Dias atrás Raul Tabajara, game designer hiper mega criativo, artista gráfico de mão cheia e amigo de longa data, fez um post no face sobre nomes de jogos br em inglês. O post começa assim:
“Vi muito na Gamescom Latam, o Game Designer do jogo em exposição dizendo ‘Queremos valorizar a cultura brasileira colocando essas coisas aqui’ e aí você olha pro nome do jogo e está lá ‘My game is Americam’???“
Embora o post não tivesse a pretensão de ganhar o mundo, afinal o próprio autor diz que “é só uma reflexão da minha [sua] cabeça“, o assunto propriamente dito nunca foi devidamente estudado, analisado e apresentado (mesmo como TCC) para uma tomada de posição mais objetiva, por parte dos desenvolvedores.
Tendo a concordar (com ressalvas) com uma das teorias desse fenômeno, mencionada no texto original (já descartando aquela que nos rebaixa a meros vira-latas) que dá a entender uma meia verdade: os nomes em inglês facilitariam a venda do jogo no mundo todo. Se for isso, então eu chamo todos os devs que pensam exclusivamente assim de preguiçosos.
Senão vejamos, é obvio que o mercado mundial é muuiiiiitttoooo maior que o mercado br mas essa comparação não pode ser feita dessa forma. Por outro lado, a esmagadora maioria dos jogos, não importa de onde venham, tem opcionalmente nomes em inglês. Daí dois mais dois é igual a quatro, não é? Não necessariamente.
Para atingir o mercado mundial, até acredito que um nome em inglês facilite as coisas mas sem cair na esparrela de achar que o mundo todo “fala” inglês. Seria trabalhoso ter títulos localizados para cada país. Seria mesmo? E um título para o mercado br, já que o jogo foi feito aqui e tem a pretensão de “valorizar a cultura brasileira”? Ou isso é apenas conversa pra boi dormir (sleep talk)?
Desde quando criei o jogo Serra Pelada, em 1985, jamais passou pela minha cabeça chamá-lo de Naked Mountains. Simplesmente não funcionaria, nem aqui e nem lá fora. Já o recente Ouro Maldito poderia ser chamado de Damn Gold, mas eu sinceramente não saberia avaliar se ambos os nomes tem a mesma carga interpretativa no mercado br ou como um destaque para a cultura brasileira. Fica a dúvida e nesse caso, dou a vez ao título em pt-br simplesmente porque é o público que eu quero atingir. A única concessão que faço é no caso do título em inglês ser mais impactante (ou conhecido) que o seu correspondente em português.
Levando em conta essas considerações, fico com a versão de que, dependendo do nome, não faz mal nenhum tanto ao mercado mundial, quanto ao mercado brasileiro, que ele esteja em inglês. Sem exageros e nem forçadas de barra, obviamente.
A segunda teoria tratada no texto diz algo como “valorizamos mais palavras em inglês por questões de estética sonora em detrimento de uma comunicação mais efetiva” e isso poderia ser visto em filmes também. Não sei se filmes são bons exemplos. O primeiro que me vem à mente é Blow-Up, que no Brasil recebeu o nome de “Depois Daquele Beijo”. Que raios de título é esse? Em Portugal o nome foi “História de um Fotógrafo”. Nenhum dos dois tem o mesmo impacto e relevância que Blow-Up, mesmo no Brasil.
A coleção de equívocos cinematográficos não para só nesse exemplo. Lembro apropriadamente de “O Nome do Jogo”, filmão de 1995 com um time de primeira, cujo nome gringo original é Get Shorty (ou algo como “Pega Leve”, que seria um nome br muito melhor).
Enfim, podemos bater o martelo em “cada caso é um caso” ou no popular uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Só pra não dizer que não falei dos livros, você prefere “Le Petit Prince” ou “O Pequeno Príncipe”? Ambos de Antoine de Saint-Exupéry, que nem brasileiro era.
O que não cabe nessa discussão é forçar a barra na representatividade, comprometer a interpretação, ou como prefere Raul Tabajara, prejudicar a comunicação, e no final ficar choramingando pelos cantos que o mercado brasileiro ou os consumidores brasileiros não compram jogos. Para esses deixo a afirmação: não compram os seus jogos. Donde concluo que a afirmação de que o mercado br é pequeno não cola, não explica e só serve como desculpa esfarrapada.
Até o dia no qual um estudo sério, factível e isento demonstre o quanto o nome do jogo ganha ou perde, tanto no mercado br quanto no mercado mundial, ficarei com o meu achismo predileto nesse tema: para ter relevância no mercado br não basta ser brasileiro, tem que parecer brasileiro também.
Em tempo: o post original pode ser lido no perfil do Raul, no facebook, além dos comentários que já apareceram por lá. O link é: https://www.facebook.com/raultabajaravidigal
Então, se quiser criticar, elogiar, xingar, falar palavras de incentivo, mandar pix pra ajudar na aposentadoria, etc, o canal mais eficiente é o velho e surrado e-mail: renato@tilt.net. Sinta-se livre pra descer o sarrafo porque nesta altura do campeonato, meu amigo, eu já sofri todas as críticas positivas e negativas que um gamedev pode sofrer.
Imagem: Arte da palestra Cultura Brasileira para Indie Games
Game Designer formado em Desenho Industrial e Comunicação Visual, em 1981 pela PUC/RJ. Foi diretor técnico e editor da revista Micro Sistemas de 1983 até 1995. Produtor do site TILT online desde 1996. Autor de vários jogos para computador, tais como Amazônia, Serra Pelada, Aeroporto 83, Angra-I, Xingu, Resgate na Serra do Roncador, Pedra Negra, e muitos outros. Criador das ferramentas de produção e programação de jogos: Sistema Editor de Adventures, Zeus, Micro Aventuras e Projeto Gênesis.