Quanto de alguém precisa desaparecer para você sentir que perdeu?

Artigos Checkpoint Mental Notícias Últimas notícias
Compartilhe

Quando a memória começa a desaparecer

Esse texto, de certa forma, não começou aqui.

Ele nasceu a partir de uma reflexão que escrevi no Encontroverso e que decidi reler… quando o fiz, senti que precisava ser ampliada, aprofundada, reorganizada e trazida para esta coluna.

Em 2020, o filme “Meu Pai” nos entregou uma das representações mais sensíveis da demência no cinema, e a atuação de Anthony Hopkins não é apenas impressionante, ela é “desmoronante” (permitam-me o neoligismo). Há uma cena no filme que dispensa qualquer análise técnica, quando Anthony, personagem que não por coincidência tem o mesmo nome do ator, confuso e vulnerável, chora e diz sentir como se estivesse perdendo suas folhas, como se algo essencial estivesse sendo levado pelo vento, e a enfermeira, com uma delicadeza quase insuportável, o acolhe e diz que irão dar uma volta, que o dia está bonito, que é preciso aproveitar.

E ele aceita.

Como uma criança.

Ali existe algo que ultrapassa o cinema e encosta em uma verdade difícil de encarar… a demência não é apenas uma doença da memória, ela funciona como uma forma silenciosa de luto, uma experiência em que alguém vai embora sem sair do lugar.

O luto que começa antes da perda

Existe algo profundamente desorganizador na demência, porque ela não afeta apenas quem adoece, ela reorganiza também quem está ao redor. A pessoa continua ali, respira, fala, às vezes sorri, mas algo vai se afastando pouco a pouco, sem um momento claro de ruptura, sem um antes e depois bem definido, apenas um processo que se desenrola com o tempo.

Filhos passam a ser estranhos, o lar deixa de ser reconhecido, o passado, que antes era refúgio, transforma-se em um território instável, e quem acompanha isso vive algo difícil de nomear, uma espécie de luto sem despedida, um velório em câmera lenta, onde não se perde a pessoa de uma vez, mas em pequenas partes, ao longo dos dias.

E, ainda assim, o amor existe, o amor persiste, o amor resiste. Amando o que foi, o que resta e até o que já começa a se apagar.

Quando a memória falha, o amor se reorganiza

O que “Meu Pai” mostra com uma sensibilidade rara é que a perda cognitiva não apaga completamente a pessoa, ela a desorganiza e, de certa forma, a reorganiza em outro arranjo. Aquele pai seguro, estruturado, começa a dar lugar a alguém frágil, dependente, assustado, e isso não se resume a comportamento, envolve a forma como aquela pessoa passa a existir no mundo e a maneira como passa a ser reconhecida por quem a ama.

Mas há partes que permanecem. A voz, o olhar, pequenos gestos, a forma de segurar a mão, o jeito de reagir ao toque e, em especial, o sorriso… este nunca muda… e é nesse espaço entre o que foi e o que ainda é que um novo tipo de amor começa a surgir, não como substituição ou negação, mas como reconstrução. Amar, nesse contexto, deixa de estar sustentado apenas na memória compartilhada e passa a se apoiar no presente, no cuidado, na repetição, no reconhecimento que acontece para além das palavras.

Nem toda perda de memória é igual

Se em “Meu Pai” vemos uma forma mais avançada e desorganizada da demência, “Para Sempre Alice”, outro filme espetacular sobre o tema, apresenta-nos um recorte diferente, talvez ainda mais angustiante em alguns aspectos. A personagem interpretada por Julianne Moore vive uma manifestação precoce da Doença de Alzheimer, algo que chama atenção justamente por não ser o padrão mais comum.

Na maioria dos casos, a doença de Alzheimer tem início após os 65 anos, e quando ela aparece antes disso, falamos em início precoce, uma condição menos frequente, mas que costuma ter um impacto ainda mais desorganizador por atingir pessoas em uma fase da vida ainda marcada por múltiplos papéis, responsabilidades e projetos em curso. No filme, o que vemos não se limita à perda de memória, envolve também a consciência dessa perda, e talvez seja isso que torna a experiência ainda mais dolorosa, porque não se trata apenas de esquecer, mas de perceber que se está esquecendo, de assistir a si mesmo se perder. A personagem, uma linguista que percebe ir embora seu campo de trabalho, a fala… coloque-se no lugar de alguém que percebe que seu mundo está mudando numa direção que você não consegue frear e tente entender o quão impactante isso é não só em quem está ao redor, mas em si mesmo.

Um olhar mais técnico sobre a Doença de Alzheimer

Do ponto de vista clínico, a Doença de Alzheimer é classificada como um transtorno neurocognitivo maior, caracterizado por um declínio progressivo das funções cognitivas. De acordo com os critérios do DSM-5-TR, esse declínio envolve prejuízos em áreas como memória, linguagem, atenção, funções executivas ou habilidades visuoespaciais, e não se restringe a uma percepção subjetiva, podendo ser observado por terceiros ou identificado em avaliações clínicas e neuropsicológicas.

Esse comprometimento impacta diretamente a autonomia do indivíduo, tornando atividades do dia a dia progressivamente mais difíceis, e apresenta um curso evolutivo, o que significa que tende a se agravar ao longo do tempo. No caso específico do Alzheimer, há um predomínio inicial do comprometimento da memória, especialmente na capacidade de formar novas lembranças, o que o diferencia de esquecimentos comuns e indica uma alteração estrutural no funcionamento cerebral, que, com o avanço da doença, passa a afetar outras funções cognitivas.

Fato curioso, é que familiares costumam dizer: “doutor, o papai lembra de coisas da infância dele, mas esquece o que comeu no café-da-manhã”. Isso não é raro, sendo inclusive a forma mais comum de amnésia, também conhecida como amnésia retrógrada, que é a incapacidade de formar novas memórias, tendo inclusive um epônimo, “Lei de Ribot”, pois foi formulada pelo psicólogo francês Théodule-Armand Ribot em 1881, e também é conhecida como lei da regressão mnêmica.

Quando a memória deixa de sustentar o vínculo

Existe algo profundamente poético, e ao mesmo tempo doloroso, em perceber que o vínculo pode continuar existindo mesmo quando a memória falha, talvez porque o amor nunca tenha dependido exclusivamente da lembrança. Ele também se manifesta na presença, no gesto, na rotina, na repetição, na forma como alguém segura sua mão, no tom de voz, na maneira como o corpo responde ao cuidado, mesmo quando as palavras já não conseguem organizar a experiência.

Algo ainda comunica… algo ainda reconhece… e, muitas vezes, é isso que sustenta quem fica.

Checkpoint Final

A demência é, sem dúvida, um tipo de luto, um luto que começa cedo demais, que não tem um ponto claro de ruptura e que exige uma adaptação constante, mas também pode revelar algo importante sobre a forma como nos vinculamos uns aos outros, especialmente quando a memória deixa de ocupar o lugar central nessa relação.

Amar alguém que está se apagando é, de certa forma, continuar acendendo pequenas luzes em um ambiente que escurece aos poucos, não para impedir a noite, mas para tornar possível atravessá-la.

O que ainda conseguimos manter, mesmo quando quase tudo parece estar desaparecendo?

2 thoughts on “Quanto de alguém precisa desaparecer para você sentir que perdeu?

  1. Esse texto me toca profundamente, por se tratar de uma doença que me aflige nos meus 63 anos completados no mês de março desse ano.
    Já tive na família, casos e em amigos também.
    É algo que me apavora. Esquecer quem sou, quem fui, sei lá.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *