Déjà vu e Jamais vu, quando a “falha na Matrix” (ou na mente) prega peças na percepção

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Quase todo mundo já viveu a estranha sensação de entrar em um lugar pela primeira vez e jurar que já esteve ali antes. Esse é o déjà vu, termo francês que significa “já visto”. Pesquisadores da Universidade de St. Andrews estimam que até 97% das pessoas já tiveram pelo menos um episódio desse tipo na vida, e em muitos casos ele se repete ao longo dos anos.

O cinema eternizou o conceito em Matrix. Quando Neo vê um gato preto passando duas vezes, comenta “déjà vu” e logo descobre que aquilo era um bug no sistema. A ficção tratou como falha da realidade, mas a ciência vê como um “glitch” do cérebro. Josef Spatt, neurologista austríaco, propôs que o déjà vu acontece quando o sistema de memória de reconhecimento, ligado ao giro parahipocampal, é ativado de forma isolada. Em outras palavras, o cérebro rotula o momento presente como familiar, mesmo sem existir uma lembrança real correspondente. É como se a mente apertasse um atalho errado e enviasse uma falsa notificação de memória.

O neurologista francês Philippe Bartolomei e sua equipe mostraram, em estudos com pacientes com epilepsia, que estimular eletricamente regiões como o hipocampo e o córtex entorrinal pode desencadear episódios de déjà vu. Já Milan Brázdil, pesquisador da República Tcheca, observou que indivíduos que relatavam essa experiência com frequência apresentavam diferenças anatômicas, como alterações no volume de substância cinzenta em áreas do lobo temporal. Essas descobertas reforçam a ideia de que o déjà vu nasce de um descompasso momentâneo entre os sistemas de percepção e memória.

Um outro termo da mesma “família” é o oposto do déjà vu, o jamais vu, “nunca visto”. Ele acontece quando algo comum e banal de repente parece completamente estranho. Imagine escrever várias vezes uma palavra simples, como “porta”, e de repente ela perde o sentido, como se fosse uma sequência de letras sem lógica. Esse fenômeno também já foi associado a fadiga mental intensa, mas pode aparecer em quadros neurológicos como epilepsia do lobo temporal.

Existe ainda o presque vu, o “quase visto”. É aquela sensação de que a palavra está na ponta da língua, prestes a surgir, mas não vem. Outro fenômeno é o déjà vécu, o “já vivido”, quando a sensação não é apenas de familiaridade, mas de reviver uma experiência inteira, como se o tempo tivesse se repetido.

Bošnjak Pašić e colaboradores lembram que, apesar de intrigantes, esses fenômenos não são sinais de doença na maioria das vezes. Eles aparecem como janelas para entendermos como o cérebro lida com a memória e a percepção, e como erros eventuais desse sistema. Spatt, por sua vez, acrescenta que o déjà vu em pessoas saudáveis pode ser comparado a um efeito colateral da forma como o cérebro consolida memórias durante o sono, quando há reconfigurações temporárias nas conexões entre memória e percepção.

Déjà vu e jamais vu inspiraram literatura, poesia e cinema, mas na clínica podem ser pistas importantes. Quando ocorrem de forma muito frequente ou associados a sintomas como convulsões, perdas de memória ou confusão mental, podem indicar doenças neurológicas como epilepsia do lobo temporal.

Checkpoint final

A mente não é um gravador perfeito da realidade, mas um editor criativo que, de vez em quando, erra nos cortes ou insere seus próprios ‘takes’. Se essas sensações se tornarem recorrentes e causarem preocupação, é fundamental procurar avaliação médica. Afinal, nem sempre o bug está na Matrix. Às vezes, é o cérebro pedindo atenção.

 

As referências bibliográficas utilizadas neste texto são:

Bartolomei F, Barbeau EJ, Nguyen T, McGonigal A, Régis J, Chauvel P, Wendling F. Rhinal-hippocampal interactions during déjà vu. Clin Neurophysiol. 2012 Mar;123(3):489-95. doi: 10.1016/j.clinph.2011.08.012. Epub 2011 Sep 15. PMID: 21924679.

Bošnjak Pašić M, Horvat Velić E, Fotak L, Pašić H, Srkalović Imširagić A, Milat D, Šarac H, Bjedov S, Petelin GadŽe Ž. Many Faces of Déjà Vu: a Narrative Review. Psychiatr Danub. 2018 Mar;30(1):21-25. doi: 10.24869/psyd.2018.21. PMID: 29546854.

Brázdil M, Mareček R, Urbánek T, Kašpárek T, Mikl M, Rektor I, Zeman A. Unveiling the mystery of déjà vu: the structural anatomy of déjà vu. Cortex. 2012 Oct;48(9):1240-3. doi: 10.1016/j.cortex.2012.03.004. Epub 2012 Mar 14. PMID: 22503281.

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Spatt J. Déjà vu: possible parahippocampal mechanisms. J Neuropsychiatry Clin Neurosci. 2002 Winter;14(1):6-10. doi: 10.1176/jnp.14.1.6. PMID: 11884648.

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