Por Um Punhado De Bits: À Lá Venezuela

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Semana passada terminei o texto da coluna com uma provocação levemente apocalíptica: “então é melhor começarmos a estudar como fazer jogos à lá Venezuela”, o que me rendeu duas DMs questionando, sarcasticamente, se eu sabia do que estava falando. Para falar a verdade, não sabia. Quero dizer, baseei meu comentário apenas, e tão somente na visão de que a Venezuela vive um momento econômico bem ruim para a sua população. E não adianta questionar isso.

Convenhamos, quando um país começa a exportar gente em vez de café, carne ou suco de laranja, é porque o jogo socioeconômico está ficando feio. E aparentemente (bata três vezes na madeira) estamos indo nessa mesma direção distópica bolivariana. Todo mundo vai sentir esses efeitos tenebrosos? Não, nem de longe. Para muitos, serão dias normais, como se nada estivesse acontecendo. Apenas a chiadeira normal na internet.

Sei bem como é esse lance de flertar com o abismo econômico. Passei por três planos arrasa quarteirão e até hoje não sei muito bem como sobrevivi a eles. Mas sei que uma boa parte daquilo que planejei para a minha vida profissional foi pro ralo, soterrado em decisões malucas e insanas de governantes atabalhoados (qualquer semelhança não é mera coincidência).

Mas, voltando ao ponto central, como seria desenvolver games lá na Venezuela? Numa rápida pesquisa no Google encontrei algumas coisas interessantes. A primeira delas foi sobre um jogo supostamente “educativo”, criado em 2015 com total apoio ($$$) do governo Nicolás Maduro, cujo personagem principal é o “Super Bolívar“.

Queremos apresentar o Super Bolívar, um super-herói que vai vencer o Homem-Aranha (risos). Vai percorrendo as oito províncias para libertar a pátria”, disse um dos criadores do game, Ray Acedo, do Instituto Nacional de Capacitação e Educação Socialista (Inces)“. Segue o link da matéria original no site do G1, se tiver interesse de ler o texto todo.

É o próprio Maduro quem diz: “…se trata de uma proposta muito positiva, porque permite que as crianças possam se aproximar de um herói de carne e osso“. Não encontrei o jogo na Steam e nenhuma outra menção a ele, fora desse período de marketing de lançamento.

Uma segunda menção a games indie venezuelanos é de 2017, sobre um jogo de terror 3D criado por Emmanuel Ramos, chamado Into De Gloom. Independentemente da qualidade técnica, uma curiosidade pra lá de reveladora é o fato de que este game está na Steam e, de acordo com o SteamSpy, orbita na faixa de 50k a 100k owners, ao preço atual de R$ 20,49. Um feito e tanto se comparado inclusive com a nossa pujante indústria de games. E tome curiosidade: embora a matéria do site Red Bull seja de 2017, o jogo entrou em early access em abril de 2015, portanto pouco antes do Super Bolívar “tentar salvar a pátria” – embora ainda não tenha conseguido tal feito.

Na matéria, o jovem Emmanuel (na época com 21 anos) fala sobre sua vida como dev e dos percalços encontrados no meio do caminho. Mas o que quero saber mesmo é sobre resultados e comprometimento e ele não decepciona:

Historicamente falando, nós somos um país que pensa da seguinte forma: arte não dá dinheiro, então vá arranjar um trabalho de verdade. Basicamente, nós apenas exportamos petróleo e não somos um país que investe em inovação, tecnologia e coisas assim. Se você disser a alguém por aqui que faz jogos, a pessoa sequer entenderia até você dizer que ganha em dólares.

Este é um ambiente isolado para um desenvolvedor independente e, na maioria dos casos, aprender a fazer jogos é apenas justificado se você for uma criança. Então acho que tive sorte começando cedo, já que, de outra forma, como um adulto, não seria fácil para começar nessa área, considerando que estaria trabalhando em qualquer outra coisa.

A principal e mais óbvia dificuldade é a renda. Felizmente, meus pais acreditaram em mim e apoiaram o processo. Agora, depois do Steam, sou tecnicamente milionário por aqui, devido a uma crise financeira horrível e a inflação, onde um dólar americano vale um monte de dinheiro. Poderíamos dizer que o valor real de um salário mensal aqui é abaixo de US$ 25, portanto dinheiro não é um problema para mim no momento. Era uma dificuldade que eu tinha que se transformou em vantagem. Uma vez que você começa, sente que a Venezuela é um dos países mais fáceis para se manter e se desenvolver – mas estou falando só sobre dinheiro, já que a qualidade de vida aqui é muito baixa. Você tem que aguentar uma fila por aproximadamente uma hora em qualquer mercado para obter os produtos básicos, como leite, devido à escassez. Hoje mesmo eu fiquei numa fila dessas para comprar xampu e desodorante! Pode parecer absurdo, mas é verdade.

Vale a pena a leitura do texto original.

E para finalizar, um lançamento deste ano, no dia 7 de março de 2025 chegou na Steam o game Oyasumii, do estúdio venezuelano Neo Project, pelo preço (em oferta) de R$ 19,97.

Ainda é muito cedo para aparecer no SteamSpy e não encontrei nenhuma matéria sobre ele, na mídia. Apenas alguns comentários no Reddit e na própria Steam. Pra quem quiser ver mais sobre o jogo, segue o link.

Minha conclusão sobre a provocação: parece que desenvolver games na Venezuela não é tão diferente quanto desenvolver aqui no Brasil. O cenário aqui é mais estável (por enquanto) mas as dificuldades estruturais, o abandono estatal e o desprezo crônico pela cultura digital criativa são quase gêmeos siameses. O grande diferencial (ainda) fica mesmo por conta da situação econômica dos dois países, mas…

A boa sacada foi dada pelo Emmanuel: vender em dólares é o grande “barato” que pode deixar qualquer um milionário, a depender da taxa de câmbio. No próximo dia 1 de agosto teremos um vislumbre para onde iremos, quando as taxas do laranjão se tornarem reais, em nossas cabeças.

Mas quer saber? Nenhuma novidade aqui. Nos meses antecedentes ao plano real (1994), todo o mercado produtor já estava cotando os jogos, aqui no Brasil, em dólares. Tudo pra fugir da mega inflação vigente na época.

A lição desse nosso tempo? Tente entender o contexto atual e não seja tão ingênuo quanto aquele ministro que acredita que o breakfast dos americanos, ficando mais caro por conta da alta no café e no suco de laranja, será suficiente para reverter a arapuca onde nos colocaram.

Talvez o setor de games seja um dos poucos a “sobreviver” pós holocausto taxativo, Talvez, porque se nos proibirem de usar GPS, Starlink, backbones americanos ou mesmo licenças Unity e Unreal, teremos que voltar a programar em assembler, como nos velhos e bons tempos (please, isso é só uma piada).

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