Por Um Punhado De Bits: Um Edital Para Chamar De Seu

Renato Degiovani Últimas notícias
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Durante muitos anos (uns 40 mais ou menos) trabalhei sob a lei do deadline. Para quem não conhece, o conceito de deadline é utilizado com frequência nas redações de meios de comunicação em relação ao prazo de entrega de trabalhos ou conteúdos. Mas na maior parte desses 40 anos, o angustiante deadline foi imposto por mim mesmo, como uma barreira da qual não poderia ultrapassar. Algo como: até o dia tal o jogo deve estar pronto para render alguma coisa, mesmo que indiretamente.

Nesta altura do campeonato, com o burro amarrado na sombra, resolvi de uns anos para cá flexibilizar esse lance de deadline: se der, deu; se não der, paciência – ninguém vai morrer por causa disso. A diferença entre esses dois tempos para mim é que o resultado comercial de um jogo já não tem mais a mesma importância que tinha nas primeiras quatro décadas, ou seja, nos anos iniciais a engrenagem que eu desenvolvi precisava ser constantemente alimentada por resultados para continuar funcionando.

Mas não é sobre isso o tema dessa coluna. Minha curiosidade recai sobre essa forma de trabalhar: sem obrigação de cumprir um objetivo. Sem um deadline, meio tipo caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento (como diz a música Alegria Alegria do Caetano Veloso). Deve ser assim também quando a gente tem um financiamento a fundo perdido, dado por um edital ou lei qualquer, vindo de uma das múltiplas esferas de governo.

Você tem o “fomento” como gostam de dizer por ai. Tem os recursos para custear o trabalho, pagar todas as contas e assim poder trabalhar em total paz, sem pressões financeiras tolhendo a sua criatividade. Isso deve ser o paraíso na terra, principalmente no comecinho da carreira, quando a experiência ainda não deu frutos mas a certeza de possuir as capacidades envolvidas é absurdamente forte. Eu sei como é isso porque também já fui jovem.

É o caso, por exemplo, da Lei Rouanet cujo decreto de regulamentação de 2023, incluiu jogos eletrônicos como mais uma forma artística amparada pela lei (antes mesmo do marco legal dos games passar pelos trâmites da aprovação). No site do governo tem um detalhamento de como funciona a lei de captação, como funciona o processo de seleção e o de fiscalização dos gastos (pelo menos isso), depois de tudo aprovado.

Aparentemente não há uma obrigação de resultados, no final dos procedimentos e nem um deadline após o qual alguma consequência possa ser aplicada. No papel soa como a oitava maravilha do mundo: fazer o joguinho que quiser, com tudo pago (inclusive o custo de captar o din din), sem a obrigação de alguém jogá-lo no final das contas.

Posso estar errado quanto a configuração da Rouanet? Claro que posso, então que o gov.br explique melhor aquele cenário lindo que eles descrevem como sendo a realidade das coisas.

No caso dos shows de artistas, peças de teatro ou comícios de primeiro de maio, a gente tem no final o evento em si mesmo. Dando audiência ou não, ele acontece e portanto o “fomento” cumpriu o seu propósito, ainda que sem julgamento do mérito e sem necessidade do dia seguinte. Em produções como filmes e jogos, o objetivo final é ter um produto que, quase sempre, nem vai precisar de resultados palpáveis na sequência, já que todas as despesas foram pagas e o produtor não precisa mais correr atrás do consumidor final. Mamão com açúcar (e que se dane a glicemia).

A questão aqui não é debater se deveria existir uma peneira mais rigorosa ou um objetivo mais explícito, mas sim se isso realmente impulsiona a indústria que se quer impulsionar. Claro que a indústria de viver de edital vai muito bem obrigado, mas e a verdadeira indústria? Aquela que precisa muito, mas muito mais do que simplesmente os gastos e despesas já resolvidos. Como fica? Afinal, experiência a gente não compra com dinheiro de edital.

Quando olhamos a produção audiovisual brasileira percebemos que hoje ela concorre (mas anda perdendo) com produções turcas, coreanas e até mesmo produções nórdicas. Nem no ramo das novelas estamos mais no topo da cadeia alimentar, com emissoras colecionando flops atrás de flops. Não é à toa que inventaram o PL da Globo para tentar salvar pelo menos uma delas.

Voltando ao fomento: entendo o lance de “incentivar” a indústria a se desenvolver, mas não acredito muito que ela fique toda cheia de entusiasmo quando se retira dela a principal razão de ser, que é obter um resultado em função de todo o esforço, preocupação e noites mal dormidas, que as incertezas de sucesso acarretam. Se eu sei que, no final das contas, não vai sobrar nenhuma conta pra pagar, qual é o fomento que sobra? Individualmente, para o desenvolvedor, é tudo de bom, mas no contexto de termos uma indústria, qual é de fato a vantagem disso?

E por que cargas d´água alguém pode achar que a lógica compu celestial da falta de grana ser o maior de todos os problemas, no desenvolvimento de um game?

A indústria de jogos brasileira, por ser tratada como irrelevante até mesmo no mercado nacional, não sofre tanto escrutínio das grandes mídias quanto as outras formas de produção artístico/cultural. Se isso é bom ou ruim eu não sei avaliar com precisão, mas me parece que o Caetano Veloso tinha um modo bem legal de viver a vida, lá no longínquo ano de 1967:

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor

Eu vou
Por que não? Por que não?

Então, se quiser criticar, elogiar, xingar, falar palavras de incentivo, mandar pix pra ajudar na aposentadoria, etc, o canal mais eficiente é o velho e surrado e-mail: renato@tilt.net. Sinta-se livre pra descer o sarrafo porque nesta altura do campeonato, meu amigo, eu já sofri todas as críticas positivas e negativas que um gamedev pode sofrer.

Imagem: equipe Quebrando o Controle

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