Por que o passado parece um lugar melhor?

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A nostalgia como abrigo

Essa semana falamos sobre nostalgia no Encontroverso. Entre lembranças de filmes, músicas, videogames e histórias de infância, surgiu aquela sensação seguida de uma constatação curiosa que muita gente reconhece imediatamente. A impressão de que certas coisas eram melhores no passado. Melhores ou, pelo menos, mais intensas. Depois que o episódio foi gravado, fiquei pensando na conversa e percebi algo curioso. Havia um filme que tratava exatamente desse tema e que eu não citei na gravação: Meia-Noite em Paris, um filme do Woody Allen que causa a sensação que os filmes do Woody Allen sempre tentam causar… e aqui ele faz isso magistralmente. 
No filme, o protagonista Gil (Owen Wilson) vive fascinado pelos anos 1920. Para ele, aquela foi a verdadeira era de ouro da arte, da literatura, da vida intelectual. De maneira quase mágica, ele acaba visitando esse passado que tanto admira. Só que a descoberta mais interessante não está na viagem no tempo em si. Está no que ele encontra quando chega lá. As pessoas daquela época também sentem nostalgia. Só que da geração anterior à deles. A revelação é simples e quase irônica. Cada época acredita que a anterior foi melhor e talvez essa sensação não seja exatamente sobre o passado, mas sobre a forma como lembramos dele.

O passado editado pela memória

A nostalgia funciona como um editor silencioso da memória. Ela seleciona, suaviza, reorganiza. Quando lembramos de uma época distante, raramente revisitamos a experiência completa. O cérebro não abre um arquivo bruto da realidade. Não temos um arquivo de vídeo no nosso HD (entreguei minha idade aqui…) que é reproduzido ao clique duplo. O que temos é uma versão resumida, emocionalmente filtrada e reconstituída por nosso roteiro, direção e edição. Os problemas daquele tempo desaparecem, as preocupações ficam desfocadas e o que sobra são fragmentos agradáveis. Uma música tocando no rádio do carro enquanto fazíamos uma viagem em família… a minha é “Os cegos do castelo” dos Titãs tocando num CD do Acústico MTV em um discman conectado ao som do carro do meu pai enquanto viajava para a casa de praia da Tia Iran em Majorlândia (Beijo, tia! Sei que a senhora lê todos os meus textos!). Um videogame ligado na televisão da sala… aqui eu lembro de jogar “Chopper Command” num clone do Atari que eu tinha, um Supergame da CCE. Uma tarde sem grandes responsabilidades assistindo Sessão da Tarde e comendo “ki-suco” com pão e doce de leite. Não lembramos da fila no banco, da prova difícil na escola, do calor dentro do ônibus, das pendências que resolvemos em cartórios. Lembramos do lanche depois da aula, do jogo que parecia impossível de zerar, do filme que vimos pela primeira vez (Predador é marcante pra mim!).
Você já ligou um videogame antigo esperando reviver exatamente a mesma sensação que teve anos atrás? Às vezes a surpresa é curiosa: o jogo continua bom, mas não é gigantesco como parecia, não é tão difícil (ou tão fácil!), não é tão mágico quanto nos era naquela época. No episódio que gravamos nós levantamos a hipótese de que as telas atuais não transmitem a mesma experiência, mas será que é só isso? A experiência que lembrávamos não estava apenas no cartucho, ela estava em quem éramos naquele momento da vida. A memória não é um arquivo. Ela é uma narrativa e toda narrativa tem edição.

O passado como lugar seguro

Hoje eu disse a um paciente a seguinte frase: “O único lugar onde a ansiedade não existe é no passado!” Ele ficou curioso com a frase e eu lhe expliquei o motivo psicológico e profundo para esse fenômeno. O passado é um território conhecido e, como tal, nós já sabemos o que aconteceu depois e as incertezas que existiam naquele momento foram resolvidas pela história que veio em seguida. O que hoje chamamos de nostalgia é, muitas vezes, a sensação de segurança retrospectiva. Já o presente, esse é cheio de dúvidas. O futuro é imprevisível, o passado não. Ele já aconteceu e não pode mais surpreender. Por isso revisitar uma época antiga pode trazer conforto. É como voltar para um mapa que já conhecemos cada rua, cada esquina… e cada lembrança já tem um desfecho conhecido. Assim, a nostalgia não é apenas saudade, ela também é estabilidade emocional. Talvez por isso tantas obras culturais sejam movidas por esse sentimento. Stranger Things (já falei sobre ela num texto recente…) constrói boa parte da sua atmosfera evocando a cultura dos anos 1980. Jogador Número 1 transforma referências do passado em combustível narrativo, fazendo-nos querer rever o filme para localizar os easter eggs. Em ambos os casos, o que está em jogo não é apenas lembrança, mas o reconhecimento. E assim, o passado vira uma espécie de idioma emocional compartilhado.

Quando a nostalgia vira lente

O problema começa quando essa lente se torna permanente e nós olhamos apenas para trás. O presente começa a parecer pálido, menos interessante, menos intenso e nós passamos a viver como se estivéssemos constantemente comparando a realidade atual com uma versão editada da memória. Meia-Noite em Paris mostra isso com uma elegância curiosa. O protagonista acredita que viver em outra época resolveria seu desconforto com o presente. Mas quando chega lá, descobre algo inesperado. As pessoas daquele tempo também acreditam que a verdadeira era dourada ficou no passado. E assim, a nostalgia se revela um ciclo e cada geração olha para trás procurando uma versão idealizada da vida. Talvez porque o passado seja o único lugar onde a história já terminou…

O conforto da lembrança

Mas a nostalgia não é necessariamente um problema. Eu mesmo sou extremamente nostálgico, como vocês puderam perceber quando descrevi minhas memórias. A nostalgia pode ser uma forma saudável de conexão emocional com nossa própria história. Relembrar momentos bons ajuda a organizar a identidade e as memórias funcionam como marcos que dizem quem fomos, quem somos e como chegamos até aqui.

Checkpoint Final

Talvez a pergunta não seja se o passado era realmente melhor. Talvez a pergunta seja outra.
Quando você sente saudade de uma época da sua vida, está sentindo falta daquele tempo ou da pessoa que você era nele?
E então fica uma última provocação.
Por que o passado parece um lugar melhor?

 

5 thoughts on “Por que o passado parece um lugar melhor?

  1. Ótimo texto.
    Como sempre explorando a fundo as nuancias do dia a dia, nos mostrando o quão importante é as vezes parar e prestar atenção, e até mesmo refletir, nos pequenos momentos da vida.
    Como este, onde entendemos por que buscamos o conforto do passado para servir como base pra enfrentarmos os obstáculos do presente e os desafios desconhecidos do futuro.
    Parabéns pelo texto primo.

  2. Como sempre, texto brilhante. Porém, confesso que gostei da parte do pão com kisuco e doce de leite na sessão da tarde. Bons tempos…

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