Aplica-se à hoje famosa Inteligência Artificial (ou IA para os íntimos) a mesma base de raciocínio que aplicamos a uma bola de cristal, daquelas que a gente pode ver ou prever coisas e acontecimentos presentes, passados ou futuros.
Você tem uma? Se sim, a pergunta seguinte seria: ela funciona? Se sim, a próxima pergunta poderia ser: o que ela está mostrando sobre a indústria de games para daqui uns 10 anos, por exemplo? O problema não é obter uma resposta, pois até mesmo os desavisados conseguem responder a esta pergunta, mas o que fazer com ela.
Mais cedo, lendo as novidades noticiosas pela internet, deparei com uma declaração do Bill Gates na qual ele “profetisa” que em 10 anos a IA vai substituir médicos e professores. Só faltou dizer que os game designers estarão no pacote também. Lembrando que é o mesmo Bill Gates que disse, em seu livro anos atrás, que a internet era só uma modinha de universitários desocupados e que ia “passar” logo.
Não vou questionar a eficácia da bola de cristal dele, até porque ele tem grana pra comprar das boas, daquelas que pelo menos iluminam em RGB, mas sim a avaliação que ele faz do uso e da aplicação da IA.
Por tudo que já vi e experimentei dela, acredito que muita gente vai “perder” o emprego e ser substituída por algo que ainda não é de fato uma inteligência, mas simula uma muito bem. Porém emprego é algo transitório mesmo, afinal, prevalece a pergunta: você quer trabalhar ou ter um emprego?
E vou mais longe: será ótimo que boa parte dos médicos e professores sejam substituídos pela IA. Justamente aqueles que atendem o paciente ou alunos de forma indiferente, mal olhando nos olhos enquanto algo é relatado e que se limitam a dizer “é uma virose” ou “estude mais”.
Ao longo do meu percurso estudantil, da alfabetização à universidade, topei com professores que podiam ser trocados por um cabo de vassoura que não faria a menor diferença. Mas também vi salas lotadas e vazando alunos pelo ladrão só pra assistir a aula de um determinado professor. Esses eu duvido que a IA vá substituir um dia.
O mesmo vale para os médicos: indo do particular ao SUS, tem sempre aquele que te escuta e aquele que te trata como mais uma obrigação a ser liberada o quanto antes.
E quanto aos desenvolvedores de games digitais? Programar, elaborar artes, animação e sons não é algo tão cabuloso assim que realmente só os humanos consigam fazer. Seremos todos substituídos por uma IA game designer de ponta ou apenas teremos uma ferramenta que fica, a cada ciclo evolutivo, mais potente e imprescindível?
Vi e testemunhei, ao longo da minha vida, profissões que simplesmente desapareceram e nem por isso o mundo acabou. As pessoas se adaptam aos tempos, senão por bem, por mal também serve. O fato é que a evolução da IA nem está mais batendo à nossa porta, pois já adentrou o recinto e veio pra ficar. Não adianta essa estridência toda de alguns que querem inclusive legislar sobre ela. Esses também serão substituídos em breve, muito breve.
E se você acha que tudo isso é uma grande novidade, pesquise sobre o Dendral, um experimento médico, famoso nos anos 60 que visava estudar, via computador, a formação e descoberta de hipóteses na ciência. Já na época se cogitava: e se o Dendral responder a uma pergunta sobre a cura do câncer, com algo como “corte o dedão do paciente”? Se aceitarmos isso e se de fato der certo, todo o corpo médico passa a ser dispensável? Se não aplicarmos a “cura”, então pra que gastamos rios de dinheiro com o projeto? Ou seja, as respostas precisam de mentes humanas naturais para serem interpretadas e compreendidas.
A titulo de experiência, perguntei ao ChatGPT como será a criação de games daqui a 10 anos? A resposta me pareceu politicamente correta, bem em cima do muro:
“Daqui a 10 anos, a criação de games será radicalmente diferente, impulsionada por avanços em inteligência artificial, realidade virtual/aumentada, computação em nuvem e novas formas de interação.”
Como no Dendral, a gente não precisava ter gasto fortunas em pesquisa de IA, nem ficar tocando o terror em categorias profissionais por uma resposta dessas. Qualquer um de nós poderia ter dito isso, só olhando na nossa bola de cristal que, além de ser fabricada na China, é totalmente embaçada ao dar as respostas.
Fica aqui o conselho de um velho game designer, parodiando uma certa sinistra da cultura: relaxa e goza. Aproveita e pergunte ai pro seu Grok o que ele acha disso tudo. Duvido que ele responda com algo como: “faça jogos mais do mesmo, que o sucesso estará garantido”.
Então, se quiser criticar, elogiar, xingar, falar palavras de incentivo, mandar pix pra ajudar na aposentadoria, etc, o canal mais eficiente é o velho e surrado e-mail: renato@tilt.net. Sinta-se livre pra descer o sarrafo porque nesta altura do campeonato, meu amigo, eu já sofri todas as críticas positivas e negativas que um gamedev pode sofrer.
Game Designer formado em Desenho Industrial e Comunicação Visual, em 1981 pela PUC/RJ. Foi diretor técnico e editor da revista Micro Sistemas de 1983 até 1995. Produtor do site TILT online desde 1996. Autor de vários jogos para computador, tais como Amazônia, Serra Pelada, Aeroporto 83, Angra-I, Xingu, Resgate na Serra do Roncador, Pedra Negra, e muitos outros. Criador das ferramentas de produção e programação de jogos: Sistema Editor de Adventures, Zeus, Micro Aventuras e Projeto Gênesis.