Existe uma frase que aparece toda vez que a inteligência artificial generativa entra numa discussão, mesmo que seja uma menção indireta: a IA não produz arte. Normalmente ela vem acompanhada de outras afirmações igualmente categóricas. A IA apenas copia; a IA só mistura obras existentes; ela não tem criatividade; ela não sente.
Numa primeira leitura, parecem argumentos fortes, mas essas afirmações estão fora de contexto pois o debate sobre inteligência artificial raramente é técnico. Na maior parte das vezes ele é cultural e mudanças culturais sempre encontram resistência.
Foi assim com a fotografia. Quando ela surgiu, muitos pintores anunciaram que a arte estava morta. Afinal, por que alguém passaria semanas pintando um retrato se uma máquina podia fazê-lo em poucos minutos?
Curiosamente, aconteceu exatamente o contrário: a fotografia libertou a pintura da obrigação de representar fielmente a realidade e muitas correntes artísticas nasceram justamente porque o artista deixou de competir com a câmera. Depois aconteceu algo semelhante com a música eletrônica.
Durante anos sintetizadores foram acusados de produzir música “sem alma”. Hoje fazem parte de praticamente todos os estilos musicais.
O mesmo ocorreu com a computação gráfica, com a fotografia digital, com o Photoshop e até com o cinema sonoro. Toda nova ferramenta importante passa primeiro pelo tribunal da desconfiança.
Agora é a vez da inteligência artificial mas, com diferenças significativas, desta vez a ferramenta “parece” participar do próprio processo criativo e isso mexe diretamente com uma das crenças mais antigas da humanidade: a ideia de que criar é uma característica exclusivamente humana.
Pode ser que esteja justamente aí a verdadeira origem da resistência, porque ninguém se incomodou quando as máquinas passaram a levantar cargas mais pesadas do que nós. Nem quando começaram a fazer cálculos impossíveis. Nem quando derrotaram campeões mundiais de xadrez.
Mas quando passaram a escrever poemas, compor músicas e produzir imagens, muita gente sentiu que uma fronteira havia sido atravessada. Só que existe uma confusão curiosa nesse raciocínio.
As pessoas costumam perguntar se a IA produz arte mas quase nunca perguntam quem tomou as decisões. Quando um diretor de cinema realiza um filme, ele não fabrica as câmeras. Ele não constrói os refletores. Não projeta as lentes. Não compõe toda a trilha sonora. Não costura os figurinos. Mesmo assim ninguém diz que o filme foi criado pela câmera. Porque entendemos intuitivamente que ferramentas não substituem a direção criativa.
Com a IA acontece algo parecido. Uma imagem não nasce porque o computador acordou inspirado numa terça-feira. Ela nasce porque alguém decidiu um tema, um enquadramento, uma iluminação, uma composição, um estilo visual, fez dezenas de ajustes, rejeitou dúzias de resultados e escolheu exatamente aquela versão. A máquina calcula e o ser humano decide.
Sabe onde acontece isso exatamente do mesmo jeito? Na fotografia. A máquina fotográfica não liga sozinha e pensa “hoje vou tirar uma foto memorável”. O fotógrafo sim e ele gasta pelo menos uma meia dúzia de rolos de 35mm, com 36 poses cada e depois de tudo revelado, escolhe a imagem que melhor representa a ideia que ele quer transmitir.
Soa familiar? Pelo menos era assim no século passado, quando fui professor de fotografia e ao mesmo tempo cursava fotojornalismo. Hoje é tudo digital, mas a sequência é a mesma e com a IA nem precisa mais sair de casa ou ter um estúdio para fotografar algo.
“Mas a IA é treinada usando obras de artistas.“
Verdade. E um estudante de pintura aprende observando os mestres da pintura. Um músico estuda os mestres compositores. Um escritor lê os mestres escritores. Um cineasta assiste aos mestres do cinema.
Todo aprendizado humano também acontece sobre referências anteriores o que, diga-se de passagem, foi o que nos trouxe até aqui em termos de evolução técnica e cultural. A diferença está na forma como esse aprendizado é realizado e, principalmente, nas questões jurídicas e éticas envolvendo autorização, remuneração e transparência dos conjuntos de treinamento. É uma discussão importante e ainda longe de um consenso.
Mas ela não responde à questão crucial: a IA produz arte? Talvez a resposta dependa da definição de arte que cada pessoa adota. Se arte exige obrigatoriamente consciência, intenção e experiência subjetiva da própria ferramenta, então não.
Se arte é o resultado de uma intenção criativa humana utilizando uma nova ferramenta de expressão, então talvez a resposta seja outra. E repare que, em nenhum momento, foi a tecnologia que mudou mas sim a definição. E mais importante que tudo: alguém comandou a IA para a direção de um resultado e vale aqui a reflexão: quem de fato é o autor do resultado? A IA? A câmera fotográfica? O pincel?
Talvez exista também um componente mais humano nessa resistência. Criatividade sempre foi vista como um diferencial quase sagrado. Quando uma máquina começa a participar desse território, surge um medo silencioso.
Se qualquer pessoa consegue gerar uma boa ilustração em poucos minutos, o que acontece com quem passou vinte anos aprendendo a desenhar? É uma preocupação legítima, mas talvez ela esteja olhando para o problema pelo lado errado.
A fotografia não acabou com a pintura. O computador não acabou com a matemática. A calculadora não acabou com os engenheiros. O sintetizador não acabou com os pianistas. As ferramentas mudaram. Os profissionais também.
Quem soube utilizá-las passou a produzir mais, experimentar mais e alcançar resultados antes impossíveis. Talvez aconteça exatamente o mesmo com a inteligência artificial. Ela não elimina a necessidade de criatividade. Ela muda o lugar onde essa criatividade acontece: menos tempo executando; mais tempo imaginando; menos esforço mecânico; mais decisões criativas.
No fundo, talvez a frase “IA não produz arte” revele menos sobre a inteligência artificial e mais sobre nós mesmos. Ela mostra nossa dificuldade em aceitar que uma atividade que sempre consideramos exclusivamente humana possa ganhar uma nova ferramenta. Porque, gostemos ou não, a história da tecnologia raramente pergunta se estamos preparados. Ela simplesmente continua avançando.
Daqui a algumas décadas, a discussão deixará de ser se a IA produz arte, da mesma forma que hoje ninguém pergunta se um pincel produz pintura ou se uma câmera produz fotografia. A pergunta passará a ser outra: o que o artista fez com essa ferramenta que ninguém havia imaginado antes?
E mais uma vez (não querendo ser repetitivo mas já sendo): o mundo dos games digitais sempre esteve na vanguarda do uso das novas tecnologias e isso eu assisti da primeira fila. Aprendi desde o começo da era digital que não devemos reclamar nem condenar os recursos colocados à nossa disposição. Então, quando alguém propuser um olhar crítico sobre algo que se valeu da IA, deixe de atirar a pedra da intolerância e tente, pelo menos tente, ser um pouco mais inclusivo.
Até porque, quando alguém diz “a IA não produz arte” meu primeiro pensamento é simplesmente: e daí?
Game Designer formado em Desenho Industrial e Comunicação Visual, em 1981 pela PUC/RJ. Foi diretor técnico e editor da revista Micro Sistemas de 1983 até 1995. Produtor do site TILT online desde 1996. Autor de vários jogos para computador, tais como Amazônia, Serra Pelada, Aeroporto 83, Angra-I, Xingu, Resgate na Serra do Roncador, Pedra Negra, e muitos outros. Criador das ferramentas de produção e programação de jogos: Sistema Editor de Adventures, Zeus, Micro Aventuras e Projeto Gênesis.