Alucinações sempre foram um tema cercado de curiosidade e mistério, tanto no campo da psiquiatria quanto na cultura pop. Em filmes, séries e games, personagens que veem ou ouvem coisas inexistentes despertam fascínio e medo, mas também ajudam a refletir sobre como o cérebro pode nos enganar.
No jogo Hellblade: Senua’s Sacrifice, por exemplo, acompanhamos Senua, uma guerreira celta que lida com vozes constantes em sua mente. Essas vozes comentam, criticam, incentivam ou atrapalham cada passo que ela dá. O jogador passa a experimentar, em primeira pessoa, algo próximo do que uma pessoa com alucinações auditivas pode sentir. Essa é uma das representações mais realistas e impactantes desse fenômeno nos games. Sempre digo aos meus alunos que, se tiverem a oportunidade de jogá-lo com fones de ouvidos, façam-no. Seria o mais próximo que eles experimentariam de como o paciente se sente ao sofrer de alucinações.
Mas o que são alucinações?
Alucinações são percepções sem objeto. Lembra dos cinco sentidos que aprendemos quando ainda estávamos no maternal (hoje ensino infantil)? Pois é… é lá que a alteração acontece. Isso significa que a pessoa vê, ouve, sente cheiros, sabores ou toques que parecem reais, mas não têm correspondência com estímulos do ambiente. O cérebro, em situações específicas, “cria” uma experiência sensorial como se fosse verdadeira.
É importante entender que alucinações não são o mesmo que imaginar. Diferente de quando você lembra de uma música ou visualiza uma cena de propósito, as alucinações surgem de forma involuntária, com forte sensação de realidade. O paciente ouve, de fato, a voz que diz estar ouvindo assim como ouve a minha ou a sua voz se falarmos com ele.
Como elas surgem?
Podem estar presentes em diversos quadros, como esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão com sintomas psicóticos, abstinência de substâncias, intoxicação por drogas ou até doenças neurológicas como epilepsia do lobo temporal e doença de Parkinson. Também podem ocorrer em estados de privação extrema de sono.
A explicação envolve alterações nas áreas cerebrais responsáveis pelo processamento sensorial. Quando a atividade elétrica ou química nessas regiões se desregula, o cérebro pode interpretar sinais internos como se fossem externos. O cérebro da gente não capta ondas sonoras, quem faz isso é a membrana timpânica. O cérebro somente decodifica a mensagem recebida pelo nervo auditivo e traduz aquilo como um som. Imagine o que aconteceria se ele fizesse essa decodificação sem haver o estímulo sonoro presente. Imaginou? Pois é… é assim a alucinação.
É como se uma Fogueira de Gondor fosse acendida no meio do caminho sem haver um perigo ou uma fogueira anterior que justificasse aquele acendimento. Rohan receberia a informação mas o motivo para a informação não existiu de fato. (Se você entendeu a referência, parabéns!)
Diferença para pseudoalucinação
A pseudoalucinação também é uma percepção sem objeto, mas a pessoa tem consciência de que aquilo não é real. Ela ouve uma voz ou vê uma imagem, mas percebe que vem “de dentro da mente”, sem a mesma força de realidade das alucinações verdadeiras.
Diferença para ilusão
A ilusão é uma percepção deformada de algo real. Um exemplo é quando, no escuro, você confunde uma árvore com uma pessoa. O estímulo existe, mas o cérebro interpreta de forma equivocada. Em muitas obras de terror, como Silent Hill, a atmosfera nebulosa e distorcida usa esse recurso para aumentar a sensação de medo.
Diferença para alucinose
A alucinose é uma condição em que a pessoa tem alucinações, mas mantém crítica e clareza de consciência. Um exemplo clássico é a alucinose alcoólica, em que o indivíduo ouve vozes, mas sabe que se trata de um fenômeno patológico, sem perder a noção da realidade.
Checkpoint final
Na vida real, alucinações não devem ser encaradas como “poderes místicos” ou apenas metáforas criativas, mas como experiências clínicas que precisam de atenção. Jogos como Hellblade ajudam a aumentar a empatia e a compreensão, mas também lembram que viver com isso não é simples.
Se você ou alguém próximo tem experiências semelhantes, procure ajuda profissional. Psicólogos e psiquiatras podem avaliar de forma adequada, identificar causas e indicar o tratamento mais apropriado. Assim como Senua enfrenta sua própria jornada, ninguém precisa escalar essa montanha sozinho.

José Maria Santiago, médico psiquiatra e professor de medicina, é um explorador da mente humana e um aficionado por cultura pop. Entre aulas e consultas, também encontra tempo para debater filmes, séries e games no seu podcast, o Encontroverso, onde o cérebro e o entretenimento se encontram. Especialista em fazer a ciência caber numa conversa de café e em emitir opiniões baseadas em certezas que não tem, acredita que o equilíbrio está entre a compreensão profunda da psique e uma maratona de filmes ruins bem escolhida!