Às vezes nós esquecemos de coisas regulares

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Sim! Hoje é quarta!

Ontem foi terça-feira… o dia que normalmente eu posto meus textos aqui na coluna. Faço isso regularmente! Quer dizer, fazia… ontem eu esqueci!

Às vezes coisas regulares nos passam despercebidas. Só me atentei para isso quando já estava prestes a dormir… e então percebi que eu não tinha pensado num tema para o texto da semana.

Às vezes coisas regulares nos passam despercebidas… pois é… eu sei que eu já disse isso, mas isso me fez lembrar de um conto que escrevi há vinte e quatro anos. Lembro de ter sido muito elogiado pelo meu professor de redação à época. Ele se chamava Vinícius Chaves. Espero que ele esteja bem e que ele possa ler esse texto um dia. Você o conhece? Mostra pra ele! Sempre gostei da forma como ele me desafiava a escrever, o que fez com que eu despertasse o gosto pela escrita e pela leitura, mas principalmente por aprender a ler o que não estava escrito.

Decidi trazer essa semana o meu conto… ele não tinha título naquela época… nem tinha celulares filmando a cena. Essa parte foi adaptada. Acho que fiz um remake do meu conto…

Vou chamá-lo de:

Uma segunda-feira qualquer

Era uma segunda-feira, daquelas como são todas as segundas-feiras. Mas naquela rua, a segunda-feira trazia algo diferente. Ao saírem de suas casas para começar o dia, como faziam todas as segundas-feiras quaisquer, os moradores se depararam com uma cena peculiar. Estacionados (estacionados?), no meio da rua, havia dois ônibus, um em cima do outro, o de cima virado com o teto para baixo, como um besouro cascudo que fica com a barriga para cima e não consegue desvirar… seus tetos estavam perfeitamente alinhados. Aos poucos o burburinho acordou toda a vizinhança que saiu para ver o que estava acontecendo…

Primeiro vieram os olhares desconfiados por trás das cortinas. Depois, as portas se abriram uma a uma e logo havia gente de chinelo na calçada, gente com escova de dentes na boca, gente ainda segurando a xícara de café.

— Como foi que isso aconteceu?

— Não faço a menor ideia! – Respondeu o vizinho, já com o celular levantado, gravando tudo pra postar nas redes sociais.

Os ônibus não traziam marcas aparentes de colisão. O de baixo estava perfeitamente apoiado sobre as quatro rodas, como se tivesse estacionado ali normalmente. O de cima estava invertido, teto contra teto, como se alguém os tivesse colocado um sobre o outro com cuidado cirúrgico.

— Isso não é possível… – murmurou um rapaz enquanto dava uma volta ao redor da cena.

Alguém disse que tinha ouvido um barulho na madrugada. Outro jurou que não ouvira nada. Um terceiro garantiu que aquilo só podia ser pegadinha da internet.

Em menos de meia hora chegaram os primeiros carros de reportagem. Uma repórter de blazer azul apareceu ajeitando o microfone enquanto o cinegrafista ajustava o tripé.

— Estamos aqui em um bairro residencial onde moradores acordaram com essa cena que você pode ver logo atrás de mim — disse ela, olhando para a câmera enquanto atrás dela algumas pessoas acenavam discretamente.

Logo depois chegaram os bombeiros. Caminhões vermelhos ocuparam metade da rua. Homens de capacete começaram a avaliar a situação, andando em volta dos ônibus, olhando para cima, coçando o queixo.

— Estrutura aparentemente estável – comentou um deles.

— Aparentemente – respondeu outro, olhando para o ônibus invertido como quem encara um quebra-cabeça que perdeu algumas peças.

Curiosos se multiplicaram. Alguns subiram em muros. Crianças sentaram na calçada. Alguém trouxe uma cadeira de plástico para observar melhor. Será que ele deveria trazer a churrasqueira para a calçada? Melhor não! Alguém poderia achar absurda a ideia de um churrasco em plena segunda-feira…

Por volta das nove da manhã chegou o guindaste.

O veículo enorme parou ao lado dos ônibus e estendeu o braço metálico lentamente, como um animal acordando. Os operadores prenderam cabos grossos na carcaça do ônibus de cima. O bairro inteiro pareceu prender a respiração.

— Vai levantar – sussurrou alguém.

O guindaste começou a puxar. O ônibus invertido subiu devagar, rangendo. O metal estalava sob tensão. Por um instante pareceu que tudo poderia desabar, mas não desabou. Centímetro por centímetro, o ônibus foi separado do outro e suspenso no ar.

Alguns moradores aplaudiram.

— Impressionante – disse a repórter agora falando para a câmera.

O ônibus foi colocado sobre um reboque e levado embora. Em seguida outro caminhão chegou para rebocar o ônibus que havia ficado embaixo.

Sem os dois veículos empilhados, a rua voltou a parecer apenas uma rua comum e aos poucos as pessoas começaram a se dispersar. A senhora voltou para dentro de casa para terminar o café. O rapaz desligou a gravação no celular. As crianças foram chamadas pelos pais. As equipes de televisão desmontaram os equipamentos. O churrasco ficou para o sábado… sábado é dia de fazer churrasco!

E a rua retomou o ritmo normal de uma segunda-feira.

O caminhão de reboque engatou o ônibus que estava embaixo e começou a puxá-lo lentamente.

Quando o veículo finalmente saiu do lugar, revelando o pedaço de asfalto que estava escondido sob ele, um cachorro que dormia na sombra dos veículos alheio a tudo e a todos abriu os olhos, levantou a cabeça, piscou duas vezes, como se estivesse tentando entender por que o teto que fazia sombra tinha desaparecido e levantou-se devagar. Coçou a orelha com a pata traseira e depois caminhou alguns passos pela rua silenciosa, olhou em volta, escolheu um novo pedaço de sombra perto de um muro e se deitou novamente.

Em poucos minutos, voltou a dormir.

Checkpoint final

Por que eu precisaria dar um checkpoint final a este texto dessa semana? Ele nem saiu na terça! Prefiro que você pense no seu checkpoint final para ele. Queria até saber o que você achou do texto, a propósito… será que meu eu aos 18 anos imaginaria que vinte e quatro anos depois ainda lembraria dessa história para escrevê-la numa quarta que sucedeu uma terça em que esqueci uma coisa regular?

Você conseguiu ler o que não está escrito?

1 thought on “Às vezes nós esquecemos de coisas regulares

  1. Adorei os ônibus invertidos. Com certeza eu teria feito um churrasco na segunda-feira e abriria uma coca-cola zero bem gelada, só para assistir a tudo isso.
    Tudo bem, vou fazer o churrasco no sábado também.

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