De tempos em tempos a indústria de games br se enche de um sentimento difuso de “agora vai”, como se algo importante e arrebatador estivesse para explodir e o sucesso de muitos fadado a acontecer. Desta vez as razões são várias, tipo uma nova legislação para os games, a crença de que o governo vai de fato alavancar iniciativas, um novo hardware revolucionário chegando na área e muitos eventos pre bombando, daqui até o final do ano.
Vai dar certo? Tomara que sim, afinal, quem sou eu pra agourar as esperanças alheias? Apesar de nunca ter visto isso acontecer, ao longo de 40 anos dedicados à causa dos games br, lá no fundo, bem lá no fundo também sou otimista o suficiente para acreditar que “agora vai”. Mas, antes de “irmos”, vamos fazer algumas reflexões sobre recentes acontecimentos, para podermos sentir o chão sob nossos pés.
A ideia por trás de vivermos sob o império das leis implica em que elas sejam elaboradas para dar ordenamento ao que a sociedade já aceita como normas informais. Não parece funcionar muito bem quando elas objetivam forçar a uma mudança comportamental. Quer um exemplo? A pirataria de games, que inundou o mercado br nos anos 80/90 terminou (ou foi levada à insignificância) não por leis de combate a ela mas pelo barateamento das licenças de uso, através de mecanismos de distribuição via internet. Esperar que uma lei resolva por si só problemas que tem mais de décadas é, no mínimo, imprudente.
Parecido a isso ouço, desde minha adolescência nos anos 60, que o governo vai ajudar esse ou aquele setor e o máximo que se consegue disso são alguns amigos ajudados, em detrimento de todo o resto. Se olhar bem, dá pra constatar que a constituição de uma máquina estatal não visa o bem comum e nem mesmo o bem da maioria mas sim o bem do grupo, dentro das regras vigentes de quem é contra e quem é a favor. Não importa aqui a coloração político-partidária dos elementos. Todos são mais do mesmo.
O que diferencia um do outro é o quanto nos iludimos com cada um deles. Fomento à produção indie br é prometido desde o começo do milênio, quando as máquinas arrecadatórias perceberam o potencial latente no mercado. Mesmo assim, todo mundo (ainda) é livre para sentar e esperar pela ajuda do governo, se é que ela virá mesmo algum dia.
Curiosamente, marcas e equipamentos têm como características aglutinar grupos de fãs, mais ou menos abduzidos por ideias que não resistem a um simples escrutínio de lógica. É o caso recente do PC portátil que usa conceitos de apoio ao produtor br como peça de marqueting e de fato angaria defensores, como se realmente isso fosse uma necessidade de sobrevivência de ambos os lados. Talvez até fosse verdade, num mundo paralelo, mas decididamente não é neste que vivemos e esperar que sonhos insanos repercutam a realidade é apenas um exercício de ilusionismo.
Por que faço essas observações “azedas”? Pelo simples fato de que estamos efetivamente entrando no ciclo dos eventos pós pandemia e mesmo que no ano passado já houvesse essa disposição, me parece que “agora a coisa vai”. Aquele medo irracional de morrer ali na esquina, se não ficar trancado em casa, parece ter ficado na história, pra ser contado às próximas gerações talvez como piada.
Um salve então para a Gamescom Latam, por abrir essa temporada em terras brasileiras e que promete ser bem interessante este ano, ainda que a nossa situação financeira não esteja lá essas coisas e o entretenimento costuma ser a primeira atividade abatida, quando as coisas apertam na economia.
Talvez a minha velha e pouco nítida bola de cristal teime em mostrar cenários com mais esperanças de resultados positivos, desde que não se vá com muita sede ao pote (como diria vovó). Ou é apenas a visão embaçada de quem acredita que, de onde menos se espera que saia algo bom, é dali mesmo que não sai nada.
Então, se quiser criticar, elogiar, xingar, falar palavras de incentivo, mandar pix pra ajudar na aposentadoria, etc, o canal mais eficiente é o velho e surrado e-mail: renato@tilt.net. Sinta-se livre pra descer o sarrafo porque nesta altura do campeonato, meu amigo, eu já sofri todas as críticas positivas e negativas que um gamedev pode sofrer.
Imagem: Microsoft Creator | equipe Quebrano o Controle
Game Designer formado em Desenho Industrial e Comunicação Visual, em 1981 pela PUC/RJ. Foi diretor técnico e editor da revista Micro Sistemas de 1983 até 1995. Produtor do site TILT online desde 1996. Autor de vários jogos para computador, tais como Amazônia, Serra Pelada, Aeroporto 83, Angra-I, Xingu, Resgate na Serra do Roncador, Pedra Negra, e muitos outros. Criador das ferramentas de produção e programação de jogos: Sistema Editor de Adventures, Zeus, Micro Aventuras e Projeto Gênesis.