. Alguns eu sequer abri uma vez. Outros instalei, joguei vinte minutos e nunca mais toquei. E ainda assim, na próxima promoção de inverno, eu vou comprar mais.

Se você está lendo isto, provavelmente tem seu próprio cemitério. Talvez maior que o meu. E a pergunta que me persegue há algum tempo é simples e desconfortável: por que fazemos isso?

A promoção como armadilha afetiva

Por que compramos tanto? A resposta fácil é o preço.

“Estava com 90% de desconto, eu tinha que comprar.”

Eu já disse essa frase.

Você provavelmente já disse também.

Mas ela esconde uma inversão curiosa: não compramos o jogo porque queremos jogá-lo. Compramos porque a oferta existe. O gatilho não é o desejo de jogar — é o medo de perder a oportunidade.

As lojas digitais entenderam isso melhor do que nós. As grandes promoções da PS Store, Steam não são liquidações de estoque, porque estoque digital não existe.

São eventos cuidadosamente desenhados para transformar a compra num ato de urgência. O contador regressivo, o selo vermelho, a notificação de que aquele jogo que você “favoritou” finalmente baixou de preço. Tudo conspira para nos fazer sentir que estamos ganhando algo. E ganhar, mesmo que seja só o direito de possuir um arquivo que nunca abriremos, é viciante.

O que compramos, nesses momentos, não é entretenimento. É a sensação de ter feito um bom negócio.

Comprar uma intenção, não um jogo

Aqui está o que eu acho que realmente acontece, e é a parte que me incomoda mais: cada compra é uma promessa que fazemos a uma versão idealizada de nós mesmos.

Quando compro aquele RPG de oitenta horas em promoção, eu não estou comprando oitenta horas de jogo. Estou comprando a fantasia de um eu futuro que terá tempo, disposição e foco para vivê-las. Um eu que chega em casa depois do trabalho e, em vez de dedicar tempo às filhas e esposa, ler um livro, assistir a um filme ou jogo até dormir, mergulha numa narrativa épica com a atenção que ela merece.

Esse sujeito não existe. Mas comprar o jogo me faz sentir, por um instante, que ele poderia existir.

O backlog, então, não é uma lista de jogos. É um arquivo de intenções. Um inventário de todas as pessoas que pretendíamos ser e dos tempos livres que imaginávamos ter. Cada título não jogado é uma pequena declaração: “um dia eu serei alguém com paciência para isto.”

E há algo quase tocante nisso, se você parar para pensar. A compra é um gesto de otimismo. É acreditar que o futuro terá mais espaço, mais calma, mais nós.

O peso de uma biblioteca que cobra

O problema é que a intenção, acumulada, deixa de ser otimismo e vira dívida. Não financeira, mas emocional.

Já abri minha biblioteca decidido a jogar algo. Fui ver o que tinha de opções e fui esmagado pela quantidade de itens.

O paradoxo da escolha em estado puro: quanto mais coisas tenho disponíveis, menos consigo me comprometer com qualquer uma. E pior: por trás de cada ícone há uma leve culpa. “Comprei isto e nunca joguei.” “Aquele ali estava na minha lista de espera há dois anos.” A biblioteca, que deveria ser fonte de prazer, vira uma sala cheia de pequenas cobranças silenciosas.

Passamos a ver o catálogo como status. Ter muitos jogos era sinal de ser um jogador “de verdade”. A biblioteca virou identidade antes de virar entretenimento. E identidade a gente não joga, a gente exibe.

O que estamos realmente colecionando

Cheguei a uma conclusão meio incômoda: talvez o backlog não seja um defeito do hobby.

Talvez seja o hobby, ao menos em parte. Para muitos de nós, o ato de adquirir já é uma forma de consumo. A antecipação, a pesquisa, a leitura de análises, o clique na compra — tudo isso é prazeroso em si, independentemente de o jogo ser jogado depois.

Colecionadores de vinil nem sempre ouvem todos os discos. Pessoas com estantes lotadas nem sempre leram cada livro. Vira um verdadeiro hábito de acumular livros não lidos. O que os games adicionaram foi a fricção zero. Não há espaço físico se esgotando, não há prateleira para encher. O acúmulo digital é infinito e quase invisível, o que o torna ao mesmo tempo mais fácil e mais vazio.

E é aí que eu queria deixar a provocação, mais do que uma resposta.

Não acho que comprar jogos que não jogamos seja necessariamente um problema a ser corrigido. Mas acho que vale a pena saber o que estamos fazendo quando fazemos isso. Estamos comprando entretenimento, ou estamos comprando a fantasia de um tempo livre que talvez nunca venha?

Estamos alimentando uma paixão, ou apenas o reflexo condicionado de uma loja que aprendeu a apertar nossos botões melhor do que qualquer jogo?

Da próxima vez que aquela promoção aparecer — e ela vai aparecer — talvez valha a pena pausar antes do clique e perguntar: eu quero jogar isto, ou só quero ter comprado? São coisas diferentes. E o meu cemitério de mais de 200 ícones é a prova de que, durante anos, eu confundi as duas.

Mas, convenhamos, o próximo desconto de 90% vai me pegar de novo… 🙂

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